
Nesta edição, um passeio pela Bienal, uma fazenda de criptomoedas no México, o campo de futebol mais antigo da Argentina e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, o fim do otimismo no Suriname, o bairro mais “cool” da América Latina, o clube de leitura do Galo e mais.
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Por conta de outro texto, tive de reler recentemente Cândido ou o otimismo, obra escrita por Voltaire, em 1759. Fiquei envergonhado por simplesmente não lembrar que uma das passagens mais marcantes da obra se passa aqui, no Sul Global, mais especificamente no Suriname. Após atravessar guerras, terremotos, perseguições religiosas e uma sucessão de absurdos que desmontam a crença de que vivemos “no melhor dos mundos possíveis”, Cândido chega à então colônia holandesa e encontra um homem escravizado abandonado à beira da estrada, sem uma das mãos e uma das pernas. Questionado sobre tal condição, ele explica que perdeu a mão numa moenda de açúcar e a perna ao tentar fugir. Em seguida, dirige ao visitante uma frase que se tornaria célebre: “É a esse preço que vós comeis açúcar na Europa”.
É uma cena curta na extensão, mas de enorme importância na construção da arquitetura moral do livro. Até o episódio, a crítica de Voltaire ao otimismo filosófico de Leibniz se dava sobretudo por meio da ironia e da acumulação de desastres. Mas, a partir daí, o sofrimento deixa de ser uma abstração filosófica e ganha materialidade: a condição do escravizado mutilado condição é o resultado direto de um sistema econômico pautado pela exploração em seu nível mais nefasto. Pela primeira vez na trama, a pergunta que ocorre a Cândido deixa de ser apenas “como justificar o mal?” e passa a ser “quem se beneficia dele?”.
No século XVIII, o açúcar estava entre os produtos mais lucrativos do comércio atlântico. O consumo europeu crescia rapidamente, enquanto milhões de africanos eram capturados e trazidos para as plantações daqui, onde se dava a exploração. E essa passagem teria impactado particularmente Voltaire. Segundo uma nota da edição de Cândido da Penguin Books, o pensador, que era um fã de açúcar, teria lido uma observação do filósofo Claude Adrien Helvétius segundo a qual não havia um único barril de açúcar que chegasse à Europa sem estar manchado de sangue humano. A frase parece ter incomodado a ponto de o açúcar, símbolo de refinamento e prazer para os europeus, aparecer no livro como fruto de uma série de abusos cometidos do outro lado do Atlântico.
O homem escravizado é uma figura emblemática, construída para produzir choque e indignação, além de servir como prova cabal contra qualquer resquício de otimismo. Ele aparece como testemunha de uma violência que o romance denuncia, mas não como sujeito de uma narrativa própria. É justamente aí que Quão caro foi o açúcar?, de Cynthia McLeod, estabelece um diálogo fascinante com Cândido. Publicado em 1987, o romance retorna ao mesmo espaço colonial do século XVIII, mas a partir de outra perspectiva. Filha do Suriname independente e descendente de uma família profundamente ligada à história do país, McLeod desloca o foco da crítica filosófica para a reconstrução histórica. Em vez de um encontro breve que revela a crueldade do sistema, ela mergulha na sociedade que tornou esse sistema possível.
O romance acompanha principalmente a vida de duas irmãs brancas pertencentes à elite colonial de Paramaribo, mas sua grande força está em mostrar as relações complexas que sustentavam a economia açucareira. Proprietários, administradores, mulheres da elite, pessoas escravizadas, libertos e trabalhadores circulam por uma narrativa que procura revelar o funcionamento cotidiano da colônia. O açúcar deixa de ser uma metáfora e se transforma numa estrutura social completa.
Nesse sentido, o livro de McLeod realiza algo que Voltaire não poderia ou não quis fazer. O filósofo francês mostra o resultado da violência; a escritora surinamesa mostra seus mecanismos. Em Cândido, vemos o corpo mutilado. Em Quão caro foi o açúcar?, vemos a engrenagem que produz a mutilação.
Há também uma diferença importante na forma como cada obra lida com a memória. Voltaire escrevia num momento em que o sistema escravista ainda estava plenamente ativo. Sua denúncia era contemporânea dos fatos. McLeod, por sua vez, escreve depois da abolição, depois da independência do Suriname e depois de séculos de narrativas históricas produzidas sobretudo pelos colonizadores. Seu romance participa de um movimento mais amplo de recuperação do passado caribenho a partir de perspectivas locais. Não se trata apenas de condenar a escravidão, mas de compreender como ela moldou a sociedade, a cultura e as relações raciais que sobreviveram ao seu fim.
Talvez por isso a pergunta sugerida pelo título de Cynthia McLeod permaneça tão poderosa. “Quão caro foi o açúcar?” não se refere apenas ao valor econômico de uma mercadoria, mas ao custo humano escondido por trás da riqueza colonial. É a mesma pergunta que o escravizado de Cândido faz, ainda que de forma mais direta, ao afirmar que os europeus consomem açúcar ao preço de mãos e pernas amputadas.
Entre o iluminista francês e a romancista surinamesa há mais de duzentos anos de distância. Ainda assim, ambos convergem para uma mesma constatação: impérios e fortunas não surgem do nada. Por trás da doçura do açúcar, havia uma história de exploração que a Europa preferia não ver, mas que era amarga demais para passar incólume.

