Diagnóstico: mulher latino-americana

Diagnóstico: mulher latino-americana

Uma homenagem a duas de nossas maiores escritoras, os hábitos de leitura dos mexicanos, Clarice Lispector no streaming e mais

Leia mais
LEITURA DE 9 MINUTOS
As escritoras latino-americanas Gabriela Mistral e Elena Garro. Fotos: Reprodução.

Apesar de estarem reunidas no catálogo da Pinard, Gabriela Mistral e Elena Garro raramente aparecem lado a lado nos manuais de literatura. Pesquisando sobre as autoras, no entanto, há pelo menos quatro eixos temáticos que aproximam suas trajetórias biográficas e literárias: o deslocamento constante, as tragédias que moldaram suas vidas, o amor visceral pela América Latina e a condição de serem mulheres que escreveram contra classificações que insistiam em defini-las em função dos homens.

A vida de Mistral desde cedo foi errante. A menina do Vale do Elqui, no norte do Chile, cresceu ouvindo histórias de avós, pais e cantadores anônimos – vozes que definiriam sua dicção literária. Adulta, tornou-se professora e diplomata. Seus caminhos atravessam a reforma educacional do México nos anos 1920, passam pelo Caribe, pelos Estados Unidos e chegam ao Brasil, onde viveu em Petrópolis e foi vizinha de Stefan Zweig. Foi ali que, em 1945, recebeu a notícia do Nobel de Literatura: um anúncio que encontrou uma mulher devastada pelo suicídio do sobrinho Juan Miguel, criado como filho. A consagração veio como um clarão em meio ao luto. Mistral aceitou viajar à Suécia não por entusiasmo pessoal, mas porque entendia que aquele prêmio pertencia à América Latina – e carregava, por extensão, a trajetória de tantas escritoras ainda invisíveis.

Elena Garro viveu deslocamentos de outra natureza. Nos anos 1960, aproximou-se de Carlos Madrazo, figura reformista do PRI (Partido Revolucionário Institucional), e chamou atenção da polícia secreta em um México que fervilhava com o movimento estudantil e a repressão. Após o massacre dos estudantes de Tlatelolco, no efervescente ano de 1968, Garro tornou-se pária entre os intelectuais e foi acusada de traição. Partiu então para um longo autoexílio com a filha, passando por Nova York, Madri e Paris.

A tragédia é o que as aproxima com maior intensidade. Mistral nunca superou a perda do sobrinho; sua escrita, já atravessada pela maternidade e pelo cuidado, ganha um tom de desamparo e resistência. Na Califórnia, onde viveu após deixar o Brasil, comprou uma pequena casa com o dinheiro do Nobel e buscou, no contato diário com a terra, um modo de sobreviver ao próprio luto. Muito antes da pauta ecológica ganhar nome, sua poesia já tratava de proteção ambiental, direitos da terra e dignidade dos povos originários.

Garro, por sua vez, transformou suas rupturas em matéria-prima literária: sua obra nasce das tensões entre memória e presença, violência política e fabulação, realismo e imaginação. Em A Semana das Cores esse embate aparece como uma dramaturgia do deslocamento, em que a narrativa se dobra para explorar mundos atravessados por trauma, repressão e desejo. Sua escrita antecipa debates contemporâneos – desinformação, trauma político, interioridades femininas resistentes – apesar de, por décadas, ter sido reduzida a rótulos masculinos como “ex-mulher de Octavio Paz” ou “amante de Bioy Casares”.

Já em A mulher forte e outros poemas, é possível acompanhar Mistral em uma longa travessia poética: mais de oitenta textos que percorrem suas cinco obras originais e revelam suas preocupações centrais – luto, maternidade, natureza, divino. As páginas introdutórias de cada livro iluminam os momentos de vida da autora, mostrando como perda, deslocamento e espiritualidade indígena moldaram sua voz e sua visão de mundo.

O amor pela América Latina é outro tema que as une. Mistral carregava o continente na língua, na pedagogia, na diplomacia. Garro o carregava na fricção: na denúncia da violência estatal, na defesa de comunidades camponesas, na construção de um México mágico e político. Não deixa de ser simbólico que Mistral tenha tentado se estabelecer novamente no México nos anos 1940, enquanto Garro, décadas depois, seria forçada a deixá-lo.

O que permanece das duas não é apenas a biografia – embora ela importe –, nem apenas a obra – embora seja vasta. O que permanece é a maneira como viveram e escreveram atravessadas pelo continente, traduzindo em literatura as contradições, dores e brilhos da América Latina. Nelas, deslocamento vira forma, tragédia vira força-motriz, e o gesto de escrever, apesar de tudo, torna-se uma maneira de permanecer viva.

