Fábulas do autoritarismo

Fábulas do autoritarismo

Nesta edição, livros que tratam do poder da narrativa fora da ficção, festa mexicana em SP, seminário dedicado a Jesús Soto e mais.

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Adaptação latino-americana do boné Make Orwell Fiction Again. Foto: Sora.

Toda estrutura de poder depende de uma narrativa – e, quando essa narrativa se impõe como verdade única, nasce o autoritarismo.

Tenho explorado o catálogo da Pinard e, aos poucos, vou tentando encontrar ligações entre os livros. A de hoje foi essa: a relação entre o poder e a narrativa, e o quanto essa estrutura depende de uma história para se manter de pé. Quando essa história se cristaliza como verdade absoluta, o que surge é o autoritarismo.

Augusto Roa Bastos entendeu isso cedo. Em Eu o Supremo, o ditador José Gaspar Rodríguez de Francia quase se dissolve no texto, mas sua presença permeia cada linha, cada documento e cada lei. O poder ali não se impõe apenas com força; ele se sustenta por uma narrativa oficial, pela história que se repete até se tornar incontestável. Ler Roa Bastos sob essa ótica é perceber como o rumor, a interpretação e a versão “oficial” moldam o medo e a obediência. Hannah Arendt já dizia que o poder não sobrevive sem ficção – e talvez o século XXI tenha apenas trocado o panfleto pelo post.

Alejo Carpentier, em O recurso do método, escolhe o caminho da farsa. Seu “Primeiro Magistrado” é um déspota que cita filósofos, posa de civilizado e governa encenando. O autoritarismo ali depende tanto da estética quanto da força. Penso nisso e lembro dos líderes de hoje, tão preocupados com o ângulo da câmera quanto com o texto do decreto. Walter Benjamin falava da estetização da política – Carpentier, décadas antes, a dramatizou em forma de romance.

Já Ernesto Sabato, em Sobre heróis e tumbas, desloca o tema para o interior: o poder como paranoia, o delírio como modo de ver o mundo. O “Relatório sobre cegos” é uma descida vertiginosa à obsessão por uma verdade inalcançável – uma metáfora antecipada da nossa própria confusão informacional.

A desinformação, portanto, está longe de ser moderna. É o velho enredo do poder tentando controlar a percepção. O que muda é o meio: da praça pública para o feed. Foucault diria que cada época inventa o seu próprio regime de verdade; as redes apenas aceleraram o processo.

Esses três livros, escritos em tempos de censura e medo, continuam a nos ler enquanto os lemos. Roa Bastos revela o discurso que sufoca, Carpentier o que se encena, Sabato o que se fragmenta. São três maneiras de decifrar a mesma força invisível – a palavra que governa, que fabrica o real e depois o batiza de verdade.

Talvez por isso eu tenha me detido tanto neles. Roa Bastos, Carpentier e Sabato ajudam a entender o presente e a reconhecer o quanto seguimos presos às narrativas que nos moldam e mudam o tempo em que vivemos. Livros assim nunca terminam de dizer o que têm a dizer. Ler os clássicos é isso, não é, Calvino? Um diálogo que se estende, mesmo quando a página se fecha. E enquanto sigo folheando o catálogo da Pinard, continuo buscando outras conexões – outros caminhos possíveis para atravessar o ruído e me aproximar, quem sabe, de alguma verdade, mesmo que breve, mesmo que provisória.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

festa dia dos mortos memorial américa latina
Festival Día de Muertos continua neste fim de semana em SP. Foto: Consulado do México.

Realismo mágico, censura real. Os Estados Unidos proibiram Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, nas escolas públicas. A medida faz parte de uma onda crescente de censura literária no país e acende o alerta entre especialistas, que apontam risco à diversidade cultural e ao desenvolvimento do pensamento crítico nas salas de aula. Leia mais no Opera Mundi.

