Os leitores da censura

Os leitores da censura

Nesta edição, as denúncias de livros no regime militar, a anistia à banda Ave Sangria, duas novas exposições no MASP e mais.

Leia mais
LEITURA DE 7 MINUTOS
Trecho do parecer que determinou a censura do livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Foto: Arquivo Nacional/Reprodução

Tanques nas ruas, militares em cadeia nacional, atos institucionais sendo anunciados, direitos suspensos. Todas essas imagens voltam à tona no dia 31 de março, data que marca o início do regime militar no Brasil. Uma dessas imagens, no entanto, raramente vem à tona, mas foi central para o funcionamento da censura: a do leitor que denunciava livros.

Durante a ditadura, a censura não operava apenas por meio de um aparato centralizado. Esse aparato existia e cresceu ao longo dos anos, mas havia um problema prático. Para se ter ideia, em 1971, foram lançados cerca de 9.950 novos títulos no Brasil. O órgão responsável pela censura somava algumas poucas dezenas de pessoas. E esses mesmos quadros ainda precisavam analisar músicas, filmes e outras manifestações culturais. Ler tudo era humanamente impossível.

Antes mesmo do AI-5, esse processo já era irregular e impraticável: rolavam apreensões arbitrárias, visitas aleatórias a editoras, recolhimento de exemplares quaisquer, mas não existia um padrão e uma motivação clara. Houve alguns episódios mais notáveis, como o expurgo de bibliotecas conduzido pelo então ministro da Educação, que levou à queima de livros de Graciliano Ramos, Jean-Paul Sartre e Jorge Amado. Mas, no dia a dia, o mecanismo era mais simples. Alguém lia, se incomodava e denunciava, colocando o livro no radar do Estado.

Foi o que aconteceu com Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Censurado em 1976, o romance teve sua circulação proibida até 1979. O motivo oficial falava em “atentado à moral e aos bons costumes”, mas o que estava em jogo era a imagem que o livro construía: um Brasil miserável, violento e opressor, em desacordo com a narrativa do regime. O mesmo mecanismo atingiu Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, proibido também em 1976 por “linguagem considerada chula, violência extrema e sexualidade explícita”. O livro só seria liberado mais de uma década depois, em 1989.

Mas quem era esse leitor-detrator? Podiam ser vizinhos, professores, funcionários públicos, membros de associações religiosas ou simplesmente leitores que se sentiram ofendidos por algo que encontraram numa página. A denúncia não exigia credencial: bastava escrever ao Ministério da Justiça apontando o problema.

O que chama a atenção, quando se olha para os arquivos da Divisão de Censura de Diversões Públicas, é a escala geográfica dessas manifestações. Não vinham apenas do eixo Rio-São Paulo, dos círculos próximos ao poder, mas também de cidades menores, de regiões distantes, de pessoas sem qualquer vínculo institucional com o regime. Uma capilaridade que só o voluntariado conservador seria capaz de alcançar. O leitor-detrator não era, portanto, uma anomalia. Era um produto possível de qualquer sociedade em que o incômodo diante do diferente encontra um canal institucional para se expressar.

E hoje, quem é esse leitor-detrator? Não é difícil reconhecê-lo. Ele aparece nos pedidos de retirada de livros de bibliotecas escolares, nas campanhas para impedir que determinados títulos cheguem às mãos de crianças e adolescentes, na pressão sobre editoras e professores. Os argumentos são os mesmos: moral, bons costumes, ordem. O que muda é o canal. Em vez do Ministério da Justiça, as redes sociais. Em vez do parecer burocrático, o linchamento público. A censura formal acabou, mas a vontade de decidir o que os outros podem ler, ah!, essa segue em circulação.

Com informações do livro Repressão e Resistência: Censura a Livros na Ditadura Militar, de Sandra Reimão (Edusp, 2011).

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

O conjunto Ave Sangria foi finalmente anistiado pelo Estado brasileiro. Foto: Reprodução.

Anistia tardia. A banda pernambucana Ave Sangria foi oficialmente anistiada mais de 50 anos após ter seu disco de estreia censurado pela ditadura militar. A decisão reconhece o impacto direto da repressão na trajetória do grupo, interrompido em plena ascensão. O Estado pediu desculpas e determinou o pagamento de pensão vitalícia e valores retroativos aos músicos. Entenda mais aqui.

