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Por Chico Spagnolo
Nesta edição, a ficha completa dos livros que passam a integrar o catálogo da Pinard a partir deste mês.
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Estamos tão empolgados com os lançamentos deste mês que não conseguimos esperar e adiantamos a newsletter. Em setembro, estão em pré-venda Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante, e Antoine de Gommiers, de Lyonel Trouillot. O primeiro chega diretamente da Cuba pré-revolucionária, enquanto o segundo – e talvez mais desconhecido do público brasileiro – vem do Haiti. São épocas diferentes, ilhas diferentes, mas ambas as obras apostam tudo na urbanidade, na memória, na imaginação popular e na oralidade como formas legítimas de contar a história dessas duas cidades.
Convém seguir a recomendação do próprio autor: este é um livro para ser lido à noite. Cabrera Infante escreve isso já na abertura do romance, porque Três Tristes Tigres, antes de qualquer outra coisa, é uma celebração da noite tropical de Havana. O próprio autor lista, de saída, os temas obsessivos que atravessam o livro: a cidade, a língua inglesa, a literatura, a gíria local, as mulheres havanesas, as sessões de cinema, o bolero mais radical, o trânsito no Malecón, a nostalgia. É como entregar ao leitor um mapa antes de deixá-lo se perder de propósito.
Publicado originalmente em 1967, Três Tristes Tigres é uma das obras fundamentais da literatura cubana do século XX, e um dos experimentos mais radicais e divertidos que o chamado Boom latino-americano já produziu. Chega agora ao catálogo da Pinard, com tradução de Luis Carlos Cabral e prefácio de Fred Spada.
O romance acontece numa única noite interminável pela Havana dos bares, dos clubes, das conversas erráticas e dos flertes de rua, pouco antes da Revolução Cubana estourar. Mas seria pouco dizer que Cabrera Infante narra uma noite: ele a recompõe através de vozes, sotaques, gírias, trocadilhos e jogos sonoros, como se a própria cidade só pudesse existir na forma de sua fala. Diálogos truncados, referências cruzadas, personagens que se transformam ao mudar de nome: tudo isso colabora para um retrato ao mesmo tempo irreverente e melancólico de uma Havana que já sabia, sem saber, que estava com os dias contados.
Os dez capítulos do livro têm, cada um, sua própria personalidade formal. Um deles abre como apresentação de espetáculo de boate, em inglês macarrônico; outro estampa, numa mesma abertura, uma página cujo texto se espelha na página oposta. Num terceiro, Cabrera Infante dá a prova mais cabal de seu virtuosismo e passa a narrar a morte de Trótski várias vezes seguidas, sendo cada versão escrita por emulações de autores cubanos canônicos. É um hilário exercício de ventriloquismo literário: o mesmo fato, recontado por vozes que imitam José Martí, Lezama Lima, Alejo Carpentier e outros gigantes das letras cubanas, cada um narrando (ou distorcendo) o acontecimento à sua maneira.
No centro do livro está Bustrófedon, personagem que dá nome ao próprio método da obra: um mestre da língua que, paradoxalmente, quase não escreve, e cujo legado é feito de memórias guardadas, de páginas em branco, de pastiches orais de outros escritores cubanos. Uma personagem-espelho para um livro que também é, ele mesmo, um espelho da linguagem virada sobre si.
Mais do que uma obra de muitas vozes, é uma obra de muitas formas de escrever ao mesmo tempo. O crítico brasileiro Alcir Pécora, num texto sobre a última edição brasileira do livro, situa o romance ao lado de outros grandes experimentos da prosa dos anos 1960 – de Nabokov a Cortázar, de Haroldo de Campos a Paulo Leminski –, mas destaca que nenhum alcança a mesma grandeza de execução. Já o ensaísta William T. Little, num estudo dedicado à obra, sugere que o romance funciona quase como um “anti-romance” – um livro em que a arte e a realidade deixam de se distinguir, e no qual toda tentativa de comunicação autêntica é atravessada pela tradução, pelo disfarce, pela impossibilidade de dizer sem trair. Não à toa, a última palavra do livro é justamente essa: tradittori. Um alerta bem-humorado sobre tudo o que se perde, e tudo o que se ganha, quando se tenta capturar uma cidade inteira dentro de um único livro e por meio de um idioma que é quase impossível de se traduzir.
Já deu para perceber que esse não é um livro que se entrega fácil ao leitor. A ambição estética de Cabrera Infante às vezes pesa mais que a compreensão imediata, e há quem prefira uma segunda leitura para sair com uma visão mais coesa do conjunto – não por acaso, é tratado por parte da crítica como uma obra de releitura obrigatória. Quem busca enredo linear ou personagens bem resolvidos pode se frustrar; quem se entrega ao jogo, no entanto, encontra páginas memoráveis, como o encontro bizarro de uma mulher com um esqueleto ainda com carne solta na banheira, ou o reencontro constrangedor com uma antiga colega precocemente envelhecida.
