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Por Chico Spagnolo
Pinard traz ao Brasil, pela primeira vez, o romance explosivo de Jorge Ibargüengoitia que foi inspirado em caso real e virou série da Netflix
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A Netflix acaba de lançar As Mortas, minissérie que revive um dos episódios mais escandalosos da história criminal mexicana. Em seis episódios, a trama acompanha a ascensão e a queda de Serafina e Arcángela Baladro, duas irmãs calculistas que, no México dos anos 1960, ergueram um império de bordéis e se tornaram exploradoras e assassinas impiedosas.
Mas não é apenas a série que está vindo do México para cá. O público brasileiro também terá em mãos o romance homônimo As Mortas, de Jorge Ibargüengoitia (1928–1983), que inspirou a minissérie. Publicado originalmente em 1977 e inédito até hoje no Brasil, o livro ganha sua primeira edição nacional, pela Pinard, em lançamento exclusivo na Amazon. A obra sai em outubro, mas você já pode reservar o seu exemplar clicando aqui.
Com esse título, a coleção mais celebrada da Pinard chega ao seu 19º volume. Atualmente, fazem parte da Prosa Latino-americana: Dona Bárbara, do venezuelano Rómulo Gallegos, O aniversário de Juan Ángel, do uruguaio Mario Benedetti, A família do Comendador, da argentina Juana Manso, Homens de milho, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, Eu o Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos, O caudilho, do argentino Jorge G. Borges, Museu do Romance da Eterna, do argentino Macedonio Fernández, Huasipungo, do equatoriano Jorge Icaza, Sab¸ da cubana Gertrudis Gomez de Avellaneda, Raça de Bronze, do boliviano Alcides Arguedas, Avalovara, do brasileiro Osman Lins, A semana das cores, da mexicana Elena Garro, O recurso do método, do cubano Alejo Carpentier, Quão caro foi o açúcar?, da surinamesa Cynthia McLeod, A morte de Artemio Cruz do mexicano Carlos Fuentes, María do colombiano Jorge Isaacs e Sobre heróis e tumbas do argentino Ernesto Sabato.
Se, ao despertar, Simón Corona tivesse voltado para casa, os crimes de “Las Poquianchis” teriam permanecido ocultos. Mas o destino tinha escrito outra história. O reencontro com Serafina Baladro, sua amante, custará a Simón Corona quarenta e oito balas de calibre regulamentar, e, ainda assim, ele escapará da morte. Mas também lhe renderá uma confissão diante do inspetor Teódulo Cueto: certa vez ajudou Serafina e sua irmã Arcángela a trasladar o cadáver exumado de uma mulher.

Com humor ácido e ironia devastadora, Ibargüengoitia transformou em trama literária satírica um caso real que chocou o México nos anos 1960, quando vários cadáveres de prostitutas apareceram em diferentes propriedades das duas madames, donas de três bordéis.
Em vez de apenas narrar um crime brutal, As mortas é construída a partir de diversos testemunhos, vozes que se reúnem para dar forma a um universo literário único. Ele desmontou contradições sociais e políticas que atravessam toda a América Latina, criando um retrato que mergulha no terror psicológico e na violência social de um país marcado por hipocrisia moral e corrupção estrutural.
A crítica reconheceu sem dificuldades a evidência que salta de imediato aos olhos do leitor de As mortas: estar diante de uma obra-prima. E é que este livro, que sem dúvida se encontra entre os melhores trabalhos de Jorge Ibargüengoitia, arrebata de imediato graças ao brilho especial das virtudes que caracterizam o conjunto da obra do autor de Guanajuato: estilo direto, porém elegante; personagens reconhecíveis, mas memoráveis; situações absurdas, mas realistas (ou mesmo reais), entre outras.
Em algumas dessas qualidades — como a divisão da trama em cenas, a força dos diálogos ou a concisão das descrições, que às vezes beiram a rubrica — reconhecemos a marca do teatro, gênero em que Ibargüengoitia iniciou sua trajetória literária. No entanto, essas virtudes de dramaturgo vêm acompanhadas de técnicas narrativas muito maduras, tudo isso temperado com o humor negro que caracterizava o escritor mexicano e que, em As mortas, chega a extremos talvez inquietantes.
Dramaturgo de formação, começou a carreira escrevendo peças teatrais que lhe renderam prêmios e reconhecimento — como El atentado (1964) e Clotilde en su casa (1964) — antes de se dedicar integralmente à prosa de ficção. Sua experiência no teatro deixou marcas profundas em sua obra narrativa: a estrutura em cenas, diálogos ágeis e descrições concisas são traços recorrentes em seus romances.
Entre seus livros mais conhecidos estão Los relámpagos de agosto (1964), uma sátira brilhante à Revolução Mexicana; Maten al león (1969), ambientado em uma república caribenha fictícia; Estas ruinas que ves (1975), que mistura memória e desencanto; e As mortas (1977), talvez sua obra-prima, baseada no caso real das irmãs conhecidas como “Las Poquianchis”, responsáveis por uma rede de prostituição e assassinatos no México dos anos 1960. Em todos eles, Ibargüengoitia transforma acontecimentos históricos ou crimes brutais em narrativas carregadas de humor negro e crítica social, revelando os vícios do poder, da hipocrisia moral e da burocracia.

Além da ficção, escreveu crônicas e ensaios reunidos em livros como Instrucciones para vivir en Mexico, nos quais observa, com ironia e lucidez, o cotidiano de seu país. Sua vida, porém, foi interrompida de forma trágica: em 1983, quando viajava para Bogotá para participar de um encontro de escritores latino-americanos, morreu no acidente aéreo do voo Avianca 011, aos 55 anos, junto a outros grandes escritores do nosso continente, como o uruguaio Ángel Rama e a argentino-colombiana Marta Traba.
Hoje, Jorge Ibargüengoitia é considerado um dos autores mais originais da literatura mexicana, admirado por sua capacidade de unir precisão narrativa, humor corrosivo e crítica política, criando um universo literário que continua atual e instigante.
Então, é isso: para começar a semana con buena racha, veja a série, leia o livro, e deixe-se levar pelo universo incrivelmente perturbador de Jorge Ibargüengoitia.
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