Anti-Kast. Milhares de estudantes protestaram no centro de Santiago contra o presidente José Antonio Kast, após o anúncio de cortes bilionários no gasto público. A mobilização, puxada principalmente por secundaristas, ocupou a Avenida Alameda e reacendeu o debate sobre o impacto das medidas na educação e em benefícios sociais. Veja mais aqui.

Clássico em debate. O podcast 451 MHz dedica um episódio a “Facundo, ou civilização e barbárie”, que sai pela Pinard e já está em pré-venda. A obra serve de ponto de partida para discutir as raízes do autoritarismo na Argentina, o Golpe de 1976 na Argentina e o governo atual de extrema-direita. A conversa reúne Julián Fuks e Sérgio Alcides, além de leituras de trechos por Carlos Livieres. Ouça aqui.

Literatura na praça. A Feira do Livro anunciou 56 autores para sua próxima edição, que acontece de 30 de maio a 7 de junho, na Praça Charles Miller, em São Paulo. Entre os nomes confirmados estão Pilar Quintana, Carla Madeira, Sandro Veronesi e Andrés Montero, autor publicado pela Pinard. Com mais de 150 expositores previstos, o evento amplia seu alcance e se firma no calendário literário nacional. Veja mais detalhes do evento aqui.

Plaza de cultura

Obra sem título de La Chola Poblete, que ganha exposição no Masp. Foto: Reprodução.

🎬Ranking latino. O perfil @elcinefilector fez um post com os 50 melhores filmes latino-americanos com base nas avaliações do Letterboxd. A lista é dominada por produções do México, Argentina e Brasil, com espaço também para dois títulos chilenos. E aí, você concorda com o ranking? Qual obra ficou de fora?

🎤 Cerati em cena. Uma cena inusitada aconteceu no último dia 21 na Movistar Arena: Gustavo Cerati “voltou” ao palco ao lado de Charly Alberti e Zeta Bosio no concerto “Ecos de Soda Stereo”. Com uso de tecnologia e gravações originais de voz e violão, o espetáculo recriou sua presença mais de uma década após sua morte. Apesar da polêmica, a maior parte do público parece ter curtido a ideia. Veja a cena aqui.

🎨Duas exposições. As mostras “Pop Andino”, de La Chola Poblete, e “Réplica”, de Sandra Gamarra Heshiki, abrem o ciclo “Histórias latino-americanas” no MASP. Poblete tensiona símbolos religiosos e coloniais com corpos híbridos e provocação. Gamarra Heshiki desloca o foco para o sistema da arte, recriando e distorcendo acervos europeus. A mostra de Gamarra vai até junho; a de Poblete, até agosto. Ingressos aqui.

Seres da América Latina

Pequenos perfis de personagens que atravessam o continente: às vezes históricos, às vezes improváveis, às vezes anônimos, mas sempre reveladores.

Gente como a gente: o ex-presidente chileno foi visto lendo no metrô. Foto: Reprodução.

O ex-presidente chileno Gabriel Boric foi visto lendo tranquilamente dentro de um vagão do metrô de Santiago, poucos dias após deixar o cargo: sem zum-zum-zum, sem duzentos assessores: só ele e seu livrinho. As imagens, feitas por passageiros que estavam na estação Baquedano, viralizaram rápido nas redes, alimentando comentários sobre a naturalidade com que ele transita agora como “cidadão comum”.

A cena, no entanto, dialoga diretamente com sua trajetória pessoal e política. Nascido em Punta Arenas, no sul do Chile, Boric ganhou notoriedade como uma das principais lideranças do movimento estudantil de 2011, que pressionou por reformas profundas na educação chilena. Dali, seguiu para o Congresso, onde se consolidou como uma voz da nova esquerda, até chegar à presidência em 2022, como o mais jovem da história do país.

Ao longo de seu governo, manteve um estilo menos formal e mais próximo das pessoas, apostando em gestos simbólicos e comunicação direta – exatamente como no flagra feito no metrô.

Colofão

Esta edição foi finalizada sem qualquer tipo de censura.

Leia mais

Conteúdo relacionado

DESLIZE PARA VER TUDO

Em desacordo
Em desacordo

Nesta edição, escritores que amavam e detestavam o futebol, o adeus a Ramiro Valdés, visita ilustre na concentração argentina e mais.

Por Chico Spagnolo

Assine nossa newsletter

E ganhe 10% de desconto em sua primeira compra no site

@pinard.livros

Segue a gente no Instagram

DESLIZE PARA VER TUDO