El pueblo unido…

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Nesta edição, escolhas realmente difíceis de fazer, a pressão dos EUA em Cuba, La Bombonera vítima de preconceito e mais.

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O canto popular que nasceu no Chile e atravessou fronteiras. Foto: Reprodução.

Eu sei que você completou o título deste texto mentalmente. El pueblo unido jamás será vencido – ou “O povo unido jamais será vencido”, como entoamos por aqui – nasceu no Chile, em 1973, em meio à efervescência política que antecedeu o golpe militar, mas logo ultrapassou as fronteiras do país vertical. Foi e vem sendo cantada em praças, manifestações e movimentos de resistência de toda a América Latina – e também fora dela. Tornou-se o hino oficial da esperança ativa, que é a irmã mais sábia do otimismo. Uma lembrança de que, mesmo quando tudo parece ter ido para o vinagre, as pessoas ainda podem se reunir e mudar o rumo das coisas. Anteontem, enquanto a apuração dos votos se aproximava dos estertores e o resultado oficial estava prestes a sair, pensei nessa canção.

A mobilização que levou Lula à reeleição foi construída por pessoas que se organizaram, convenceram, compartilharam informações e foram às ruas. Houve articulação política, participação de movimentos sociais e estudantis e uma disposição coletiva de defender um projeto de país. Nas redes e fora delas, muita gente fez a sua parte, fazendo vídeos, hashtags e publicações explodirem pelos quatro cantos da nação. Foi algo histórico, mas não exatamente inédito na América Latina.

Em 17 de outubro de 1945, trabalhadores argentinos ocuparam a Plaza de Mayo para exigir a libertação de Juan Domingo Perón. A mobilização se tornou um marco do peronismo e da participação popular na política argentina: naquele dia, a classe trabalhadora mostrou que podia ocupar o centro da cena política e mudar os rumos do país. A força desse movimento e as divisões que ele provocou continuariam a marcar a Argentina nas décadas seguintes. A obra Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato, é uma ótima pedida para quem quer entender esses ecos.

A Revolução Mexicana também deixou uma herança que não cabe numa narrativa simples de vitória ou derrota. Iniciada em 1910, colocou em xeque a concentração de terras e a exclusão dos camponeses, mas seus ideais esbarraram nas contradições do poder. Mariano Azuela acompanhou a experiência dos combatentes em Os de baixo, enquanto Nellie Campobello recuperou as memórias de infância para registrar, em Cartucho a violência vista de perto, sem o verniz dos grandes relatos heroicos. Décadas depois, em A morte de Artemio Cruz, Carlos Fuentes voltaria àquele processo pelo avesso: a trajetória de um homem que ascende socialmente e se beneficia de um sistema que traiu parte das promessas revolucionárias.

No Haiti, a história foi ainda mais radical. A revolta de pessoas escravizadas contra o domínio colonial francês culminou na independência, em 1804, e abalou uma ordem que parecia inquestionável. Mas o que acontece depois de uma revolução? Em O reino deste mundo, Alejo Carpentier percorre os levantes e as mudanças de poder que se seguiram à insurreição haitiana, mostrando como a libertação pode conviver com novas formas de opressão.

A lista poderia continuar: no Peru, a rebelião liderada por Túpac Amaru II, em 1780, desafiou o domínio colonial espanhol; na Colômbia, a greve dos trabalhadores das plantações de banana, em 1928, terminou em massacre e entrou para a memória literária em Cem anos de solidão; de novo na Argentina, o “Cordobazo”, em 1969, reuniu trabalhadores e estudantes contra a ditadura militar. Em contextos e épocas diferentes, esses movimentos colocaram em xeque a ideia de que a ordem vigente era imutável – e mostraram que a ação coletiva pode abrir brechas até nos cenários mais hostis.

O Brasil passou muito tempo convencido de que era uma ilha. Uma eleição não apaga essa distância, tampouco resolve os problemas do país. Mas pode nos ajudar a reconhecer que não estamos sozinhos. Ainda que hoje a paisagem ao redor seja um tanto quanto nefasta, nossos vizinhos também enfrentaram autoritarismos, desigualdades e momentos em que o futuro parecia já ter sido decidido por outros. E, repetidas vezes, encontraram maneiras de contestar esse destino. Que esta vitória sirva para lembrar que outros caminhos são possíveis, e que nossos povos já demonstraram, tantas vezes, que podem construí-los. Não se esqueçam de que somos latinos. E estamos unidos.

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