Lyonel Trouillot nasceu em Porto Príncipe, Haiti, em 1956, e vive na cidade até hoje. Veio de uma família de escritores e historiadores – seu pai era professor de literatura, e suas irmãs, Évelyne e Jocelyne, também seguiram a carreira literária. Ele próprio começou estudando direito, mas a paixão pela escrita falou mais alto. Antes de se dedicar ao romance, publicou poemas e escreveu letras para músicos haitianos como Toto Bissainthe e Manno Charlemagne, além de colaborar com jornais e revistas locais.
A carreira de romancista começou no final dos anos 1980, com Les fous de Saint‑Antoine, mas foi em 1998 que ganhou projeção internacional com Rue des Pas‑Perdus, publicado pela Actes Sud. O romance reconstitui a noite de 30 de setembro de 1991, quando o golpe militar desmontou a frágil democracia haitiana pós‑Duvalier. Trouillot não se limita a narrar os acontecimentos; ele mergulha na cabeça de personagens simples, gente que carrega no corpo e na memória o peso da repressão. O estilo é vertiginoso, de frases longas e respiração tensa, e a crítica social vem sem didatismo, embutida na própria construção da narrativa.
Em Bicentenaire (2004), ele parte do bicentenário da independência haitiana para traçar um retrato corrosivo do país: pobreza, corrupção e violência atravessam as histórias de uma galeria de personagens que nunca encontram saída. Já em La Belle Amour humaine (2011), o livro que o colocou entre os finalistas do Goncourt, a densidade política cede espaço a uma meditação mais contida sobre o amor e a memória, sem perder o olhar agudo sobre as desigualdades. O romance rendeu a Trouillot os prêmios do Grand Prix du Roman Métis, do Salão do Livro de Genebra e o Gitanjali Literary Prize.
Além da escrita, Trouillot atua como professor de literatura francesa e crioula em Porto Príncipe e mantém oficinas literárias para formar novos autores. Foi também ministro da Cultura no governo de transição entre 2004 e 2006, uma passagem controversa que não abalou sua posição de crítico ferrenho das elites e das ditaduras. Em 2014, assinou o roteiro de Murder in Pacot, filme de Raoul Peck sobre as consequências do terremoto de 2010. Sua obra, sempre ancorada na realidade haitiana, recusa o exotismo e aposta numa literatura de intervenção, onde a beleza da frase não atenua a dureza do que é dito.
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