
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, a tradução brasileira de Molano Vargas, o encolhimento do Chile, uma playlist com grupos de toda a América e mais.
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Quando eu nasci, veio um parente fanático, desses que vivem das glórias do passado, e me enfiou num macacão de um certo time tricolor. Não há registros da minha versão mirim saindo da maternidade com o figurino em questão – talvez porque outro parente, igualmente fanático, tenha proibido qualquer manifestação esportiva que não carregasse o escudo de um certo clube praiano. Anos depois, decidi que o melhor para mim era viver em sociedade, para o desespero da família, que ficou verde de raiva.
Por muito tempo, torcer por um time de futebol me pareceu menos uma escolha e mais um teste de DNA. Como se, junto com o nome e o sobrenome, viesse também um escudo embutido nos nossos genes. Antes mesmo de sequer entender as regras do jogo, o seu lado já estava definido. Hoje eu desconfio da ideia de que alguém nasce destinado a torcer por um time, como se os nossos próprios afetos não importassem. Talvez essa seja mais uma boa metáfora entre futebol e vida: certas paixões não se aprendem nem se justificam. Elas simplesmente acontecem.
É exatamente desse ponto que parte Um beijo de Dick, de Fernando Molano Vargas, novo lançamento da Pinard, já em pré-venda. A história acompanha Felipe e Leonardo, dois adolescentes de classe média que se conhecem no ambiente mais banal – e também mais hostil – possível: a escola. Ali, constroem um amor a contrapelo, sem promessa de futuro e com promessa de tragédia. Eles jogam futebol, conversam sobre o cotidiano e circulam pela Bogotá dos anos 1990, onde amar é permitido, mas amarem-se, não.
A novela não se organiza como narrativa de descoberta identitária nem como manifesto. O que está em jogo, a meu ver, é outra coisa: o entendimento cru do nascimento de um afeto. Felipe e Leonardo não estão interessados em convencer ninguém nem em inaugurar causas. Estão interessados um no outro, e isso deveria bastar.
O futebol atravessa Um beijo de Dick sem esforço, como atravessa a vida de tantos adolescentes. Há jogos, comentários, partidas que situam tempo e espaço – como o clássico colombiano entre Santa Fe e Nacional – e há também um trecho em fluxo de consciência, no início de uma partida, cuja narração caberia perfeitamente para descrever aqueles começos amorosos deliciosamente incertos. É impossível lê-lo pensando apenas em futebol.
No fim, Um beijo de Dick retorna àquela intuição inicial, válida tanto para o futebol quanto para a vida: certas paixões não se aprendem nem se explicam, elas acontecem. E o maior gesto de coragem da trama é justamente esse: não virar a casaca, não trocar de afeto, não ignorar o que nos escolheu. Nem torcer, nem amar, pelo que nunca fez sentido para a gente.
Fernando Molano Vargas nasceu em Bogotá, em 1961, e morreu na mesma cidade em 1998. Sua obra é curta, como foi curta a sua vida, atravessada pela precariedade material, pela convivência com o HIV, pela melancolia e pela marginalidade. Ainda assim – ou talvez por isso mesmo –, Molano foi fiel aos temas que o atravessavam, aos desejos que insistiam, às feridas que não se fechavam. Sua escrita se inscreve numa linhagem de autores colombianos que pensaram a literatura a partir do desejo homoerótico, sem convertê-lo em proclamação. Molano escrevia como quem revisita as mesmas perguntas porque elas não encontram resposta fácil. Consciente de que o tempo lhe escapava, escreveu olhando para si em público, revendo medos, ilusões, paixões – e também o amor vivido fora da página, com Diego, seu companheiro na vida real. Saiu de campo muito cedo, mas deixou uma torcida para lá de orgulhosa.

Touchdown latino. Bad Bunny transformou o intervalo do Super Bowl numa celebração vibrante da cultura latino-americana. Entre referências à vida em Porto Rico, ainda teve casamento em cena e participações de Karol G, Pedro Pascal e Ricky Martin. Tudo costurado por um mote simples e potente: a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Um show para a história. Veja ou reveja aqui. E depois se liga nessa análise aqui.
Chile começa a encolher. O país enfrenta um rápido envelhecimento e uma forte queda da fecundidade, mais ou menos como aconteceu no Uruguai no começo dos 2000. A projeção indica que, em 2028, haverá mais mortes do que nascimentos e que, a partir de 2036, a população passará a diminuir. Hoje com cerca de 20,2 milhões de habitantes, o Chile não deve ultrapassar os 21 milhões e pode chegar a 2070 com menos de 17 milhões. Entenda melhor aqui.
Liderança ambiental na ONU. O argentino Martín Vázquez Jones, de 30 anos, foi selecionado como um dos 17 Young Leaders for the Sustainable Development Goals. Seu trabalho na recuperação ambiental do rio Suquía, na Argentina, destacou-se entre mais de 33 mil candidaturas e o levará a representar a América Latina em espaços de decisão da ONU nos próximos dois anos. Leia mais aqui.

🎶Isto não é América. A Nat e o Juan, que estão à frente do perfil @faunaaventureira no Instagram, fizeram uma playlist com alguns dos maiores e melhores temazos da América – a daqui, não aquela lá de cima. Clique aqui para ouvir a seleção enquanto confere o perfil deles, que é bem divertido e repleto de dicas culturais.
🎬 Caracas distópica. Estreou Zafari, da diretora Mariana Rondón, um filme ambientado numa Caracas onde o bem-estar de um hipopótamo vale mais que a sobrevivência das pessoas. Uma alegoria dura sobre crise, fome e falsas hierarquias. Assista ao trailer aqui.
🎨 Filhos da migração. Um artista do Equador ilustrou um poema de Harman Kaur, poeta punjabi criada no Canadá. O encontro entre as ilustrações e as palavras resulta numa obra sensível sobre deslocamento, herança e pertencimento. Veja aqui.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é o são-paulino Júlio Alexandre.

“Ser latino é habitar a fratura viva de um mundo que nos enxerga apenas como estoque de mão de obra ou cenário para expropriação. Sob o isolacionismo da era Trump, nossa existência deixa de ser uma mera origem para se tornar um ato de desobediência. Não somos o “quintal” em crise de uma potência, mas a prova de que a opulência do Norte depende do nosso caráter convertido em suor. Ser da América Latina hoje é recusar o roteiro da subalternidade e converter o trauma histórico em uma soberania que o mercado não consegue precificar.
Essa autonomia transborda em nossa música, onde a dignidade é a única moeda que importa. Como cantam Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Eliades Ochoa em La Bayamesa (no álbum “Buena Vista Social Club”), nosso caráter é forjado nesse sentimiento de honor que prefere o fogo à servidão. Ao entoar que uma “alma pura” não se dobra à servidão, reafirmamos que nossa independência não é um fato datado em livros, mas uma exigência ética constante. Somos o povo que, entre a dor e o horizonte, escolhe transformar a dignidade na nossa mais alta arquitetura sonora.”
Esta edição foi finalizada numa segunda-feira, logo após um chá de revelação dos países que compõem a América.
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