
Nesta edição, um passeio pela Bienal, uma fazenda de criptomoedas no México, o campo de futebol mais antigo da Argentina e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, Elena Garro e os ecos de Homero, encontro para farmar aura acaba em pedrada, proposta polêmica de museu no Chile e mais.
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Musos e musas, justo agora que a maré da crítica cinematográfica de rede social parece ter baixado, vou novamente evocar A Odisseia, de Christopher Nolan, para compará-la com um conto que redescobri no ônibus, relendo-o na volta pra casa depois da sessão. Falo de “Antes da Guerra de Troia”, que está em A Semana das Cores, coletânea de contos de Elena Garro. Por uma total coincidência, abri o livro justamente nesse trecho depois que saí da sessão – e achei que não lê-lo seria uma afronta ao sinal das divindades. Quando desci do ônibus, tive a sensação de ter atravessado duas versões da mesma narrativa: uma épica, outra mais corriqueira.
Daria até para apontar uma terceira narrativa, porque a própria vida de Elena Garro foi uma espécie de odisseia. Aos vinte anos, ela se casou com o astro literário Octavio Paz e atravessou o Atlântico rumo à Espanha em plena Guerra Civil. Décadas depois, em 1968, após o massacre de Tlatelolco, foi acusada de informante do governo e viu sua posição no México se tornar questionável – insustentável, até. Começou então uma longa peregrinação: tentou obter asilo nos Estados Unidos, voltou para a Espanha e passou pela França, sempre acompanhada da filha Helena. O exílio durou pouco mais de vinte anos, praticamente o mesmo tempo que Ulisses passa longe de Ítaca entre a Guerra de Troia e o retorno. Quando finalmente voltou ao México, já no início dos anos 1990, descreveu a experiência como algo quase onírico: regressava a um lugar que já não reconhecia por completo, e que também já não se importava com ela. É exagero dizer que isso tem ares de trama homérica?
Volto ao conto: a história de “Antes da Guerra de Troia” começa quando as irmãs Eva e Leli furtam da mãe um livro escondido sob o travesseiro, a Ilíada. As meninas levam a obra para a copa de uma árvore e começam a ler. E, ao descerem dela, o mundo nunca mais seria o mesmo. Até então, as duas formavam uma unidade quase perfeita, compartilhando pensamentos, sensações e uma mesma percepção da realidade. Mas a leitura abre uma fenda irreversível: diante da súplica de Heitor para que seu corpo não seja abandonado aos cães depois da morte, Eva declara que está do lado de Aquiles. Leli escolhe Heitor. Nenhuma das duas argumenta exatamente a escolha, como se escolhessem clubes de futebol. A cena funciona como se cada uma apenas reconhecesse algo que já habitava dentro dela. Eva se rende ao brilho de Aquiles, ao herói que escolhe a glória absoluta mesmo sabendo que vai morrer por ela, que não aceita limite, nem para a própria dor, nem para a própria fúria. Leli se reconhece em Heitor, no homem que luta não por si, mas pelos que ficam – a cidade, a esposa, o filho –, e que, mesmo prestes a morrer, pede apenas o direito básico de ser lembrado e enterrado com dignidade.
O que a leitura revela é o choque de identidades. Leli passa a enxergar Eva como uma estranha sentada na mesma árvore. A casa parece diferente, os telhados já não a reconhecem, o cheiro das coisas se altera, as palavras perdem consistência. O mundo, que antes parecia inteiramente ao alcance da mão, torna-se distante e opaco. É por isso que o conto não se chama “A Guerra de Troia”, mas “Antes da Guerra de Troia”: o título aponta para um estado de unidade anterior à divisão, e o que a leitura destrói não é apenas a harmonia entre as irmãs, mas a própria possibilidade de retornar àquele mundo intacto que existia antes do livro. Garro transforma o épico em experiência íntima – a guerra entre gregos e troianos reaparece como uma guerra dentro da infância, a separação entre os exércitos se converte na separação entre duas irmãs. E o mais impressionante é que a escritora não deixa o mito confinado às páginas da Ilíada: Heitor e Aquiles continuam existindo depois da leitura. À noite, Leli escuta o som das armas de Heitor; Eva ouve o rumor do escudo de Aquiles. Os heróis atravessam o limite entre literatura e realidade e passam a habitar a casa das meninas como presenças persistentes – não personagens do passado, mas forças que continuam atuando no presente.
Nesse sentido, o conto dialoga tanto com a Ilíada quanto com a Odisseia. Afinal, o poema de Ulisses também é construído sobre a distância entre quem parte e quem retorna, entre o mundo de antes e o mundo de depois da viagem. O “antes” do título de Garro aponta para a mesma ruptura. Depois da leitura, não existe retorno possível: Leli perde a irmã que conhecia, perde o mundo que conhecia, descobre pela primeira vez a experiência do exílio. É difícil não enxergar aí uma antecipação involuntária da própria trajetória da autora – décadas antes de atravessar continentes tentando voltar a um país que a recebia com desconfiança, Garro já imaginava personagens expulsas de um território invisível: a infância, a unidade, a certeza de pertencer plenamente a um lugar.
“Antes da Guerra de Troia” é um conto sobre o poder que certas leituras exercem sobre nós desde muito cedo, sobre a capacidade que algumas meras páginas têm em mudar a forma como encaramos o mundo. Quando Eva e Leli abrem a Ilíada na copa da árvore, não se deparam apenas com uma guerra antiga, mas com uma guerra consigo mesmas. Entre Homero e Elena Garro havia quase três mil anos de distância. Mas os dois pareciam falar daquilo que se perde quando atravessamos certas fronteiras, e da impossibilidade de regressar exatamente à pessoa que éramos antes da viagem.
Com informações do artigo Los cuentos de infancia de Elena Garro y Julio Ramón Ribeyro, de Paloma Torres.

