
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, a tremenda escritora Juana Paula Manso, a nova exposição do Museu do Futebol, um perfil dedicado à criatividade feminina e mais.
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O sobrenome podia sugerir docilidade, mas Juana Paula Manso (1819–1875) foi tudo menos submissa. Argentina, escritora, professora e jornalista, ela foi uma das primeiras vozes feministas da América Latina e mostrou, com a própria trajetória, o poder da palavra para desafiar uma sociedade que queria calar mulheres como ela.
Filha de um militar liberal, Juana cresceu em um ambiente de ideias políticas efervescentes. Quando o regime de Juan Manuel de Rosas passou a perseguir opositores, sua família se exilou no Brasil. Foi no Rio de Janeiro, entre 1840 e 1855, que ela consolidou sua atuação intelectual e se tornou uma figura pioneira na imprensa latino-americana.
Em 1852, fundou O Jornal das Senhoras: Modas, Litteratura, Bellas-Artes, Theatros e Critica, a primeira revista escrita, editada e dirigida por uma mulher no continente. O título, que parecia se restringir a temas “adequados” ao universo feminino, escondia um conteúdo ousado: artigos sobre educação, emancipação e trabalho das mulheres, além de críticas à escravidão. Juana escrevia com ironia e coragem, transformando um espaço doméstico em campo de batalha pelas ideias. Foi neste jornal que ela começou a publicar, no formato de folhetim, os capítulos de Mistérios del Plata, um livro classificado pela própria Manso como um “romance histórico contemporâneo”.

Pouco depois, já de volta a Buenos Aires, lançou o Álbum de Señoritas, publicação que deu continuidade ao mesmo espírito combativo. Nessa fase, aproximou-se de Domingo Faustino Sarmiento, intelectual e político argentino que via na educação o motor da modernização nacional. Ao lado dele, Juana passou a atuar no sistema público de ensino, defendendo uma educação popular, científica, gratuita e mista — uma revolução para o século XIX, ainda mais no cenário latino-americano.
Manso era um dínamo: dirigiu a Escola de Ambos os Sexos em Buenos Aires, escreveu manuais didáticos e promoveu a leitura como forma de emancipação. Rejeitava os castigos físicos, acreditava no ensino pela afetividade e dizia que o professor devia ser exemplo, não autoridade. Sofreu perseguições, insultos e isolamento político – e, ainda assim, nunca baixou a voz. Pelo contrário: expandiu sua voz para outras formas de arte.
Juana explorou o teatro e a literatura como formas de expressão e crítica social. Em suas peças e romances, refletia sobre os papéis de gênero e as contradições de uma elite ilustrada que mantinha costumes retrógrados. Entre suas obras teatrais, destacam-se La familia del comendador e Los misterios del Plata, que combinam sátira social e comentário político, usando a ficção como espelho das tensões da época. Também escreveu peças como La revolución de Mayo e El tesoro de los incas, nas quais funde patriotismo, história e crítica moral.
Já na prosa, um desses livros é A família do comendador, publicado no Brasil pela Pinard. Escrito em 1854, durante o período brasileiro, o romance combina crítica de costumes, ironia e uma clareza impressionante sobre as limitações impostas às mulheres de seu tempo. Lido hoje, soa como um manifesto precoce, cheio de frescor e lucidez. Além desse romance, sua produção inclui contos e ensaios que antecipam debates sobre o papel da mulher, a educação e a liberdade individual — temas que a tornariam uma das precursoras do feminismo latino-americano.
Juana Manso morreu em 1875, praticamente esquecida, mas sua influência permaneceu: suas ideias inspiraram gerações de educadoras, leitoras e escritoras latino-americanas – de Gabriela Mistral a Alfonsina Storni.

E o motivo todo mundo já conhece. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que América Latina e Caribe enfrentarão crescimento mais lento e inflação persistente. Para contrabalançar, recomenda coordenação entre políticas fiscais e monetárias, controle de endividamento e reformas para atrair investimento. Confira o relatório completo aqui.
Para ler, ver e torcer. O Museu do Futebol inaugurou na última sexta (17) a mostra ¡Cancha Brava! Futebol Sudamericano en Disputa, que apresenta o futebol sul-americano como palco de cultura, política e identidade coletiva. A exposição percorre a história dos países em seis eixos temáticos e traz obras que dialogam com textos de Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez e Mário de Andrade.Para mais informações, visite o site do Museu.
Um retorno indesejado. Após ser erradicado em 2016, o sarampo voltou a preocupar a região. Em 2025, mais de 11.600 casos foram registrados, com o México sendo o país mais afetado, com 4.800 casos e 22 mortes. Especialistas apontam que a postura antivacina nos EUA, incluindo declarações de Robert F. Kennedy Jr., influenciou a hesitação vacinal em países vizinhos. Leia mais no The Guardian (em inglês).
A última decisão. O Senado uruguaio aprovou a Lei da Morte Digna, que autoriza a eutanásia para maiores de 18 anos residentes ou cidadãos. O Uruguai é o primeiro país da América Latina a legalizar esse procedimento por lei legislativa — até agora, casos semelhantes vinham de decisões judiciais.Leia mais na BBC Brasil.

