Treme Terra

Treme Terra

Nesta edição, os terremotos que vem atingindo a região, o fim de uma Era, o recuo de Milei, a editora Eloisa Cartonera e mais.

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Um terremoto de magnitude 6,7 atingiu o Peru na última quinta-feira. Foto: Reprodução.

Desde o mês de junho, alguns países latino-americanos voltaram a enfrentar um problema bastante conhecido pelos moradores da região. Terremotos de grande magnitude atingiram Venezuela, México, Colômbia, Peru e Costa Rica, deixando milhares de mortos, famílias desabrigadas e cidades inteiras em luto. Por que a América Latina sofre com terremotos há tanto tempo, e por que parece que estamos ouvindo falar deles com mais frequência agora?

A resposta para a primeira pergunta tem um nome que parece ter saído de um livro de ficção: é o Cinturão de Fogo do Pacífico, uma faixa de mais de 40 mil quilômetros em formato de ferradura que vai do Chile até a Nova Zelândia, contornando o Oceano Pacífico. Ali estão mais de 450 vulcões e cerca de 81% dos maiores terremotos já registrados no planeta – entre eles o de magnitude 9,5 no Chile, em 1960, ainda hoje o maior terremoto já medido por instrumentos na história. No Equador, no Peru, no Chile e no oeste da Colômbia, a atividade sísmica nasce do encontro entre a placa de Nazca e a placa Sul-Americana: a primeira, oceânica, mergulha lentamente sob a segunda, num fenômeno conhecido como subducção. Essa fricção acumula energia elástica por décadas até que ela se libera, muitas vezes sobre cidades que carregam essa espera sem saber. Já o México fica na segunda placa, que é a de Cocos. A Venezuela é um caso à parte, pois seus terremotos têm como origem o contato entre a placa do Caribe e a Sul-Americana. O Brasil, por estar no interior estável da placa Sul-Americana – a chamada zona intraplaca –, é uma exceção relativamente segura na região, o que talvez explique por que, por aqui, o tema costuma soar tão distante.

Tá, mas por que parece que isso está acontecendo com mais frequência agora? Do ponto de vista da ciência, não está. Especialistas ouvidos pela imprensa nas últimas semanas, entre eles o geólogo equatoriano Rodrigo Rosero e o diretor do Instituto Geofísico do Peru, Hernando Tavera, são categóricos ao dizer que a proximidade temporal entre os tremores na Venezuela, na Colômbia e no Peru é uma coincidência. Primeiro porque são sistemas de placas diferentes, sem relação de causa entre si, e segundo porque um terremoto não “avisa” nem provoca outro a milhares de quilômetros de distância. O sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da USP, explica que o planeta registra, em média, cerca de 20 terremotos de magnitude igual ou superior a 7 por ano. Então o que muda não é a frequência dos tremores, mas a nossa proximidade com eles: quando atingem áreas densamente povoadas e viram notícia quase em tempo real, criam a sensação de que a Terra está mais inquieta do que de costume. Isso não torna a espera menos angustiante para quem vive nessas regiões, porque saber onde o risco é maior não traz grandes vantagens quando o assunto é prevenção.

Mas quando o assunto é literatura, a conversa é diferente. Nenhum terremoto latino-americano gerou uma resposta literária tão contundente quanto o que devastou a Cidade do México em 19 de setembro de 1985, matando milhares e deixando marcas profundas na sociedade mexicana. Elena Poniatowska, uma das cronistas mais importantes da América Latina, dedicou-se a reconstruir esse trauma coletivo em Nada, nadie: las voces del temblor, dando voz a sobreviventes, socorristas voluntários e vítimas com o mesmo método que a consagrou em Enquanto não te vejo, meu Jesus: deixar que fale quem normalmente não é ouvido pela história oficial. É um livro que nasce dos escombros, mas que trata da solidariedade espontânea que surgiu deles, quando a população saiu às ruas para cavar entre os prédios caídos antes mesmo de o governo reagir.

Essa mesma tradição literária atravessa o Chile, país que convive com os terremotos há tanto tempo que eles se tornaram parte de como o país conta sua própria história. Nicanor Parra tinha pouco mais de vinte anos quando testemunhou de perto o terremoto de Chillán, em 1939, um dos mais mortais da história chilena, com dezenas de milhares de vítimas. Ele registrou o impacto no poema “Epopeya de Chillán”, escrito quase em tempo real, como quem tenta processar o desastre enquanto ele ainda acontece, sem a distância que o tempo costuma dar aos poetas. Gabriela Mistral tratou o tema de forma mais simbólica: em sua poesia, a Cordilheira dos Andes aparece quase como uma força viva e imprevisível, uma imagem que traduz bem o que é crescer sabendo que a paisagem ao redor pode, a qualquer momento, deixar de ser confiável.

No entanto, é em Isabel Allende que esse medo ganha seu tratamento mais elaborado na ficção latino-americana. Em A casa dos espíritos, de 1982, seu romance de estreia, um terremoto associado ao de Chillán, de 1939, marca um dos pontos de virada mais dramáticos da trama: é durante o tremor que a parede da casa desaba sobre o patriarca Esteban Trueba, deixando-o gravemente ferido, enquanto a Nana, personagem central da família, morre de susto ao sentir a terra ceder sob seus pés. A cena reorganiza as relações de poder dentro da família Trueba e evidencia as rupturas políticas mais violentas que o país vivia e seguiria vivendo décadas depois, sob a ditadura de Pinochet. É esse traço, típico do realismo mágico de Allende, que transforma um fenômeno geológico em metáfora de um abalo que atravessa gerações inteiras de uma família, e de um país inteiro, muito depois de a terra ter parado de tremer.

