
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, a melhor universidade da América Latina, surrealismo em Araraquara, o café do jacu contra o tarifaço e a música hipnótica de Moonlight Benjamin
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Era a noite de 27 de novembro de 1983 e um grupo de intelectuais latino-americanos se reunia no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Iam todos para Bogotá, onde aconteceria o I Encontro de Cultura Hispano-americana, um fórum criado para pensar ideias, projetos e caminhos possíveis para uma região marcada por rupturas políticas recentes.
Mas esse encontro nunca aconteceria. Pouco antes da primeira escala, em Madri, o voo 011 da Avianca se chocou contra as colinas de Mejorada del Campo. Entre as mais de 180 vítimas estavam Marta Traba, Ángel Rama, Manuel Scorza e Jorge Ibargüengoitia, vozes que vinham renovando a literatura da América Latina.
O que se perdeu naquela noite? E como essa ausência ainda reverbera na cultura atual?
Crítica de arte e escritora argentina, Marta Traba foi uma das vozes mais afiadas contra o autoritarismo e em defesa da liberdade criativa na América Latina. Exilada em diferentes países, encontrou em Bogotá um lugar de diálogo e resistência, onde fundou o Museu de Arte Moderna da cidade.
Pouco antes da tragédia, havia concluído seu último romance, En cualquier lugar, cuja cena final descreve um exilado subindo em um avião para voltar à América Latina. O livro termina com o protagonista adormecendo durante a decolagem – uma coincidência literária tão dolorosa quanto premonitória.
Crítico e ensaísta uruguaio, Ángel Rama foi um dos intelectuais mais influentes de sua geração. Casado com Marta Traba, partilhava com ela o compromisso de pensar a cultura latino-americana em meio às sombras das ditaduras e do exílio. Seu livro A cidade das letras (Boitempo, 2015) foi publicado postumamente e virou referência obrigatória para estudos literários das sociedades latino-americanas.
No momento do acidente, vivia o auge de sua produção crítica, projetando um pensamento continental que buscava dar sentido às contradições do continente. Sua morte interrompeu uma trajetória que ainda poderia redefinir nossa compreensão da própria identidade latino-americana.
Romancista e poeta peruano, Manuel Scorza foi também um militante incansável, que transformou sua obra em denúncia contra as injustiças sociais de seu país. Sua série de romances conhecida como La guerra silenciosa deu voz a camponeses e indígenas que resistiam ao poder central.
No voo de 1983, Scorza levava consigo o manuscrito de seu novo livro, um projeto que só sobreviveu porque ele, precavido, havia deixado uma cópia em terra. Ainda assim, sua morte abriu um vazio difícil de preencher em um momento em que sua escrita atingia plena maturidade e começava a dialogar com leitores de todo o continente.
Mexicano de espírito satírico, Jorge Ibargüengoitia foi um cronista mordaz de sua sociedade. Em romances como Estas ruinas que ves e Los relámpagos de agosto, soube rir da pompa oficial e expor as contradições nacionais com humor e ironia fina, sem nunca perder a leveza narrativa. Suas colunas no jornal Excélsior mostravam o mesmo olhar atento, capaz de enxergar absurdo e verdade no cotidiano.
Ao embarcar no voo da Avianca, Ibargüengoitia levava consigo seu novo manuscrito – queimado para sempre nos escombros da tragédia. Parte de sua obra, no entanto, continua a reverberar: um de seus livros mais conhecidos, Las muertas, de 1977, foi recentemente adaptado pela Netflix e ganhou sua primeira edição brasileira, pela Pinard.
Com informações do El País.

Chile no topo. A Pontifícia Universidade Católica do Chile reassumiu o primeiro lugar no ranking QS 2026 de melhores universidades da América Latina e Caribe, desbancando a Universidade de São Paulo (USP), que estava há dois anos seguidos na liderança. Completam o top 5 a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Tecnológico de Monterrey (México) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Consulte o ranking aqui.
Passarinho, que grão é esse? Enquanto a tarifa de 50% dos EUA amarga o café brasileiro, um grão exótico resiste: o café do jacu, arábica que passa pelo trato digestivo da ave antes da torra. Ignorado pelos estadunidenses, conquista japoneses, britânicos, sauditas e, cada vez mais, brasileiros. Leia mais na Reuters (em inglês).
Versos pela paz. A Sociedad de Escritores del Paraguay convoca autores para a Antología por la Paz, publicação digital que será lançada no Dia do Poeta Paraguaio, 11 de outubro. Poemas, contos ou ensaios inéditos em espanhol ou guarani, até duas páginas, podem ser enviados até 10 de outubro de 2025 pelo e-mail sep@ciaae.org. Leia mais e veja as outras regras aqui.
Pinard em Frankfurt. Pela primeira vez, vamos participar da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento literário do mundo. Durante os dias de feira, vamos compartilhar bastidores, encontros e curiosidades direto da Alemanha, pra você acompanhar tudo de perto. Segue a gente no Instagram e embarque nessa viagem literária com a Pinard.

🎷O Haiti é aqui. Moonlight Benjamin, chamada de “sacerdotisa do rock vodu”, transforma o blues-rock em um transe, cruzando ancestralidade e fúria elétrica. Essa força aparece em álbuns como Siltane (2018) e Wayo (2023) e vai estar também no palco do Sesc Jazz 2025, entre 14 de outubro e 2 de novembro, em São Paulo.
🎬De volta às telas. Amores Brutos (2000), filme de estreia de Alejandro González Iñárritu, será exibido nos cinemas da América Latina em 4K no dia 9 de outubro. Em comemoração aos 25 anos do filme, a MUBI e a Retrato Filmes divulgaram pôster e trailer inéditos. A obra também estará disponível para streaming na MUBI a partir de 24 de outubro.
✨Interior surrealista. A cidade de Araraquara recebe a exposição O Assalto do Maravilhoso – o movimento surrealista no Brasil 1960-2025. Pinturas, colagens, poemas e registros históricos mostram como o surrealismo atravessou mais de seis décadas no Brasil, do pioneirismo de Sergio Lima e Roberto Piva às experimentações atuais do grupo DeCollage. A mostra acontece na Biblioteca Municipal Mário de Andrade até 3 de novembro, com entrada gratuita.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é o jornalista e crítico de música e cinema Alexandre Agabiti Fernandez.

“Ser da América Latina é reconhecer que a nossa grandeza mora na diversidade e no encontro: Andes e pampas, litorais e planaltos, forró e candombe, cumbia e tango, milho e mandioca. Um mosaico vivo que insiste em inventar beleza com poucos recursos e muita imaginação.
Também é lembrar que viemos de lutas: quilombos, comunidades indígenas, sindicatos, mães que transformaram luto em pauta. Aqui, resistir é atitude cotidiana, é dizer não ao extrativismo cego e ao autoritarismo de turno, e sim à terra cultivada, à água protegida, à escuta de quem quase nunca foi ouvido.
O passado nos une, mas o futuro nos pede ousadia: integração que não seja só de mercados, mas de gente; ciência e cultura como políticas de Estado; tecnologias com sotaque próprio; florestas em pé e cidades justas; educação que nos alfabetize em nossa pluralidade. Ser latino-americano é apostar que o comum não é utopia nebulosa, mas obra diária. Uma construção coletiva em que cabem todas as vozes.”
A redação quer saber: como seria o encontro entre Breton e Araraquara? Deixe sua versão nos comentários.
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