🎨 Criatividade feminina. No Instagram, o projeto cecilias (@projetocecilias), criado pela jornalista carioca Thamires Vasconcelos, dá visibilidade às mulheres criativas da América Latina, mostrando sua força e potência através de artes, palavras e imagens. Inspirado na artista chilena Cecilia Vicuña, conecta, empodera e celebra vozes que precisam ser vistas.
🎬 Viva el cine , caraj*! A MUBI preparou uma coleção com 17 filmes argentinos que prometem fazer você se esquecer de que não conseguiu ingresso para ver O agente secreto na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Das grandes cidades aos cantos mais íntimos, os filmes exploram histórias de amizade, amor, família e descobertas pessoais. Clique aqui para começar a ver.
🎶 Som de gente grande. Com um ritmo pop envolvente e uma letra que fala sobre dor, superação e amor-próprio, Grande marca o encontro entre a energia vibrante do Monsieur Periné e o som urbano do grupo colombiano Piso 21. A canção celebra a força de se reconstruir e encontrar, na música, um espaço de liberdade e grandeza interior. Ouça aqui.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. Desta vez, fique com o depoimento da tradutora brasileira radicada no Suriname Telma Kotzebue:

“Trago no meu corpo a diversidade genética de populações indígenas, descendentes de africanos e europeus. Minha alma é repleta de doações ao existencial. Minha cabeça busca compreender e entrelaçar meus conhecimentos e a sinergia que vem de outros seres latino-americanos ou não.
Nasci no Centro-Oeste e cresci no Nordeste brasileiro. Em Fortaleza, Ceará, nos meados dos anos 80 conheci meu esposo, surinamês apaixonado pelo Brasil e pelo português, até então meu objeto de estudos e mais tarde minha ferramenta de trabalho no Suriname.
Logo que nos casamos comecei a refletir sobre a vida e a construção da identidade humana através de experiências e aprendizados. Depois da chegada do nosso filho, fizemos meu passaporte, onde o nome do fruto do nosso amor também foi registrado. De imediato pensei que nossos filhos não seriam brasileiros nem surinameses, mas cidadãos do mundo. E eu? Quem eu era ou seria? Uma cidadã do mundo?
Com nossos diplomas de Letras e Arquitetura e Urbanismo, fomos iniciar nossas carreiras profissionais no Suriname em 1990. Foi no choque cultural que me reconheci latina e que o Suriname, apesar de ser parte da América do Sul, era culturalmente caribenho.
Comecei a trabalhar no então Centro de Estudos Brasileiros, órgão do Setor Cultural do Itamaraty, divulgando nossa cultura e idioma, num país com meio milhão de habitantes, de várias etnias e com mais de vinte idiomas. Dentro de três anos, já mãe da nossa filha, passei a lecionar também francês e português, no Instituto de Línguas do Suriname.
Nessa vivência com os surinameses construí grande parte da minha história latina-surinamesa. Latina cidadã do mundo.
Com suporte e carinho do meu grande amor, apoiada no holandês (língua oficial) e no sranan tongo (língua nacional de contato, desenvolvida pelos escravos com base no holandês, inglês e português), rapidamente comecei a transitar fluentemente entre o multiculturalismo surinamês, dentro e fora da sala de aula.
Sou muito grata a tudo que o Suriname me proporcionou, desde meu companheiro de vida, a todas as oportunidades de trabalho já mencionadas como também na Anton de Kom Universiteit van Suriname, onde conheci a grande historiadora e escritora surinamesa Cynthia McLeod, durante uma das minhas palestras sobre o Dia Mundial da Língua Portuguesa.
Sempre quis deixar um legado para o Suriname. Pensei em escrever estorinhas para crianças e transformá-las em peças de teatro, apresentadas nos palcos surinameses. Na junção de tantas responsabilidades, o tempo passou e não consegui pôr meu plano em prática.
Em julho de 2025, a grande Cynthia McLeod me pediu para traduzir para o português, através da editora Pinard, seu livro mais conhecido Hoe Duur Was de Suiker?, escrito em holandês e sranan tongo e já traduzido para inglês, alemão e italiano. Sua tradução para o inglês ganhou o mundo e o livro foi levado aos cinemas em 2013.
E assim, a Pinard levou para os brasileiros, a história de alguns judeus portugueses que passaram por Pernambuco antes de se fixarem no Suriname, no período colonial do país, com grande produção de açúcar através da escravidão e lutas por afirmações de identidades culturais e humanas.
Posso dizer que minha origem, a sinergia que me envolve entre o Brasil e o Suriname, minha sede de absorver o que povos de diferentes origens têm a compartilhar, e me doar como uma ponte de corpo e alma aos bons propósitos, sou um ser latino que a Pinard acolheu para ampliar seus tentáculos na América-Latina, refletindo a vida e sua construção.”
Esta edição foi finalizada num domingo em que São Paulo, mais uma vez, apresentou as quatro estações em apenas um dia.
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