
Nesta edição, o fim do otimismo no Suriname, o bairro mais “cool” da América Latina, o clube de leitura do Galo e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, o petróleo como temática literária, os 40 anos de um disco seminal, a luta do povo Waorani e mais.
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No terceiro ano do Ensino Médio, a minha turma de amigos – que não era exatamente conhecida pelos dotes nos esportes coletivos – decidiu aproveitar o tempo da aula de educação física para ficar na maciota criando apostas quase montypythonescas de tão absurdas. Uma delas foi: “Em quanto tempo você acha que o petróleo vai acabar?”. Lembro que o meu palpite foi de 45 anos. Não vou revelar quantos desses já passaram, mas acho que continuo bem na disputa.
Enquanto o petróleo não acaba, decidiu-se que seria justo comemorar o Dia Mundial do Petróleo em 29 de setembro. Confesso que a data jamais tinha sido notada pelas minhas pestanas, mas está cada vez mais difícil ignorar que o recurso continua no centro de algumas das principais transformações econômicas e geopolíticas do planeta.
A América Latina, por exemplo, já virou um novo polo global de exportação de petróleo, com o avanço da exploração na Margem Equatorial brasileira, o crescimento acelerado da produção na Guiana (tem notícia ali embaixo sobre isso) e o potencial das reservas argentinas têm atraído investimentos e ampliado o interesse internacional pela região. Ao que tudo indica, o século XXI ainda está longe de encerrar sua relação com o ouro negro.
E bem, há poucos meses, os Estados Unidos ampliaram sua presença no setor petrolífero da Venezuela, mostrando que o petróleo continua movendo não apenas carros, navios e indústrias, mas também projetos de poder, alianças estratégicas e disputas internacionais.
Muito antes de analistas políticos e economistas discutirem o tema, porém, escritores latino-americanos já tentavam responder a uma pergunta fundamental: o que acontece quando a riqueza de um país passa a depender de um recurso escondido sob a terra? Da década de 1930 aos dias de hoje, alguns dos romances mais instigantes do continente usaram o petróleo para refletir sobre progresso, desigualdade, colonialismo, soberania e identidade nacional. Veja alguns deles a seguir.
Cubagua, de Enrique Bernardo Núñez
Enrique Bernardo Núñez ocupa um lugar singular na literatura latino-americana, ainda que não seja tão reconhecido por aqui como deveria. Sua obra mais célebre, Cubagua, foi publicada em 1931, décadas antes do chamado “boom” latino-americano. A trama acompanha Ramón Leiziaga, um funcionário do governo que chega à ilha de Cubagua e passa a experimentar uma realidade em que os limites entre passado e presente se dissolvem. Personagens contemporâneos parecem reaparecer sob outras formas em episódios do século XVI, criando um jogo de espelhos que mistura história, mito e memória. O aspecto mais fascinante do romance está na analogia entre dois ciclos de exploração. As pérolas que enriqueceram conquistadores espanhóis durante a colonização aparecem como antecessoras do petróleo que transformaria a Venezuela no século XX. O recurso muda, mas a lógica permanece: riqueza concentrada, exploração do território e interferência de interesses externos. Hoje, muitos críticos vêem Cubagua como uma obra precursora de técnicas narrativas que depois seriam associadas ao boom latino-americano. Seu tratamento não linear do tempo, a fusão entre realidade e mito e a sobreposição de planos históricos antecipam recursos que seriam explorados por autores como Carpentier, Carlos Fuentes, José Donoso e Gabriel García Márquez.
Mancha de aceite, de César Uribe Piedrahita
Médico, cientista, explorador e escritor colombiano, César Uribe Piedrahita pertence à geração de intelectuais que buscou compreender as profundas transformações econômicas da América Latina durante a primeira metade do século XX. Sua obra mais conhecida, Mancha de aceite, saiu em 1935, mas ainda é considerada uma das grandes novelas petrolíferas do continente. Ambientado na região do lago de Maracaibo, o romance examina os impactos da exploração petrolífera sobre trabalhadores, comunidades locais e o próprio Estado venezuelano. Diferentemente de Cubagua, que trabalha com símbolos e paralelos históricos, Mancha de aceite adota um tom mais direto e combativo. O livro denuncia as condições de trabalho impostas pelas multinacionais, a destruição ambiental provocada pela exploração dos recursos naturais e a influência crescente das empresas estrangeiras sobre a política venezuelana. Também questiona a proximidade entre essas companhias e a ditadura de Juan Vicente Gómez, governante que comandou a Venezuela durante boa parte do período de consolidação da indústria petrolífera. Perdão pelo clichê, mas é impressionante a atualidade do romance. Muitas das discussões que mobilizam o debate contemporâneo, como soberania energética, dependência econômica e ingerência estrangeira, já estavam presentes ali.
