Pathos na cabeça

Pathos na cabeça

Nesta edição, um passeio pela Bienal, uma fazenda de criptomoedas no México, o campo de futebol mais antigo da Argentina e mais.

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LEITURA DE 9 MINUTOS
Os patinhos que dominaram a última edição da Bienal. Foto: Reprodução.

Inicialmente eu pensei que fosse uma forma de identificar os alunos de uma mesma sala ou escola. Mas quando me deparei com o trecentésimo quadragésimo jovem vestindo um desses, me dei conta de que eu estava, na verdade, diante da mais nova febre da juventude literária: o pato. Consiste num bichinho que lembra aqueles patinhos de borracha – embora aqui seja feito de outro material –, preso na cachola por meio de uma tiara ou de uma presilha. Simpático e inexplicavelmente interessante para os quinzeânicos que lotaram a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, por onde eu passei na última quinta-feira.

Voltei de lá sem meu pato, mas com um trocadilho na cabeça, como você já pode notar no título dessa edição. Pathos, na retórica antiga, é o argumento que dispensa a lógica e convence o interlocutor pela emoção, tal qual o adereço de pato que conquistou os jovens leitores por simplesmente existir. Há livros que fazem o mesmo: dispensam qualquer argumento e convencem só pela emoção que carregam. Como o Brasil está perdendo milhões de leitores a cada década que passa, por que não indicar tais obras a esses jovens leitores, na torcida para que o pato na cabeça vire, também, um livro debaixo do braço ou dentro da cuca? E assim nasceu a pequena grande lista a seguir.

As batalhas no deserto, de José Emilio Pacheco

Publicada originalmente em 1981, essa novela acompanha Carlos, um menino da Cidade do México no fim dos anos 1940, numa época em que tudo parecia possível. O país se modernizava a toda velocidade, incorporava palavras em inglês, inaugurava obras públicas todos os dias. É neste cenário de otimismo desenfreado – e amplificado pelo olhar inocente da infância – que o garoto vive aquilo que será uma das experiências mais intensas de sua vida: o enamoramento repentino e proibido pela mãe de um colega de escola.

O livro tem menos de cem páginas e se lê de uma sentada, mas carrega um peso emocional raro para o tamanho. Pacheco escreve sobre a passagem da infância para a adolescência sem nostalgia barata nem moralismo, e é justamente essa honestidade que aproxima o leitor jovem: aqui está um primeiro amor que dói, que é desprovido de lógica, que ninguém em volta sabe explicar ou consegue entender – imagino que essa seja uma sensação que a turma da tiara de pato reconhece. Também indicaria o livro porque ele é também uma excelente porta de entrada para a literatura latino-americana, sem o volume ou a complexidade estrutural que costumam afastar leitores de primeira viagem.

Cartucho, de Nellie Campobello

Escrito por uma mulher que viveu a infância em meio à Revolução Mexicana, Cartucho abandona os discursos oficiais e reconstrói o conflito pelas lentes da jovem narradora, que observa figuras anônimas que a cercam: combatentes, mulheres, famílias inteiras atravessadas pela violência. O livro é organizado em vinhetas curtas e diretas, quase fotográficas, e ganha ainda mais força por ser contado, em boa parte, pela perspectiva de uma criança tentando entender um mundo em guerra.

Para o público jovem, essa estrutura fragmentada é um convite, não um obstáculo: cada vinheta funciona quase como um conto independente, o que torna a leitura mais leve sem abrir mão da densidade histórica e emocional da obra. É também um contraponto valioso à forma como a Revolução Mexicana costuma ser ensinada nas escolas. Aqui, a história vem da voz de quem não foi para o fronte, mas viveu a guerra de baixo para cima.

O ano em que falamos com o mar, de Andrés Montero

Do escritor chileno Andrés Montero, esse romance com tons de realismo mágico acompanha dois irmãos gêmeos que escolheram caminhos radicalmente opostos: um decidiu ficar na ilha onde nasceu, e o outro quis conhecer o mundo inteiro. A história começa quando o irmão que partiu retorna, décadas depois, e se reencontra com o parente numa temporada marcada por uma pandemia mundial que os prende ali por quatro estações inteiras.

É um livro que fala diretamente com quem cresceu entre quarentenas, lockdowns e aulas remotas. Montero mistura muito bem esse pano de fundo verídico e contemporâneo com elementos ficcionais, o que dá ao romance uma atmosfera ao mesmo tempo familiar e estranha, íntima e mítica.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Fazenda na serra mexicana era usada para minerar criptomoedas. Foto: Reprodução.

Nota vermelha. O Brasil continua entre os países com pior desempenho no Pisa, principal avaliação educacional da OCDE aplicada a estudantes de 15 anos. Na edição de 2025, o país ficou em 52º lugar em leitura, 57º em matemática, 67º em ciências e 69º em resolução de problemas computacionais. Na América Latina, Chile, Uruguai e Costa Rica obtiveram resultados superiores aos brasileiros em todas as competências avaliadas. Leia mais aqui.

