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Por Chico Spagnolo
Nesta edição, a oralidade caribenha na literatura, as eleições de 2026, um roteiro raiz pela América Latina e mais.
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Há poucas expressões capazes de suspender o mundo tão rapidamente quanto “Era uma vez…”. Três palavras que nos fazem interromper o que quer que estejamos fazendo, sentar e escutar a história que está prestes a começar. Na Martinica e em Guadalupe, esse gesto coletivo nasce de outra cadência. O contador lança a pergunta: “Yé krik?”, e a comunidade responde em coro: “Yé krak!”. Não é apenas o início de uma história, mas um pacto ancestral com a narratividade; um chamado para a imaginação, para a memória e para a escuta compartilhada.
Nas Antilhas francesas, a narrativa nasce da violência da escravidão e da necessidade radical de preservar mundos inteiros sem papel, sem arquivos, sem direito à escrita. Vieram da África não apenas corpos, mas modos de narrar: a palabre, os provérbios que condensam a sabedoria coletiva, as histórias transmitidas como conhecimento e sobrevivência. Como afirmam Patrick Chamoiseau, Jean Bernabé e Raphaël Confiant em Éloge de la créolité, “a oralidade é nossa inteligência, é nossa leitura do mundo”. Quando tudo podia ser confiscado, a palavra falada permaneceu.
É desse solo que emergem Texaco, de Patrick Chamoiseau, e Segu, de Maryse Condé – dois romances que não apenas incorporam a tradição oral, mas a transformam em estrutura literária. Em Texaco, a história da Martinica não se organiza a partir de documentos oficiais, e sim da voz de Marie-Sophie Laborieux, herdeira direta dos contadores de histórias. O romance avança como um grande relato oral trans(e)scrito: frases longas, musicalidade crioula, desvios, repetições, apartes. Texaco transforma a literatura em espaço de resistência, onde cidade, povo e memória finalmente falam por si.
Em Segu, Maryse Condé percorre outro caminho geográfico e simbólico, mas parte do mesmo princípio. O romance se constrói como uma vasta narrativa ancestral, atravessada por vozes, lendas, genealogias e histórias dentro de histórias. Condé escreve como quem sabe que cada relato carrega muitos outros. Não por acaso, ela afirmou em entrevistas sentir “ciúmes do contador de histórias”. É que, na palavra falada, segundo a autora, existe uma espontaneidade que a escrita tende a encerrar. Sua literatura lembra ao leitor que ela vem de uma sociedade onde a tradição oral segue viva – e onde a palavra ainda conserva o poder de afetar profundamente quem escuta.
Essa escolha não é neutra. Ao recorrer à oralidade, Condé dá voz aos bossales, aos ancestrais silenciados e às mulheres apagadas pela história oficial. Suas narrativas funcionam como um coro: múltiplas entonações, ironias, desvios, conselhos e provocações que ecoam práticas ancestrais africanas e crioulas. É também um gesto político e feminista, que valoriza o saber transmitido pelas avós, pelas figuras míticas, pelos relatos mágicos e cotidianos. Um conhecimento que a cultura colonial tentou desqualificar, mas nunca conseguiu apagar.
Lidos em conjunto, Texaco e Segu revelam algo essencial: na Martinica e em Guadalupe, escrever não é substituir a voz, mas prolongá-la. A literatura nasce do desejo de continuar contando histórias quando o círculo já não está reunido, quando o contador já não está mais ali. São obras que nos lembram de que, antes de sermos leitores, fomos ouvintes.

Arquitetura do cotidiano. Esse artigo reflete sobre como as cidades latino-americanas influenciam criações arquitetônicas a partir do cotidiano, e não de grandes gestos monumentais. Pátios, varandas, calçadas e corredores – os espaços do “entre”, como diz o texto – revelam uma lógica urbana relacional, viva, em que o uso diário transforma o projeto e o espaço se constrói como cultura em permanente movimento.
Urnas e polarização em 2026. Neste ano, Brasil, Colômbia e outros países latino-americanos vão às urnas em um ambiente de forte polarização política. As disputas podem redefinir o espaço da esquerda no continente e reacendem uma pergunta que ultrapassa fronteiras: até onde vai a influência de Donald Trump nas democracias latino-americanas? A análise completa está neste artigo da BBC.
Vamos ajudar? A Editora Reformatório teve sua sede no Tucuruvi, em São Paulo, gravemente atingida por fortes chuvas, justamente durante uma mudança que marcava um novo capítulo da casa. O Página Cinco destacou o caso e apontou caminhos para apoiar a reconstrução.

🎧 A volta do arcanjo. No fresquíssimo La 8va Maravilla, Arcángel aposta na fórmula que o colocou nas mais altas prateleiras do som latino urbano. O disco circula entre o reggaeton clássico, o trap e momentos mais contidos. As letras falam de sucesso, erros, lealdades e traições. O trabalho tem participações de um time de peso: Ricky Martin, Daddy Yankee e Austin San, filho de Arcángel. Ouça no Spotify.
🎬 Mitos nacionais. Os Colonos, de Felipe Gálvez Haberle, encara de frente a violência fundadora da colonização no extremo sul do Chile. Ambientado na Tierra del Fuego de 1901, o filme acompanha uma expedição encarregada de “civilizar” – no sentido mais brutal – a região. Entre paisagens grandiosas e tensões crescentes, a narrativa desmonta mitos nacionais e expõe, sem concessões, o extermínio da população indígena. Assista na Mubi.
🌎 Fora do mapa. No canal Las rutas de Juan, o cronista urbano Juan foge dos cartões-postais para mostrar outra América Latina. Entre boa comida, caminhadas por bairros pouco falados, destinos fora do radar turístico e comentários muito engraçados, os vídeos funcionam como guia para quem quer viajar com mais curiosidade do que checklist. Ideal para descobrir o que costuma ficar fora dos destinos instagramáveis. Veja aqui.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Izabella Baldoíno, criadora do perfil @izabellaleu no Instagram.

“Assim como demorei a me perceber leitora – no sentido de ser capaz de ler o mundo a partir da minha própria perspectiva –, demorei também a criar consciência de outros aspectos que me constituem como pessoa, individualmente e como parte de um todo. Não afirmo absolutamente que o discernimento da identidade vem a partir da violência, mas pra mim foi e tem sido assim em muitos aspectos. Uma exceção, que talvez me contradiga enormemente, está na minha percepção de ser da América Latina: nesse caso em particular, a literatura me salvou.
Quando tento retomar o momento do estalo, me vejo diante de livros de Isabel Allende ou Gabriel García Márquez, depois retomando Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado ou Ana Maria Gonçalves e reparando nas infinitas semelhanças de experiência coletiva. A segunda contradição é assumir que o estalo mencionado nunca veio; a noção de América Latina me chegou e chega aos poucos, e constantemente é preciso me relembrar, reconhecer novamente as paletas de cores, as nuances religiosas, os padrões rítmicos do repertório que compõe os dias aqui do lado de baixo. Uma rememória quase sempre ativada pela leitura, pelos lembretes que habitam os espaços entre um parágrafo e outro. Se depender de Maryse Condé ou de Gabriela Mistral, de Rosario Castellanos ou Elena Garro, sei que esta percepção seguirá vindo por um caminho que transcende a minha experiência. A visita da dor coletiva, cuidadosamente escrita pela prosa nos nossos, seguirá aplacando as dores individuais do descobrir quem e de onde somos.”
Esta edição foi finalizada na segunda-feira seguinte ao acordo histórico de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.
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