Casas muertas, de Miguel Otero Silva
Poucos escritores participaram tão intensamente da vida política e cultural venezuelana quanto Miguel Otero Silva. Jornalista, romancista, fundador do jornal El Nacional, opositor de ditaduras e posteriormente senador, sua obra buscou registrar as transformações profundas vividas pela Venezuela ao longo do século XX. Agraciado com o Prêmio Nacional de Literatura da Venezuela, Casas muertas, de 1955, se passa em Ortiz, um povoado dos Llanos venezuelanos devastado pela malária, pela pobreza e pela mais completa falta de perspectiva. O lugar, que já conheceu dias melhores, encontra-se em lenta decomposição: casas abandonadas, ruas vazias e sonhos interrompidos compõem o cenário de uma comunidade que parece caminhar para a extinção. O petróleo quase não aparece diretamente na narrativa, mas está presente como a força motriz que reorganiza o país, uma vez que, enquanto Ortiz agoniza, milhares de venezuelanos partem em direção às novas zonas petrolíferas, atraídos pela promessa de prosperidade. O romance registra justamente esse momento histórico: o ocaso da Venezuela rural e o início da migração que transformaria radicalmente a sociedade do país.
Oficina N° 1, de Miguel Otero Silva
Enquanto Casas muertas mostra aquilo que o petróleo destrói, Oficina N° 1 mostra aquilo que ele constrói. Publicado seis anos depois da obra de Otero Silva, o romance funciona como uma continuação direta da história anterior. Alguns personagens deixam para trás o decadente povoado de Ortiz e seguem rumo ao oriente venezuelano, onde surge um novo mundo impulsionado pela descoberta do petróleo. Inspirado no surgimento da cidade de El Tigre, o livro acompanha o crescimento acelerado de um assentamento construído ao redor de um poço petrolífero. O que começa como um acampamento improvisado rapidamente se converte em uma cidade marcada pela chegada de aventureiros, trabalhadores, comerciantes, empresários e oportunistas vindos de todas as partes. Otero Silva descreve esse espaço como uma espécie de laboratório social. A riqueza produzida pelo petróleo gera esperança e mobilidade, mas também desigualdade, especulação, degradação ambiental e novas formas de exploração. Casas muertas e Oficina N° 1 formam talvez o retrato literário mais completo da transformação da Venezuela em potência petrolífera. Ao lado do próximo livro, foram os únicos que ganharam edições brasileiras.
O gosto da liberdade, de Alejandro Puyana
Quase um século depois dos primeiros registros do petróleo na literatura, Alejandro Puyana revisita a história do ouro venezuelano a partir de outro ponto de vista: o da ruína. Nascido em Barquisimeto e radicado por muitos anos no exterior, Puyana pertence a uma geração marcada pela crise venezuelana. Em seu romance, acompanha uma família da elite econômica do país ao longo de décadas de prosperidade e declínio, mostrando como a riqueza petrolífera moldou relações familiares, hierarquias sociais e expectativas de futuro. O gosto da liberdade examina aquilo que resta depois que a promessa do petróleo começa a falhar. Uma obra que dialoga diretamente com toda a tradição literária inaugurada por autores como Núñez, Uribe Piedrahita e Otero Silva. O livro saiu em 2024 e foi publicado aqui no Brasil pela Pinard, além de ter sido um dos livros enviados para os assinantes da TAG. Dê uma olhada num trechinho:
“Sete anos não eram nada, porém 1958 parecia um passado remoto a Stanislavo. Caminhando pela cidade à noite — até então afastado das operações diárias do Movimento e sentindo uma culpa avassaladora pelos amigos presos —, pensou que eles talvez nunca a recuperassem. Os outros não viam? A questão devorava Stanislavo por dentro. Após 1958, a complacência dominou. Com o fim de Pérez Jiménez e sua ditadura, com a “democracia” estabelecida, com dinheiro nos bolsos certos, quem se importava com a pobreza, desde que se mantivesse na margem dos rios e no alto dos morros, longe de vista? Quem se importava se dissidentes continuavam sofrendo tortura, desde que isso não constasse nos documentos? Quem se importava se os Estados Unidos roubavam o país deles, um barril de petróleo por vez? Stanislavo se importava. Nunzio e Molina se importavam. Emiliana se importava. Tucán e Tomasa se importavam. O espírito deles lhe fazia companhia enquanto Stanislavo se aproximava de Chacao, via a loja do pai de Nunzio, reparava no Chevrolet preto estacionado do outro lado da rua, nas duas figuras sentadas. Como crocodilos em um rio escuro. A visão do carro arrepiou a nuca de Stanislavo. Ele levou a mão acima do lábio, ao bigode que não estava mais ali.”
