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Por Chico Spagnolo
O maior bombardeio da história argentina, lembrado por Ernesto Sabato e antecedente do golpe que instaurou a ditadura no país
Leia mais16 de junho de 1955. Buenos Aires despertava como em qualquer outra manhã de outono, com tempo frio e céu nublado. O vento parecia empurrar os portenhos a inadiáveis cotidianos: passos apressados em Belgrano e San Telmo, vendedores de jornais berravam as manchetes, despertando os dorminhocos, pombos ciscavam as calles em busca de migalhas. Havia uma sensação de normalidade preguiçosa que parecia eterna. Até que a hora do almoço chegou.
“E de repente, num daqueles dias sem sentido, viu-se arrastado por pessoas que corriam, enquanto lá no alto rugiam aviões a jato e todos gritavam ‘Plaza Mayo!’, entre caminhões carregados de operários que corriam loucamente para lá, entre gritos confusos e a imagem vertiginosa dos aviões rasantes sobre os arranha-céus. E depois o estrondo das bombas, o matraquear das metralhadoras e dos canhões antiaéreos. E as pessoas sempre correndo, entrando aos empurrões nos edifícios, mas saindo de novo, nem bem os aviões tinham passado, com curiosidade, com conversas nervosas, até que voltavam os aviões e de novo corriam para dentro. Enquanto outras pessoas, protegidas apenas pelas paredes (como se se tratasse de uma simples chuva), olhavam para o alto, ou, perplexas e curiosas, apontavam com os braços esticados em direções indefinidas. E depois chegou a noite. E a garoa começou a cair silenciosamente sobre uma cidade sobressaltada e minada por rumores.”
Ernesto Sabato, “Sobre heróis e tumbas”
Tradução de Rosa Freire D’Aguiar
A Praça de Maio, coração político da cidade e palco da independência argentina em 1810, tornou-se naquele dia o cenário de um ataque inédito: pela primeira vez na América Latina, aviões militares bombardeavam a própria população.

A tragédia começou por volta de 12h40. Relatos da época afirmam que a primeira delas atingiu em cheio um bonde lotado de crianças. Estima-se que entre 9 e 14 toneladas de explosivos tenham sido lançados ao longo de quase quatro horas, causando a morte de mais de 300 pessoas e mais de 1.200 feridos. O jornal La Nación resumiu o saldo da tragédia: “argentinos massacrando argentinos”.
A ofensiva foi articulada principalmente pela Marinha, sob o comando do contra-almirante Samuel Toranzo Calderón, com apoio de setores civis opositores a Perón. O Exército, em sua maioria, não aderiu. Não era ainda o golpe definitivo – este viria em setembro daquele mesmo ano, com a chamada Revolução Libertadora –, mas o massacre de junho anunciava o que estava por vir.
Além da Casa Rosada, foram atingidos o Ministério do Exército, o Departamento de Polícia, sedes sindicais e até a Catedral Metropolitana. Imagens em preto e branco – que você pode conferir aqui, restauradas em cor – fixaram o contraste entre a solenidade das fachadas históricas e o caos das ruas: carros retorcidos, corpos cobertos por jornais, voluntários improvisando socorro.
Na mesma noite, grupos exaltados incendiaram igrejas em Buenos Aires, em represália à posição da hierarquia católica contra Perón. O país parecia à beira de uma guerra civil. Três meses depois, a queda definitiva do presidente confirmaria a sequência de violências inaugurada naquele fatídico 16 de junho.

Em 2005, a Secretaria de Direitos Humanos reabriu as investigações sobre o atentado e, três anos depois, um monumento em homenagem às vítimas foi inaugurado próximo à Plaza de Mayo. Somente em 2009, às vésperas do quinquagésimo quinto aniversário da tragédia, foi aprovada a lei 26.564, que garantiu indenizações às famílias das vítimas.
Ao registrar “um daqueles dias sem sentido”, Ernesto Sabato não se limitou a narrar um episódio histórico: em Sobre heróis e tumbas, publicado em 1961, ele transformou o bombardeio em metáfora de um país dilacerado. Sua prosa captura a vertigem de Buenos Aires naquele 16 de junho – o medo, a perplexidade, a sensação de absurdo – e devolve ao leitor não apenas a memória da violência, mas a experiência íntima de um país que se volta contra si mesmo.
O romance, considerado uma das obras-primas da literatura argentina do século XX, funde realidade e ficção para retratar uma nação corroída por divisões políticas e pela desconfiança mútua. Ao evocar o ataque aéreo, Sabato ergue um símbolo que ultrapassa o fato: a imagem de um povo perplexo diante de sua própria destruição.
Relançado em 2025 pela Pinard, dentro da coleção Prosa Latino-Americana, Sobre heróis e tumbas permanece como leitura incontornável. Folhear suas páginas é revisitar também as feridas da história argentina, uma lembrança de que há dias em que a realidade ultrapassa qualquer imaginação.
Com informações de Pagina 12, Infobae e Vogalizando a História
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