Extraditados pelo caso Moïse. O Haiti extraditou 18 suspeitos de participação no assassinato do presidente Jovenel Moïse, morto em julho de 2021, para serem julgados na Flórida. Entre os transferidos estão ex-militares colombianos e um ex-funcionário do governo haitiano apontado como peça-chave nas investigações. Leia mais aqui.
Para allá da disputa. As ilhas Malvinas – ou Falkland, como são chamadas na Inglaterra – abrigam 3.662 habitantes em uma das regiões mais remotas do mundo, cercada por pinguins, paisagens selvagens e uma rotina marcada pelo isolamento. O território voltou ao noticiário com as recentes declarações de Milei e a disputa territorial novamente em evidência. Essa reportagem aqui mostra como é viver neste território para além da guerra.
De volta a Frankfurt. Pela segunda vez, a Pinard foi selecionada para o CreativeSP, programa da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e da InvestSP que apoia a participação de empresas criativas em eventos internacionais. Além da preparação para as missões, a iniciativa reembolsa até 50% das despesas elegíveis, com o objetivo de fortalecer negócios, atrair investimentos e ampliar a presença internacional da economia criativa paulista. A gente embarca para a Alemanha no comecinho de outubro.
Chamada para ensaios. Lembrando queestão abertas as inscrições para o projeto editorial de ensaios da Pinard, dedicado a reflexões sobre a América Latina. Pesquisadores e autores interessados têm até 10 de dezembro de 2026 para submeter suas propostas e integrar uma coleção voltada à produção crítica sobre a região. Para se inscrever e conhecer os critérios de seleção, clique aqui.

🌆 Bairros latinos em alta. Cinco bairros latino-americanos aparecem na nova lista da Time Out dos lugares mais “cool” do mundo. Entre eles estão República, em São Paulo, e Laranjeiras, no Rio de Janeiro, mas o destaque da região ficou com Chapinero Alto, em Bogotá, que alcançou a 7ª posição no ranking global. Leia a reportagem completa aqui.
⚽ Craque Tolstói. Quem acompanha a newsletter sabe que o jogador Gustavo Scarpa, do Galo, é um leitor assíduo. Acontece que agora ele tem um canal dedicado a resenhas literárias – e a mais recente delas, sobre A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, ajudou a transformar o clássico russo em um dos livros mais vendidos da Amazon no Brasil. O entusiasmo pela leitura também chegou ao Atlético Mineiro, seu clube, onde surgiu o “Galeitura”, clube do livro que reúne jogadores e torcedores. Qual livro da Pinard a turma deveria ler?
🎶 Mesinha é latina. O canal do Tiny Desk Concert vai dedicar as próximas semanas à música feita na América Latina. Para abrir as celebrações, eles chamaram o mítico grupo peruano Los Mirlos, pioneiros da cumbia amazônica. Entre histórias, guitarras psicodélicas e homenagens à selva peruana, o grupo mostrou por que ainda é uma das referências musicais mais influentes da região. Veja aqui.

Embora o Suriname seja o único país da América do Sul onde o idioma oficial é o neerlandês, há muitas línguas que são usadas no dia a dia pela população. Uma delas é o Sranan Tongo.
Falado ativamente por cerca de 500 mil pessoas, o idioma nasceu durante o período colonial, quando pessoas escravizadas vindas de diversas regiões da África, colonizadores europeus e populações locais precisavam encontrar uma forma de se comunicar. O resultado foi uma língua crioula que reúne influências do inglês, do neerlandês, de línguas africanas e indígenas.
Durante muito tempo, o Sranan Tongo foi visto pelas autoridades coloniais como um idioma inferior, inadequado para a educação ou para a vida pública. Ainda assim, sobreviveu e se espalhou. Hoje é falado por pessoas de diferentes grupos étnicos e funciona como um dos principais elementos de identidade nacional do Suriname.
O nome também diz muito sobre sua origem: Tongo significa “língua” ou “idioma”, enquanto Sranan deriva de uma adaptação local da palavra “Suriname”. Em outras palavras, Sranan Tongo significa simplesmente “a língua do Suriname”. Esse é um raro exemplo de uma língua criada a partir do encontro de povos de diferentes continentes e que, séculos depois, continua servindo como ponto de encontro entre eles, por mais conturbado que tenha sido o passado.
Esta edição foi finalizada na manhã de segunda-feira, véspera do início da Primavera no Hemisfério Sul.
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