Lançamentos e uma reflexão pós-primeiro turno

Lançamentos e uma reflexão pós-primeiro turno

Nesta edição, os livros que passam a integrar o catálogo da Pinard neste mês, e uma história que a gente já leu e não tá a fim de reler.

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LEITURA DE 11 MINUTOS

Tradicionalmente, a primeira newsletter do mês é dedicada às nossas pré-vendas. Hoje, porém, precisamos tratar de uma história que está acontecendo do lado de fora dos livros. O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras parece ser mais um capítulo de uma história que vem sendo contada há alguns meses na América Latina: a história do avanço da direita radical e da ampliação da influência dos Estados Unidos na região.

Na Argentina, um homem de mais de 50 anos se vestiu de super-herói, empunhou uma motosserra e chegou à Presidência prometendo liberdade e uma ruptura radical com o Estado. No Equador, a maior parte do eleitorado acreditou que o país não estava na boa e deu sinal verde para as Forças Armadas ampliarem seus poderes. No Peru, a filha de um ex-ditador agora é a presidenta. Isso sem falar de Chile, Colômbia, Paraguai e outros países da região, que também passaram recentemente por guinadas que redesenharam seus mapas políticos.

Quem dera tudo isso fosse a trama de um livro inédito de Alejo Carpentier ou de um manuscrito perdido numa das gavetas de Augusto Roa Bastos. A América Latina sempre teve o talento de produzir realidades que parecem inventadas. Mas nem mesmo as nossas vozes mais inventivas seriam capazes de reescrever uma ladainha de mais de 200 anos e promovê-la como se fosse um texto inédito. Antes, eram as potências europeias e o fantasma da recolonização; depois, o comunismo soviético e a Revolução Cubana. Agora, são os cartéis de drogas, a migração e a influência chinesa. Mudam os inimigos, mudam as justificativas, mas permanece a velha ideia de que os Estados Unidos têm um papel especial e divino a desempenhar no resto do continente. Papel que se torna mais fácil de cumprir quando os líderes que elegemos ajudam a abrir caminho para o Tio Sam.

Só quem já leu essa história sabe o quão perigoso é o próximo capítulo, esse que deve ter seu ponto final no próximo dia 25. Nós, da Pinard, acreditamos que, até lá, ainda dá para  mudar o enredo.


O que aproxima um líder sindical que transformou uma greve histórica em matéria literária, um marinheiro condenado a vagar de porto em porto atrás de uma pessoa e uma poeta que revolucionou a escrita do desejo feminino na América Latina? As três descrições retratam os lançamentos da Pinard que estão em pré-venda a partir de outubro. Em Mamita Yunai, Carlos Luis Fallas converte sua convivência com os trabalhadores das plantações de banana da Costa Rica em uma das mais contundentes denúncias sociais da literatura latino-americana. Já no livro Ilona chega com a chuva, Álvaro Mutis conduz os leitores por um Caribe de aventuras improváveis, personagens errantes e melancolia. Por fim, As línguas de diamante e outros poemas apresenta a obra de Juana de Ibarbourou, autora que fez do amor, do corpo, da natureza e da passagem do tempo a matéria-prima de uma poesia que marcou gerações. Três livros muito diferentes entre si, mas unidos pela capacidade de revelar aspectos fundamentais da história, da imaginação e da sensibilidade do continente. Vamos a eles.

Mamita Yunai, de Carlos Luis Fallas 

Publicado em 1941, Mamita Yunai acompanha José Francisco Sibaja em sua viagem pela região bananeira da Costa Rica, onde testemunha a exploração dos trabalhadores pela United Fruit Company, multinacional que se tornou símbolo da influência econômica e política dos Estados Unidos na América Central. A trama é baseada nas próprias experiências de seu autor, Carlos Luis Fallas – ou “Calufa”, como gostava de ser chamado –, que trabalhou nas plantações de banana da costa atlântica costa-riquenha, participou da organização dos trabalhadores e liderou a histórica greve de 1934, a maior mobilização operária da história do país até então. Essa vivência aparece ao longo de todo o livro, que combina ficção, testemunho e denúncia para retratar a corrupção eleitoral, o racismo contra populações negras e indígenas, as condições degradantes de trabalho e a concentração de poder nas mãos da companhia bananeira.