Com informações do blog Letras Inverso e Reverso e do Poetry Foundation.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Cartoon trata da Doutrina Monroe, que voltou à pauta na última semana. Foto: WA Rogers

Entrelinhas do hemisfério. A DW preparou uma série de gráficos que ajudam a entender a profundidade das relações entre os EUA e a América Latina. Entre os dados mais reveladores está o peso da migração: dos 50 milhões de estrangeiros que vivem hoje nos EUA, cerca de 25 milhões vieram da região. Os outros gráficos exploram temas como o declínio da fatia americana no comércio latino-americano, o avanço da China como parceira estratégica e o foco dos EUA em segurança. Veja todos os gráficos aqui.

Monroe reload. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA traz um detalhe que merece atenção: a Casa Branca cita nominalmente a Doutrina Monroe e fala em “retomar” seus princípios no trato com a América Latina. A referência, reforçada por uma mensagem recente de Trump exaltando a doutrina, recoloca a região no centro da política externa americana. O documento aponta a influência econômica e tecnológica da China e o avanço de redes criminosas como motivos para uma postura mais ativa de Washington. Leia mais na BBC.

México leitor. A Nielsen BookData apresentou na Feira de Guadalajara um estudo inédito sobre o consumo de livros no México. Dos 97 milhões de adultos alfabetizados, 18,5% compraram ao menos um livro no último ano, percentual acima do Brasil. O perfil dos compradores é equilibrado entre homens e mulheres, com destaque para leitores de 25 a 44 anos, seguidos pelos jovens de 18 a 24. Acesse a matéria completa no PublishNews.

Pinardianos 2026. A Pinard está atrás de criadores de conteúdo apaixonados por literatura latino-americana. Se você produz resenhas, vídeos, threads ou recomendações literárias nas redes sociais, essa pode ser uma ótima oportunidade. As inscrições seguem até sexta-feira agora, dia 19. Para participar do processo seletivo, basta preencher esse formulário aqui.

Plaza de cultura

Marcélia Cartaxo em A Hora da Estrela, que estreia na Netflix. Foto: Divulgação.

🎧Drama tropical. “Se Amaba Así” marca o retorno arrebatador do Buscabulla após cinco anos. Entre o som metálico de “El Camino” e a pulsação de “Miraverahí”, a dupla cria ambientes sonoros exuberantes onde tristeza e esperança se chocam. Com letras carregadas de gírias porto-riquenhas e um melodrama digno de novela, o álbum é uma verdadeira “viagem caleidoscópica”, como disse a Billboard. Ouça aqui.

🎬 Clarice no streaming. Já está na Netflix a adaptação de Suzana Amaral para “A Hora da Estrela”, clássico de Clarice Lispector. A trama segue Macabéa, jovem nordestina que vive à margem em São Paulo, trabalhando como datilógrafa e dividindo uma pensão precária. Ingênua e sem grandes ambições, ela sonha com um namorado até conhecer Olímpico. Tudo muda quando Glória, sua colega, consulta uma cartomante e altera o rumo frágil de seu destino. Veja (ou reveja) aqui.

🧵 Neo Norte 5.0 no Memorial. O projeto ocupa o Memorial da América Latina até janeiro de 2026, reunindo exposição, residência artística, oficinas, performances e seminário. Com curadoria da chilena Tere Chad, o Neo Norte 5.0 aposta em upcycling têxtil, processos coletivos e arte participativa para recentralizar o sul global na cena cultural. As ações envolvem artistas, público e instituições parceiras, como o Museu da Imigração. Veja a programação completa aqui.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Vanessa Gonçalves, jornalista, historiadora, escritora e co-fundadora do @leiamaisjornalistas.

Para Vanessa, ser daqui é carregar uma história de luta e reinventá-la nas palavras. Foto: Divulgação.

“Ser da América Latina é, antes de tudo, um privilégio. Mas nem sempre foi assim. Como a maior parte da população, cresci com a ideia de que tudo de bom no mundo se encontrava acima da linha do Equador e não falava nem português nem espanhol.

Ser da América Latina é ser resiliente, pois sabemos que nossa história foi construída sobre muita luta e resistência. E, mesmo quando todo mundo tenta nos relegar à subalternidade, levantamos, sacudimos a poeira ao som dos versos de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, dos contos de Borges e Cortázar, do realismo mágico de García Márquez e Juan Rulfo, da prosa de Rosa Montero, Isabel Allende e Carlos Fuentes, dos ensaios de Roberto Bolaño e Alejandro Zambra… Nos reinventamos nas palavras da nossa gente, em frases que contam histórias de um povo capaz de sempre nunca se deixa derrotar”.

Colofão

Esta edição foi concluída em dezembro, em meio à ressaca do fim de ano e ao impacto de certas notícias latino-americanas dos últimos dias.

Leia mais

Conteúdo relacionado

DESLIZE PARA VER TUDO

Em desacordo
Em desacordo

Nesta edição, escritores que amavam e detestavam o futebol, o adeus a Ramiro Valdés, visita ilustre na concentração argentina e mais.

Por Chico Spagnolo

Assine nossa newsletter

E ganhe 10% de desconto em sua primeira compra no site

@pinard.livros

Segue a gente no Instagram

DESLIZE PARA VER TUDO