O segundo livro que aterrissa por aqui em setembro é um jovem clássico que saiu originalmente em 2021: Antoine de Gommiers, do escritor haitiano Lyonel Trouillot. A história trata de Franky e Ti Tony, dois irmãos criados nas ruas de uma cidade onde a pobreza e a violência convivem com a força inesgotável da imaginação e das tradições populares. É uma infância dura para a dupla, mas nunca desencantada, porque ao lado dos dois meninos existe uma figura que não pertence exatamente ao mundo dos vivos nem ao dos mortos: Antoine de Gommiers, adivinho, guardião de mistérios, personagem lendária cuja história atravessa gerações inteiras de haitianos. Antoine de Gommiers remete a Antoine Pinto, um houngan, sacerdote vodu que de fato existiu e cuja fama sobreviveu a ele, infiltrada na própria língua cotidiana do país. A trama é narrada em primeira pessoa por Ti Tony, um dos dois filhos de Antoinette – a “sonhadora de asas”, sobrinha-neta de Antoine, que conta a lenda do parente lendário sem parar aos dois meninos. É esse “eu” que conduz o leitor por cenários onde é quase impossível ver o horizonte – literal e metafórico.
Trouillot constrói seu romance entrelaçando relatos, lembranças, crenças e episódios que resvalam no fantástico sem nunca se afastar do chão concreto da cidade. Ao redor dos dois irmãos gravita uma galeria de figuras marcantes do bairro, como o professor Maître Cantave, de retórica, que come comida estragada e usa o mesmo terno há vinte anos, o amigo Danilo, que trabalha de cadete de polícia, vendedor de carros usados e locutor de loteria, a bela Doriane e Moïse, o banqueiro informal dos pobres do bairro. Esse tecido excêntrico e humano é o que dá densidade ao mito de Antoine de Gommiers.
Os dois irmãos reagem de formas opostas ao mesmo mundo: Franky, que vai ficando cada vez mais imobilizado numa cadeira de rodas, se agarra às palavras e à história para viajar sem sair do lugar. Ti Tony, mais afeito à ação e à esperteza de quem precisa se virar todos os dias, entende esse excesso de imaginação e esse investimento no passado como uma proteção contra “muitos porquês” – mas é ele quem, com sua sagacidade prática, ajuda o irmão a reconstituir a lenda até o fim.
No livro há humor, oralidade, poesia, e há, sobretudo, uma recusa elegante em separar o que é real do que é imaginado, o presente do passado, os vivos dos mortos – porque, quando a vida não pode ser inventada de verdade, ela é inventada em sonho, em azul, com mares, céus e amores que não são prisão. No universo de Trouillot, essas fronteiras não fazem muito sentido – e é justamente aí que mora a força do livro: numa sociedade complexa que só pode ser plenamente compreendida quando se aceita que todos esses planos convivem, lado a lado, na mesma rua, no mesmo fôlego de narrativa.
Não é a primeira vez que Trouillot faz de Porto Príncipe matéria-prima de sua ficção: romances como Bicentenaire, La Belle Amour Humaine e Kannjawou já haviam consolidado sua reputação como um dos escritores que melhor souberam dar forma literária aos bairros populares e à vida cotidiana haitiana – a ponto de a crítica francesa saudar Antoine de Gommiers como um verdadeiro elogio à literatura, vindo de um autor de talento amplamente reconhecido e bastante politizado. Foi exilado durante a ditadura de Baby Doc e hoje, vivendo em Porto Príncipe, continua se manifestando publicamente contra tentativas de golpe e de perpetuação autoritária no poder no Haiti, como se a profecia que abre seu romance (”se você persistir no erro, vai lhe acontecer uma desgraça que nem Antoine de Gommiers teria previsto”) ecoasse para além das páginas do livro.
Para a Pinard, editar Antoine de Gommiers é uma forma de abrir uma porta pouco visitada pelo leitor brasileiro: a da literatura haitiana contemporânea, e mais especificamente a de um autor que a crítica caribenha e internacional já reconhece como um dos grandes escritores de sua geração. A tradução é de Diogo Cardoso, e o volume traz um prefácio especialmente escrito por Dyhorrani Beira.
“Três Tristes Tigres é um romance indispensável, mas também repito com certa insistência: é uma criação feita para ser lida com tranquilidade, aos poucos, com deleite. É uma experiência única para todos os sentidos literários.”
— José Torres Criado, em seu blog
“Mais do que uma obra de muitas vozes, é uma obra de muitas formas, muitas escritas, verdadeiramente múltipla. Um livro difícil de apreender, difícil de encontrar de imediato uma abordagem que dê conta de seu todo.”
— Breno Kümmel, no jornal Rascunho
“Uma história apaixonante que se inscreve e se desenvolve com fluidez no realismo maravilhoso haitiano. Um dos melhores romances do escritor haitiano. Leitura obrigatória.”
— Wilson Décembre, no Goodreads
“Todo romance do poeta e romancista Lyonel Trouillot nos habituou a uma promessa: narrativas cativantes, ancoradas no Haiti, nas quais o realismo desconcertante convive com uma poética de todas as possibilidades. Antoine de Gommiers não foge à regra.”
— Anne Bocandé, no site Jeune Afrique
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