Na Costa Rica, a vanguarda política ligada ao movimento operário encontrou no realismo social uma de suas principais formas de expressão, e Calufa transformou a literatura em instrumento de intervenção sobre a realidade. Financiado pelo próprio autor, o romance circulou inicialmente em edições artesanais entre trabalhadores das plantações bananeiras, antes de ser publicado comercialmente. Entre os episódios mais chocantes relatados na obra está a prática de enterrar trabalhadores mortos durante o serviço nas próprias plantações, por ordem dos capatazes, para que seus corpos servissem de “adubo para a bananeira”. Ao registrar essas e outras violências, o romance dá voz aos trabalhadores e articula, em uma mesma narrativa, exploração econômica, desigualdade racial, disputa política e imperialismo. Essa é a primeira obra da Costa Rica a fazer parte do catálogo da Pinard.

Não somos os únicos admiradores do livro. A dimensão continental da história inspirou o poema “La tierra se llama Juan”, de Pablo Neruda, que recupera o luta do trabalhador bananeiro retratado em Mamita Yunai:

“No te conozco. En las páginas de Fallas leí tu vida, / gigante oscuro, niño golpeado, harapiento y errante. // De aquellas páginas vuelan tu risa y las canciones / entre los bananeros, en el barro sombrío, la lluvia y el sudor.”

Mais de oito décadas depois de sua publicação, o livro permanece como um dos grandes romances sobre trabalho, desigualdade e exploração na América Latina.

Ilona chega com a chuva, de Álvaro Mutis

Como acontece em grande parte da obra do colombiano Álvaro Mutis, a aventura começa pelo fim. Logo nas primeiras páginas de Ilona Chega com a Chuva, Maqroll, o Gajeiro, vê desaparecer o pouco de estabilidade que possuía após a morte do proprietário do navio em que trabalhava. Sem embarcação, sem dinheiro e preso em terra firme no Panamá, ele se vê lançado mais uma vez ao acaso.

É nesse cenário que reaparece Ilona Grabowska, companheira de antigas jornadas, tão inquieta e imprevisível quanto ele. Cosmopolita e de origem polonesa, Ilona atravessa a narrativa como uma força da natureza: é independente, viajante, prática e inimiga da zona de conforto. Juntos, os dois criam um negócio extravagante para tentar sobreviver e retomar a vida errante que compartilham. A origem polonesa da personagem também alimentou especulações sobre uma possível inspiração em Elena Poniatowska, amiga de Mutis e descendente da aristocracia polonesa, a quem o escritor se referia como “uma mulher excepcional”. Com a chegada de Larissa na trama, personagem envolta em mistério, altera profundamente a dinâmica entre eles e conduz a narrativa para territórios cada vez mais ambíguos.

Publicado em 1988, o romance é a segunda obra do universo literário de Maqroll, personagem que atravessa boa parte da produção de Mutis. Entre portos decadentes, hotéis provisórios, contrabandistas, marinheiros e sonhadores derrotados, o escritor colombiano constrói um Caribe ao mesmo tempo concreto e mítico. É um mundo de negócios que fracassam, dívidas que se acumulam, embarcações que desaparecem e personagens que parecem sempre estar de passagem.

Mas a errância de Maqroll nunca é apenas geográfica. Em Mutis, viajar é também uma maneira de existir: partir sem saber exatamente para onde, construir planos que provavelmente fracassarão e continuar procurando alguma coisa que talvez nem tenha nome. Em Ilona Chega com a Chuva, erotismo, amizade, aventura e melancolia se encontram em uma narrativa sobre personagens incapazes de criar raízes – ou de lançar a âncora. 