Miss Confusão. A paranaense Maria Eugênia Raposo, 19 anos, apelidada de “Barbie do Paraná”, ficou em segundo lugar no Miss Teen Charm International 2025, realizado em Barranquilla (Colômbia). Até aí tudo bem. Mas o resultado não agradou nadinha a torcida brasileira, que usou as redes sociais para protestar e encher a campeã de impropérios. Leia essa fofoquinha notícia aqui.

Festa que nunca morre. O Dia dos Mortos já passou, mas as homenagens continuam. Nos dias 8 e 9 de novembro, o Memorial da América Latina, na Barra Funda, recebe a sexta edição do Festival Día de Muertos. A programação gratuita inclui altares tradicionais, gastronomia mexicana, espaço de maquiagem artística e apresentações de dança e luta livre. Mais informações aqui.

Nova newsletter literária. A Índice, parceria entre a editora Seiva e o site Estante Virtual, foi lançada em 30 de outubro. A newsletter oferece diariamente um panorama completo do mundo editorial, com lançamentos, bastidores, entrevistas, tendências digitais e reflexões sobre o mercado literário. Para receber pílulas diárias sobre livros, inscreva-se aqui.

Plaza de cultura

Mestre da arte cinética, Jesús Soto ganha seminário no Masp. Foto: Divulgação.

🎵 Acende a vela. Saiu na última quinta-feira a nova música da cantora mexicana Lupita Infante.“Prenderte una vela” homenageia os entes queridos que partiram e celebra as tradições mexicanas, especialmente no Dia dos Mortos. A música mistura a música regional mexicana com toques de pop moderno, mostrando a profundidade emocional da artista, que é uma das novas vozes da ranchera. Ouça aqui.

🎬 Operação esperança. Inspirado em uma história real que comoveu o mundo, o filme acompanha quatro crianças que sobrevivem a um acidente de avião no coração da Amazônia colombiana. Isoladas em meio à floresta densa e hostil, elas precisam enfrentar a natureza e o medo durante 40 dias de sobrevivência, enquanto equipes militares e indígenas travam uma busca desesperada por suas vidas. O filme tá no Amazon Prime.

🖼️ Soto em movimento. Amanhã, às 10h30, o Masp realiza o Seminário Soto, dedicado ao venezuelano Jesús Soto (1923–2005), referência da arte cinética e do modernismo latino-americano. O encontro online, transmitido pelo canal do museu, revisita sua obra sob os prismas do movimento, da imaterialidade e da interação. O evento antecipa a grande exposição de Soto no Masp em 2026.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é Carlos Senna, professor e jornalista.

Carlos vê a América Latina entre fogo, cultura e esperança. Foto: Acervo pessoal.

“Ser da América Latina é estar na janela de uma casa em chamas. Poucas regiões foram tão açoitadas pela desinformação. A mídia tradicional, que sempre foi responsável por acobertar o controle das elites e a exploração do povo, perdeu o lugar. Foi substituída por uma nova mídia que favorece uma nova elite, ainda mais atrasada que a anterior.

Estamos nos equilibrando sobre a onda protofascista que assola praias pelo mundo afora. Vemos teorias estrangeiras postas para moldar nossa realidade e plataformas digitais estimulando a nossa conformidade. Nos falam de ‘tecnofeudalismo’ esquecendo que, para nós, nunca houve feudos. Houve colônia. É a esse passado que as tecno-utopias do norte global querem nos retornar: ameaçados por caudilhos e populistas, controlados por impérios em ascensão e em decomposição, espoliados até da nossa água e nossos dados biométricos.

Mesmo assim, quando olhamos para fora da nossa janelinha na casa em chamas, nós vemos um paraíso. Pessoas trabalhadoras ainda que oprimidas, numa natureza deslumbrante, tecendo todo dia uma cultura diversa e maravilhosa que atrai pessoas de toda parte para sentar conosco, cantar e repartir. A realidade que avistamos se impõe – e precisa se impor – frente às falácias que nos vendem em toda tela, em toda página, em todo discurso”.

Colofão

Esta edição foi escrita na semana em que os Complexos do Alemão e da Penha voltaram ao centro de uma operação policial – e de mais uma guerra de narrativas.

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