Que país é esse? Os carabineros do Chile detiveram um motorista na Ruta 5 Norte, em Lampa, ao identificar que ele trafegava com uma placa que imitava as utilizadas em veículos diplomáticos. Durante a abordagem, o condutor afirmou ter imunidade por integrar o corpo diplomático de uma suposta república chamada… Lemúria, um país que não existe. A polícia constatou que a matrícula era falsa e deu início aos procedimentos para esclarecer o caso. Leia a reportagem aqui.
Deu a louca no museu. Parlamentares do Partido Nacional Libertário, de extrema direita, apresentaram um projeto para criar um “Museu da Verdade” em contraposição ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago. A proposta pretende destacar a crise política e econômica durante o governo de Salvador Allende antes do golpe de 1973. Críticos veem a iniciativa como uma tentativa de relativizar as violações cometidas durante a ditadura de Augusto Pinochet. Confira a proposta nesta matéria.
Olha a pedra. Em Mar del Plata, na Argentina, uma disputa de “farmar aura” – expressão que o redator ainda custa a entender, mas imagina que é usada para descrever carisma e presença – terminou em tumulto, correria e pedrada. Juventude sendo juventude ou episódio capaz de reacender debates sobre os riscos de eventos convocados espontaneamente pela internet? Confira a confusão aqui.
Catapulta digital. Uma pesquisa inédita da Nielsen BookData mostra que a leitura digital pode estimular o hábito de ler. Segundo o levantamento, 49% dos brasileiros com mais de 10 anos tiveram contato com algum tipo de conteúdo digital nos últimos 12 meses. Considerando apenas e-books, audiolivros e PDFs, o índice chega a 25%, o equivalente a cerca de 47 milhões de pessoas. Confira outros dados da pesquisa aqui.

2666 data centers. Um vídeo do perfil Nossa Literatura traça paralelos surpreendentes entre o livro 2666, de Roberto Bolaño, e a chegada acelerada de data centers ao Brasil. A comparação aproxima a atmosfera apocalíptica do romance de questões muito concretas do presente. Uma bela dica para quem gosta de revisitar a literatura latino-americana à luz das transformações do mundo atual.
Fantasma camarada. Em Perón fantasma y yo, o ex-presidente argentino aparece como uma figura sobrenatural para uma jovem e dá início a uma aventura que mistura humor, política e fantasia. A série brinca com teorias e crenças em torno da profanação do túmulo de Perón e do misterioso roubo de suas mãos. São oito episódios curtos, disponíveis gratuitamente na plataforma Flixxo.
Aulas de bordado. Que tal aprender bordado enquanto mergulha na história e na cultura latino-americanas? O curso Trama y Signo, criado a partir de uma formação ministrada há quase dez anos, combina técnicas têxteis com história, arte, iconografia e cosmovisões dos povos do continente. São oito módulos, cada um com uma aula teórica e outra prática, além de bibliografia selecionada e acesso permanente ao conteúdo. Veja como se inscrever aqui.

A história dos garífunas começa no século XVII, no encontro entre populações indígenas do Caribe e africanos que chegaram à região. Na ilha de São Vicente, essa nova comunidade desenvolveu uma sociedade própria e resistiu durante décadas à expansão colonial europeia, até ser derrotada pelos britânicos. Milhares de garífunas foram então expulsos de suas terras e confinados na pequena ilha de Baliceaux (que em francês significa “bugigangas”), onde muitos morreram de fome e doença. Os sobreviventes foram deportados para a América Central: em 1797, cerca de 2 mil pessoas desembarcaram na ilha hondurenha de Roatán, ponto de partida de uma diáspora que se espalharia pela costa caribenha de Honduras e, depois, por Belize, Guatemala e Nicarágua.
A língua dos garífunas pertence à família arawak e preserva histórias, conhecimentos e modos de vida transmitidos oralmente. Os úraga, por exemplo, são relatos tradicionalmente contados em velórios e grandes reuniões, com canções sobre pesca, cultivo da mandioca, construção de canoas e casas – e uma bem-vinda dose de sátira. Os tambores ocupam lugar central nessa transmissão: conduzem ritmos que combinam elementos africanos e ameríndios e dão base a gêneros como a punta e a paranda. Essa musicalidade também sustenta o dügü, cerimônia fúnebre em que a comunidade se reúne durante dias para invocar, através de cantos, danças e do tambor, os espíritos ancestrais – os gubida – sob a condução de um buyei, o líder espiritual garífuna.
Em 2001, a UNESCO reconheceu a língua e a música garífunas como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade; em 2008, a manifestação entrou na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial. A própria UNESCO, porém, alerta para as ameaças da migração econômica, da discriminação e do enfraquecimento da língua entre as novas gerações.
No ano passado, o governo de São Vicente e Granadinas declarou Baliceaux propriedade nacional, usando a Lei de Aquisição de Terras para transformar em memorial histórico e cultural a mesma ilha que, mais de dois séculos antes, havia sido palco de confinamento e morte. O que um dia foi cenário de expulsão pode agora se tornar um espaço de memória.
Esta edição foi finalizada na tarde de sexta-feira, permitindo ao redator descansar um pouco no Sete de Setembro.
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