
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, McLeod e a independência do Suriname, Curaçao na Copa, um disco queridinho que não levou o Grammy e mais
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África Brasil, de Jorge Ben Jor, é de 1976; o primeiro Star Wars, de 1977. A adaptação de Macunaíma ao cinema, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade, chegou às telas em 1969. Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, ganhou as livrarias em 1958. Além de icônicas, todas essas obras, sem exceção, são mais antigas do que a independência do Suriname, proclamada num 25 de novembro, há apenas 49 anos. Um país cuja liberdade é, muito provavelmente, mais jovem que seus pais, caro leitor, cara leitora.
Essa juventude histórica do Suriname, porém, não apaga a profundidade de seu passado. Antes de conquistar a soberania, o país atravessou séculos de colonização – primeiro inglesa, depois holandesa – marcados pela economia da cana-de-açúcar, pela violência do trabalho escravizado e pela formação de uma sociedade pluricultural, tensa e desigual. É nesse terreno sedimentado por tristes camadas de autoritarismo que se inscreve Quão caro foi o açúcar?, da escritora surinamesa Cynthia McLeod, um romance que devolve densidade humana a um período muitas vezes reduzido a datas e estatísticas.
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Publicado originalmente em 1987, o livro reconstitui a Paramaribo do século XVIII a partir de duas irmãs crioulas, Sarith e Elza, e das mulheres escravizadas que orbitam suas vidas. McLeod costura a ficção com rigor histórico, lembrando ao leitor que o açúcar, tão presente no cotidiano colonial, tinha um custo que ultrapassava qualquer cálculo econômico: era pago com corpos.
O romance desloca a perspectiva tradicional da história do açúcar ao expor os dois lados de uma mesma engrenagem: de um lado, as famílias brancas creoles, preocupadas com prestígio, casamentos e estabilidade financeira; do outro, as pessoas escravizadas, cujo trabalho sustentava o luxo e a sobrevivência dessas mesmas famílias. Não se engane: este não é um maniqueísmo simplista. Um dos grandes méritos da autora é justamente evitar o conforto das idealizações: McLeod ilumina ambiguidades, contradições e cumplicidades com uma prosa que sabe ser sutil sem atenuar a violência estrutural que atravessa(va) o Suriname.
E essa violência não se encerrou com o fim da escravidão nem com a chegada da independência. Quando o país finalmente se torna soberano, em 25 de novembro de 1975, sob a presidência de Johan Ferrier, inaugura-se uma democracia parlamentar marcada por tensões internas – especialmente pelo predomínio dos creoles no Parlamento, o que alimentou descontentamentos entre a população hindustani, descendente de trabalhadores contratados que vieram da Índia Britânica. O governo de Henck Arron, embora responsável por conduzir a independência, manteve laços estreitos com interesses holandeses, e esse alinhamento abriria espaço para a crise que viria depois.
Em fevereiro de 1980, apenas cinco anos após a independência, o país é sacudido pelo golpe militar conhecido como “Revolução dos Sargentos”, liderado por Desiré Delano Bouterse. A Junta Militar assume o poder, dissolve o Parlamento e instala um regime de exceção que culmina, em dezembro de 1982, na execução de quinze opositores, um trauma nacional ainda vivo na memória coletiva. No plano externo, o Suriname adota uma política de neutralidade e aproximação com Cuba, Nicarágua e Líbia, o que leva à suspensão da ajuda holandesa e norte-americana, intensificando o isolamento do país. A tensão aumenta após a invasão de Granada pelos Estados Unidos, em 1983, quando o governo de Paramaribo expulsa conselheiros norte-americanos temendo sofrer destino semelhante.
Colocando frente a frente o desenvolvimento histórico do Suriname e o livro Quão caro foi o açúcar?, penso que, embora a soberania política seja recente, o peso da escravidão, da colonização, das fraturas étnicas e das disputas internas segue moldando o presente, como em grande parte da América Latina e do Caribe. O romance de McLeod funciona como uma ponte entre duas temporalidades: o passado em que o açúcar regia destinos e a contemporaneidade de um país que ainda busca definir, sem tutelas externas, quem deseja ser. Ao reconstruir o século XVIII com precisão e sensibilidade, a autora nos lembra que a independência raramente é um ato definitivo, mas um processo – quase sempre mais longo do que supomos e, muitas vezes, mais jovem do que a nossa própria memória.
Com informações do OperaMundi.

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A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é Sergio Tadeu, da Biblioteca Mário Schenberg.

“Eu realmente me vejo sempre como brasileiro.
Acho que esta foi a grande conquista que o Estado brasileiro.
Sei que sou latino-americano.
Mas este saber é puramente cerebral.
E, com certeza, para nossos irmãos norte-americanos somos,
ao sul do Rio Grande, todos iguais.
Não sei se é só a língua que nos isola.
Sempre me vejo, sim, como um herdeiro do que a Europa criou.
Seja a religião cristã – ok, sou um católico não-praticante.
Religião esta que nasceu no Oriente Médio.
Sou um herdeiro da Grécia
que, se vermos um mapa, está no limite entre Ocidente e Oriente.
Sou um herdeiro da crítica ao fanatismo que o iluminismo europeu fez.
Sou herdeiro (sem querer) da Revolução Francesa.
Cuja França ao levantar a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Quis manter, ainda, a sua colônia / escravidão no Haiti.
Sou um herdeiro de Marx, que elogiou a invasão de parte do México pelos EUA.
Não é fácil se identificar com um local periférico.
Por que será?
Será que gostaríamos de ter nascido na Europa?
Será que o que gostaríamos é de sermos senhores?
Os operários europeus, preocupação do Marx citado acima, conquistaram um Estado de Bem-Estar no século XX.
Depois de duas Guerras Mundiais.
E do medo provocado por outro estado (URSS) que acenava com uma promessa.
Mas conquistas podem escorrer pelos dedos como água.
Pois toda conquista histórica não tem a garantia da manutenção.
Por isso, esses operários temem o presente e o futuro.
E esse medo pode provocar seu apoio a soluções que parecem simples mas
que poderão prejudicá-los e a outros.
Temos riquezas culturais.
Temos riquezas naturais.
Temos um Estado de Mal-Estar.
Nossa elite escolheu ser a sócia menor da grande aventura da Europa.
Somos latino-americanos?
E agora?
Sou um latino-americano?
Não sei.”
Esta edição foi finalizada na manhã de um sábado ensolarado, enquanto o autor assistia a uma instrutiva reportagem sobre arrotos bovinos.
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