Com informações de Carmen Becerra Suarez, Augusto Escobar Mesa e Eduardo Casanova

Milagre na Guiana. Impulsionada pela exploração de petróleo, a Guiana deve crescer 19,7% em 2027 e seguir como a economia de expansão mais rápida da América Latina e do Caribe, segundo a Cepal. Com reservas estimadas em até 11,6 bilhões de barris, o país vive uma transformação econômica sem precedentes, embora especialistas reforcem que a diversificação da economia será fundamental para sustentar esse avanço no longo prazo. Leia mais aqui.
Rubio de vergonha. Em carta enviada ao secretário de Estado Marco Rubio, 31 parlamentares americanos questionaram medidas do governo Trump que levantam preocupações sobre uma possível interferência nas eleições brasileiras. O grupo pede que os Estados Unidos se comprometam a respeitar o processo eleitoral e reconhecer o resultado das urnas de outubro. Veja a reportagem aqui.
Mariana Enriquez na Netflix. Quatro contos da escritora argentina Mariana Enriquez foram adaptados para a minissérie Meus mortos tristes, lançada pela Netflix na última quinta-feira. Dirigida pelo chileno Pablo Larraín, a produção reúne personagens e elementos de diferentes histórias da autora em uma narrativa única, levando ao audiovisual uma das vozes mais influentes da literatura latino-americana contemporânea. Leia mais aqui.

🎧 Da pista para o xadrez. Figura central da cena musical barcelonesa dos anos 1990 e 2000, o DJ Ángel Francisco López seria facilmente reconhecido por gente como Shakira, Leo diCaprio e Tobey Maguire. Em seu novo livro, no entanto, ele conta a trajetória que o chutou dos clubes mais badalados da cidade direto para uma prisão panamenha. Condenado por tráfico de drogas em um caso que descreve como uma “trama sinistra”, ele passou cinco anos encarcerado e transformou a experiência em um relato sobre queda, sobrevivência e reinvenção. Descubra a lenda aqui.
🎸 Obra-prima do Chile. Lançado em 1986, Pateando Piedras transformou Los Prisioneros em um dos principais nomes da música latino-americana. Quarenta anos depois, músicos e críticos revisitam o álbum que incorporou sintetizadores e novas sonoridades para falar de desemprego, desigualdade e vida cotidiana, marcando uma geração inteira. Leia a reportagem aqui.
🎬 Destaque em San Sebástian. Produções da Colômbia, de El Salvador e da Argentina receberam apoio financeiro no Festival de San Sebastián para concluir suas filmagens e etapas de pós-produção. Os prêmios reforçam o papel do evento espanhol como uma das principais vitrines do cinema latino-americano e ajudam a impulsionar obras que devem circular internacionalmente nos próximos anos. Veja a matéria completa aqui.

Na Amazônia equatoriana, entre os rios Napo e Curaray, vivem os Waorani, povo indígena que durante séculos vive como eremita, mantendo pouco contato com o mundo exterior. Caça, pesca e agricultura fazem parte de seu modo de vida, assim como um profundo conhecimento da floresta, de suas plantas, animais e rios. Mas o território onde vivem guarda também outra riqueza: grandes reservas de petróleo.
A história recente dos Waorani mudou a partir da década de 1950, quando missionários passaram a estabelecer contato permanente com suas comunidades. Depois deles, vieram estradas, empresas e poços de petróleo, dando início à exploração que transformaria a paisagem e traria novas relações com a sociedade equatoriana. As disputas territoriais, impactos ambientais e conflitos permanecem até hoje.
Grande parte dessa história se passa no Parque Nacional Yasuní, território ancestral dos Waorani e uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. Em 2023, um referendo nacional decidiu pela interrupção da exploração de petróleo no bloco 43, localizado dentro do parque. Dois anos depois, porém, centenas de poços ainda permanecem abertos, e o processo de retirada da atividade segue sendo discutido.
Para os Waorani, a questão vai muito além do que pode ser extraído do subsolo. A floresta é fonte de alimento, território, memória e conhecimento. É também onde sobrevivem práticas tradicionais e o wao tededo, sua língua. Ao longo das últimas décadas, organizações waorani passaram a atuar cada vez mais na defesa de seus territórios e na recuperação de áreas afetadas pela exploração.
Esta edição foi finalizada numa sexta-feira de manhã, na qual a seleção masculina de futebol mostrou que joga tão bem quanto a minha turma do Ensino Médio.
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