Farmando cripto. Autoridades mexicanas descobriram uma operação de mineração de criptomoedas escondida nas montanhas da Sierra Norte, em Puebla, com cerca de 300 mineradores em funcionamento. A suspeita é de que a estrutura tenha sido financiada por organizações criminosas. Esta é a quarta fazenda clandestina de mineração identificada na região desde 2025. Veja a notícia aqui.

Caiu, mas tá vivo. Após sete períodos consecutivos de alta, o mercado livreiro brasileiro registrou sua primeira retração em volume de vendas em 2026. Segundo o Painel do Varejo de Livros no Brasil, houve queda de 7,1% no número de exemplares vendidos em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar disso, o faturamento permaneceu estável, com leve alta de 0,9%, impulsionada pelo aumento do preço médio dos livros e pela redução dos descontos praticados no varejo. Leia a reportagem aqui.

Imposto zero, incentivo mil. O governo mexicano incluiu no Pacote Econômico de 2027 uma proposta que zera a cobrança de impostos para livrarias, medida que pode representar um benefício de até 250 milhões de pesos por ano para o setor. Além disso, foram anunciados 50 milhões de pesos para a compra de livros destinados às bibliotecas públicas do país, reforçando a política de incentivo à leitura e ao mercado editorial. Leia a proposta aqui.

Plaza de cultura

Cena de A Batalha do Chile: O Poder Popular, de Patricio Guzmán. Foto: Reprodução.

Guzmán na telona. A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai exibir quatro filmes de Patricio Guzmán em versões restauradas inéditas no Brasil. Considerado um dos grandes nomes do documentário latino-americano, o cineasta chileno construiu uma obra dedicada a registrar as transformações políticas e sociais de seu país. Uma baita oportunidade para curtir esses filmaços na telona. Veja aqui quais filmes serão exibidos.

Cancha histórica. O campo do Gimnasia y Tiro, em Salta, foi reconhecido como o mais antigo terreno futebolístico da Argentina ainda em atividade. Segundo pesquisa do Centro para la Investigación de la Historia del Fútbol, partidas são disputadas no local desde 1904 sem interrupções. O reconhecimento reforça o valor histórico e cultural do estádio para a cidade de Salta e para a memória do futebol argentino. Confira essa história aqui.

Belo e simples. Desde 2017, o escritório paraguaio Equipo de Arquitectura desenvolve projetos guiados pelo mote de que menos é mais. A ideia é eliminar tudo o que é desnecessário e construir a partir do que o lugar já oferece: terra retirada do próprio terreno, árvores preservadas e materiais locais dão forma a uma arquitetura que busca aproximar a vida cotidiana de suas condições mais essenciais. Confira algumas criações aqui.

Seres da América Latina

Padre Miguel Hidalgo retratado pelo pintor mexicano Juan O’Gorman. Foto: Reprodução.

Nas noites de 15 de setembro, as praças do México se enchem para uma das celebrações mais importantes do país. Bandeiras, música, comida, fogos de artifício e multidões aguardam o momento em que, pouco antes da meia-noite, o presidente aparece na sacada do Palácio Nacional, na Cidade do México. É hora do Grito de Dolores – que os leitores de As mortas conhecem bem.

A cerimônia remonta à madrugada de 16 de setembro de 1810, quando o padre Miguel Hidalgo y Costilla convocou os habitantes da pequena cidade de Dolores, em Guanajuato, a se rebelarem contra o domínio espanhol. Depois de tocar o sino da igreja, Hidalgo reuniu a população e lançou o chamado que daria início à guerra de Independência. O conteúdo exato daquele discurso, no entanto, nunca foi registrado: as versões do que ele teria dito foram reconstruídas posteriormente e variam entre si.

A data também sofreu uma pequena alteração ao longo do tempo. Embora o levante tenha acontecido na madrugada do dia 16, a cerimônia passou a ser realizada na noite do dia 15. A mudança se consolidou durante o governo de Porfirio Díaz, que fazia aniversário justamente em 15 de setembro. Em 1896, Díaz ainda mandou levar para a Cidade do México a própria campana de Dolores, que passou a ocupar um lugar acima da sacada central do Palácio Nacional. Desde então, ela é tocada todos os anos durante a cerimônia.

Pouco antes da meia-noite, o presidente surge na sacada, toca a campana e proclama uma sequência de vivas à Independência, aos heróis da pátria e ao México. Também não existe um texto oficial que determine exatamente quais nomes ou frases devem ser ditos, e cada presidente acaba imprimindo sua marca ao ritual, mas há sempre o inevitável “¡Viva México!” fechando o cântico.

Colofão

Esta edição foi finalizada na manhã de segunda-feira, 14 de setembro, véspera do Dia Internacional da Democracia.

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