Com informações de Bloomberg Línea e ND+.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Descendente de argentino assume o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental. Foto: Reprodução.

Sem direitos. O governo do Chile apresentou uma proposta que prevê restringir o acesso de condenados por crime organizado e terrorismo a determinados serviços públicos, incluindo o sistema de saúde. As limitações valeriam durante o cumprimento da pena e poderiam se estender por até 15 anos após a libertação. A medida integra um pacote de segurança e controle migratório defendido pelo governo. Entenda a proposta aqui.

Segura essa. O Departamento de Estado dos Estados Unidos terá um novo responsável pelo escritório encarregado das relações diplomáticas com o Brasil e outros países da América Latina. Juan Pablo Segura assume o posto após indicação do presidente Donald Trump e aprovação pelo Senado, substituindo Michael Kozak, que ocupava o cargo de forma interina. Veja a reportagem completa aqui.

Tá potente. O fenômeno climático El Niño que se desenvolve no Oceano Pacífico poderá ser o mais intenso da história recente, segundo projeções do Met Office, o serviço meteorológico do Reino Unido. Especialistas alertam que o aquecimento anormal das águas do Pacífico tende a elevar as temperaturas globais e aumentar a frequência de eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor. Veja mais aqui.

Fim da Era. A histórica editora mexicana Era anunciou o encerramento de suas atividades após 66 anos de atuação. Fundada em 1960 por exilados espanhóis, a casa editorial se tornou uma das principais referências culturais do México, publicando autores fundamentais como Elena Poniatowska, José Emilio Pacheco, Sergio Pitol e Gabriel García Márquez. O fechamento foi atribuído à queda nas vendas e às transformações do mercado editorial, encerrando um capítulo marcante da história do livro na América Latina. Leia a reportagem aqui.

Milei recua. O governo argentino decidiu retirar da pauta de desregulamentações uma proposta que poderia alterar a legislação de proteção à atividade livreira. A decisão veio após críticas de representantes do mercado editorial argentino e internacional. Segundo autoridades do governo, o tema não será discutido no atual pacote de reformas enviado ao Congresso. Leia mais aqui.

Plaza de cultura

Os chilenos do Hesse Kassel, destaque da cena indie latino-americana. Foto: Reprodução.

📚 Diferentões. A literatura argentina está repleta de autores que desafiam convenções, misturam gêneros e criam universos únicos. Este carrossel reúne alguns dos nomes mais curiosos e originais da cena contemporânea do país. Uma ótima porta de entrada para quem quer descobrir vozes menos conhecidas e explorar o lado mais inusitado da literatura argentina.

🥟 Duelo de sabores. Pão de queijo ou pandebono? Quentão ou canelazo? Um carrossel publicado pelo perfil Meu primeiro espanhol mostra como Brasil e Colômbia compartilham tradições gastronômicas surpreendentemente parecidas. A comparação revela influências, ingredientes e receitas que aproximam dois países separados pela língua, mas unidos pelo paladar. Qual desses é o seu preferido? E quem ganha essa batalha gastronômica?

🎧 Alt-Latam 2026. A cena alternativa latino-americana segue em ebulição. Do indie rock, à psicodelia, passando por shoegaze, dream pop e folk, novos artistas têm surgido em diferentes países do continente com propostas cada vez mais criativas. Esta seleção reúne alguns dos lançamentos mais interessantes do ano e serve como um ótimo ponto de partida para quem quer renovar a playlist e descobrir novos sons latino-americanos.

Seres da América Latina

Alguns dos livros publicados pela editora Eloisa Cartonera. Foto: Reprodução.

Em 2001, a Argentina viveu uma das maiores crises econômicas de sua história. Bancos fecharam as portas, poupanças foram bloqueadas e milhões de pessoas perderam o emprego da noite para o dia. Diante da necessidade, muitos passaram a ocupar as ruas de Buenos Aires em busca de materiais recicláveis, tentando garantir algum trocado. O que começou como uma forma de sobrevivência transformou-se em atividade organizada, com a criação de cooperativas e redes que passaram a ocupar espaço importante na reciclagem urbana. Ficaram conhecidos como cartoneros – catadores que percorriam a cidade recolhendo papelão e outros materiais para vender.

Uma das iniciativas mais interessantes dessa época foi a editora portenha Eloisa Cartonera, criada em 2003 pelo coletivo de artistas e escritores formado por Wáshington Cucurto, Javier Barilaro e Fernanda Laguna. A editora comprava papelão diretamente dos cartoneros, pagando valores acima dos praticados no mercado. O material era cortado, pintado e transformado em capas de livros, muitas delas feitas artesanalmente por jovens que antes da crise também coletavam papelão pelas ruas.

A editora passou a publicar escritores clássicos e contemporâneos da América Latina, muitas vezes resgatando obras fora de catálogo. Os livros eram vendidos a preços acessíveis, em livrarias e também nas ruas, e o projeto se sustentava com a própria venda das publicações. O papelão antes recolhido como lixo passou a proteger poemas, romances e histórias de autores como Ricardo Piglia, Enrique Lihn e Haroldo de Campos.

Mais de duas décadas depois, os cartoneros seguem presentes na paisagem de Buenos Aires e a Eloisa Cartonera permanece como uma das experiências editoriais mais originais da América Latina.

Colofão

Esta edição foi finalizada na manhã de segunda-feira, após o debate de presidenciáveis com menor quórum desde a redemocratização.

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