As línguas de diamante e outros poemas, de Juana de Ibarbourou

A publicação de As línguas de diamante, em 1919, representa um novo marco para a poesia latino-americana. É que sua autora, a uruguaia Juana de Ibarbourou, falava do corpo, do desejo, da natureza e do prazer feminino com uma clareza e uma espontaneidade que contrastavam com o tom mais atormentado de muitas das grandes poetas que a haviam precedido. Delmira Agustini, Gabriela Mistral e Alfonsina Storni haviam explorado, cada uma à sua maneira, a paixão, a angústia e o conflito; Juana introduzia outra possibilidade: uma poesia de plenitude, de gozo e de afirmação da vida, ainda que atravessada pela consciência da passagem do tempo e da precariedade da existência. 

O impacto foi imediato. O livro circulou amplamente pelo mundo de língua espanhola e transformou sua autora em uma celebridade literária. Admirada por escritores como Miguel de Unamuno, Juan Ramón Jiménez e Federico García Lorca, Juana seria proclamada “Juana de América” em 1929, em uma cerimônia realizada no Palácio Legislativo uruguaio. Sua poesia parecia falar diretamente com os leitores, sem esconder o corpo atrás de metáforas ou convenções, e essa aparente simplicidade escondia uma transformação importante na voz poética feminina de seu tempo.

Cinquenta anos depois da publicação de As línguas de diamante, o jornal El País dedicou à efeméride um suplemento especial, com fotografias e textos sobre a autora. Entre os críticos que participaram da homenagem estava Ángel Rama, que chegou a sustentar que Juana era a destinatária natural do Prêmio Nobel de Literatura. Naquele mesmo período, novas edições do livro eram publicadas na Venezuela e na Espanha, enquanto a argentina Losada preparava uma edição de luxo. A celebração internacional mostrava que a poeta que havia irrompido meio século antes continuava ocupando um lugar central na literatura de língua espanhola.

A antologia que a Pinard publica agora permite acompanhar essa trajetória em perspectiva: da sensualidade e da luminosidade dos primeiros poemas às tonalidades mais graves de sua produção posterior, quando a espiritualidade, a velhice, a perda e o tempo passam a ocupar um espaço maior. É também uma oportunidade de reencontrar uma autora que, apesar de sua enorme consagração em vida, permanece pouco conhecida no Brasil. Ao reunir diferentes momentos de sua obra, As línguas de diamante e outros poemas revela a amplitude de uma poeta que fez da experiência feminina, do desejo e da passagem da vida uma das matérias mais férteis da poesia latino-americana.

Com informações de Vanessa Pietras, Eugenio Camacho e Ministério da Educação do Uruguai.

O que diz quem já leu

“É um livro pessoal e sem medo de ser político. É áspero e real. Chama os bois pelos nomes. É o tipo de livro que eu gostaria que mais escritores americanos tivessem coragem de escrever – ou, talvez, que mais editoras americanas tivessem coragem de publicar.”
Brian Slattery, no Goodreads

“Foi o primeiro leitor dos meus originais. Seus julgamentos são tão duros, mas também tão fundamentados, que pelo menos três contos meus morreram na gaveta do lixo porque ele tinha razão contra eles. Eu mesmo não saberia dizer o quanto dele há em quase todos os meus livros, mas há muito.”
Gabriel García Márquez, em discurso sobre Álvaro Mutis

“Há livros que se incorporam à vida de uma sociedade, iluminam-na, orientam-na de modo discreto e a explicam de tal forma que não devemos interrogar apenas sua excelência estética, mas também o enraizamento e a afinidade que conquistaram junto a seus concidadãos. As línguas de diamante é uma dessas raras e extraordinárias obras da nossa literatura.”
Ángel Rama, no El País

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