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Por Chico Spagnolo
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O que os mexericos entre grandes escritores revelam sobre o movimento que levou a literatura latino-americana aos quatro cantos do mundo? Que histórias nascem da luta de uma comunidade para defender suas terras? E o que pode acontecer quando um casal precisa se enfurnar num convento durante a pandemia?
Em novembro, a Pinard reúne três narrativas que passeiam pelos bastidores da literatura, por lutas populares e por histórias de encontros (e desencontros) improváveis. Tramas muito diferentes entre si, mas que têm em comum a capacidade de revelar novas facetas da América Latina. Conheça os lançamentos do mês e encontre sua próxima leitura.
Publicado originalmente em 1972, História pessoal do Boom, de José Donoso, revisita o movimento literário que levou autores latino-americanos a conquistar leitores muito além das fronteiras do continente. Só que por ter feito parte do chamado Boom latino-americano, Donoso vai além do panorama de obras e autores, e nos oferece um relato pleno de lembranças, referências e, claro, muitas fofocas.
Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes estão entre os nomes que atravessam essas páginas. Entre encontros, afinidades, rivalidades e episódios no mínimo curiosos, o escritor revela os bastidores de uma geração que transformou a maneira como o mundo lia a América Latina – sem deixar de mostrar que, por trás dos grandes livros, havia também pessoas, vaidades, amizades e disputas.
A edição da Pinard conta com tradução de Lucas Lazzaretti, projeto gráfico de Tereza Bettinardi e um glossário especial para acompanhar as referências e os personagens dessa história. Para quem quer conhecer não apenas os livros que fizeram época, mas também as histórias por trás deles.
Em Marcha por Rancas, Manuel Scorza nos transporta aos Andes peruanos, onde uma comunidade camponesa enfrenta a expansão da poderosa Cerro de Pasco Corporation sobre suas terras. Inspirado em conflitos reais ocorridos na região de Pasco, o romance retrata o embate entre os habitantes de Rancas e uma companhia mineradora que ameaça seu território e seu modo de vida.
Com uma escrita que combina elementos do realismo mágico, oralidade, humor e denúncia, Scorza transforma esse conflito em uma narrativa épica sobre resistência, dignidade e a força da organização coletiva diante de poderes aparentemente inabaláveis.
O livro inaugura o ciclo chamado “as guerras silenciosas”, conjunto de romances em que o escritor peruano recupera as lutas camponesas de seu país e dá voz a personagens frequentemente deixados à margem dos registros oficiais. Em suas páginas, disputas por território e episódios de violência ganham rostos, vozes e histórias, revelando uma dimensão humana que muitas vezes se perde nos relatos históricos.
Décadas depois dos acontecimentos que inspiraram o romance, suas questões permanecem atuais. As tensões entre exploração econômica, direitos territoriais e resistência comunitária continuam atravessando a América Latina. Ao transformar essas lutas em literatura, Scorza nos lembra que a história do continente também é feita por aqueles que resistem para defender suas terras e preservar suas formas de vida.
A edição da Pinard conta com tradução e posfácio de Gilson Charles dos Santos.
O que acontece quando um casal de homens precisa passar a quarentena em um convento? Essa é a trama de São José Dormindo, de José Ignacio Scasserra, livro que a Pinard traz de maneira inédita para o Brasil, com tradução de André Honor e do próprio Scasserra, além de prefácio de Bertoni Licarião.
Durante a pandemia, Lucas e Javier viajam para Jovita, pequena cidade do interior de Córdoba, na Argentina, para acompanhar a família de Javier, atingida pela Covid-19. Ao chegar, descobrem que precisam cumprir o isolamento no antigo convento das irmãs de São José de Pinerolo, transformado em centro de quarentena.
Confinados em um espaço mínimo e cercados por religiosas, regras e imagens de santos, os dois precisam lidar não apenas com a ameaça da doença, mas também com os desejos, ressentimentos e conflitos que a convivência forçada faz emergir. Entre a fé das freiras, as feridas do passado e as diferentes maneiras de compreender o amor, Scasserra constrói uma narrativa que combina humor, emoção e reflexão. Vencedor do Prêmio Futuröck de Romance 2024, o livro é a estreia de Scasserra no romance.
A ideia para o romance nasceu de uma experiência pessoal do autor: durante a pandemia, ele e seu companheiro chegaram a planejar uma viagem semelhante para visitar familiares doentes. A viagem não aconteceu, mas a possibilidade de uma quarentena em um convento ficou na imaginação do escritor e acabou se transformando em literatura.
“Sob o disfarce do ensaio, sem propor teorias nem assumir posições, História pessoal do Boom encarna, com humor, o contemporâneo. Por meio de sua escrita, José Donoso demonstra, sem dizê-lo, que a história literária, assim como os romances do ‘Boom’, alcança seu valor quando também abandona a província e se aventura pelo universo.”
— Verónica Cortínez, em artigo sobre o livro
“Um livro/documento histórico grandioso, que destaca a luta diária dos oprimidos, sua luta e resistência. Scorza, um gigante esquecido, foi uma descoberta maravilhosa para mim. Cada trecho é repleto de magia, realidade, crítica e sonhos. Belíssimo.”
— Iván Ramírez Osorio, no Goodreads
“Ler São José Dormindo foi, para mim, uma experiência visceral. Daquelas que incomodam, interpelam, fazem rir e chorar sem pedir licença. Daquelas que nos lembram que estamos vivos. Que ainda é possível escrever a partir de um lugar incômodo e luminoso ao mesmo tempo. Não queria que terminasse (e olha que fala sobre a quarentena da Covid).”
— Matías Dinardo, no Goodreads
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