De Paris aos Pampas

De Paris aos Pampas

Nesta edição, a influência da Revolução Francesa em Facundo, o Haaland latino, Frida Kahlo no Tate e mais.

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LEITURA DE 10 MINUTOS
A queda da Bastilha deu início à Revolução Francesa. Foto: Reprodução.

Em 14 de julho de 1789, milhares de artesãos, trabalhadores e comerciantes percorreram as ruas de Paris em busca de armas. Depois de invadir o Hôtel des Invalides e tomar cerca de 28 mil fuzis, descobriram que lhes faltava o elemento essencial para utilizá-los: pólvora. Acreditando que ela estivesse armazenada na Bastilha, dirigiram-se à antiga fortaleza que dominava o leste da cidade.

Sem comando unificado e sem armamento pesado, a multidão conseguiu invadir parte da construção. Quando soldados da Guarda Francesa voltaram seus canhões contra a fortaleza e se juntaram aos insurgentes, o destino da Bastilha ficou selado. Após horas de combate e centenas de mortos e feridos, a prisão foi tomada e, nos dias seguintes, começou a ser demolida pedra por pedra.

Ainda que a Bastilha abrigasse apenas sete prisioneiros naquele momento, sua queda transformou-se em um dos acontecimentos mais célebres da história moderna. A partir daquele dia, a fortaleza deixou de ser apenas um edifício e passou a representar a ideia de que uma ordem política podia ser derrubada e substituída por outra mais popular.

Poucas décadas depois, os ecos da Revolução Francesa chegariam à América Latina. A crise da monarquia espanhola provocada pelas guerras napoleônicas abriu caminho para os movimentos de independência que transformariam as colônias americanas em países soberanos. Mas como?

Foi essa pergunta que mobilizou a chamada Geração de 1837, grupo de jovens intelectuais argentinos formado por nomes como Esteban Echeverría, Juan Bautista Alberdi e Domingo Faustino Sarmiento. Eles se consideravam filhos da Revolução de Maio de 1810, movimento que deu início ao processo de independência argentina, e acreditavam que sua tarefa histórica era completar a obra iniciada por aquela geração. A independência política já havia sido conquistada; faltava construir uma república moderna, baseada em instituições, educação e participação cívica.

O problema era que a Argentina real parecia seguir outro caminho. Enquanto esses jovens sonhavam com uma nação inspirada pelos ideais do liberalismo e do romantismo político, Juan Manuel de Rosas consolidava seu poder em Buenos Aires. Caudilho e figura dominante da política argentina por mais de duas décadas, Rosas tornou-se o principal adversário da Geração de 1837 e forçou ao exílio muitos de seus integrantes.

Foi da experiência desse confronto que nasceu boa parte da obra de Sarmiento. Exilado no Chile e convencido de que a Argentina havia se desviado dos ideais inaugurados em 1810, ele passou a refletir sobre as razões do fracasso daquela promessa republicana. Uma pequena cena ocorrida em 1840 oferece uma boa imagem desse processo: após o fechamento do jornal El Zonda, do qual era editor, Sarmiento escreveu numa parede a frase francesa On ne tue point les idées. Mas em vez de optar pelo literal “não se matam as ideias”, escreveu: “a los hombres se degüella; a las ideas, no“.

Segundo o pesquisador Diego Molina, a força da frase está justamente nessa escolha. O verbo degollar é inerente ao campo semântico das guerras civis do Rio da Prata. Evoca os caudilhos, os confrontos armados e a violência que marcava a Argentina do período. Mais do que traduzir uma máxima europeia, Sarmiento a obriga a atravessar a experiência local. Em certo sentido, Facundo realizará a mesma operação em escala muito maior.

Publicado em 1845, o livro parece, à primeira vista, uma biografia de Juan Facundo Quiroga, lendário caudilho da província de La Rioja. Mas logo fica claro que Quiroga é apenas parte da história. O verdadeiro tema da obra é a Argentina – ou, mais precisamente, o impasse argentino: por que a independência não havia produzido a república sonhada por seus idealizadores? Por que a revolução que prometia produzir cidadãos havia produzido caudilhos?

Até Facundo, os intelectuais argentinos dispunham principalmente de modelos europeus para pensar a sociedade, a política e a literatura. Sarmiento não abandona esses modelos – pelo contrário, lê os românticos franceses, os historiadores liberais, os viajantes europeus. Mas percebe que eles não bastam para explicar fenômenos como os caudilhos, os pampas, as guerras civis ou Rosas. Então ele mistura ensaio político, relato de viagem, biografia, literatura e história para criar uma linguagem capaz de dar conta daquela realidade. A novidade, portanto, não está apenas no que ele diz sobre a Argentina, mas na forma como escolhe dizê-lo.

Essa ambição aparece desde as primeiras páginas. Como observa Molina, Sarmiento recorre a um procedimento clássico da literatura épica, a invocação. Só que em vez de pedir auxílio às musas, convoca a sombra de Facundo Quiroga. O caudilho morto surge não apenas como personagem, mas como uma chave para interpretar toda uma época.

Para Sarmiento, a vida de Facundo permitia enxergar algo maior do que o destino de um único homem. Nela estariam inscritas as tensões que atravessavam a Argentina do século XIX: o conflito entre o interior e Buenos Aires, entre a autoridade pessoal dos caudilhos e as instituições republicanas, entre diferentes projetos de país.

É dessa leitura que nasce a famosa oposição entre civilização e barbárie, que aparece no subtítulo da obra. Frequentemente reduzida a um conflito entre cidade e campo, a fórmula procura explicar por que o país parecia dividido entre a construção de instituições modernas e a persistência de formas de poder baseadas na autoridade pessoal dos caudilhos. Facundo ocupa um lugar central nessa interpretação, mas o verdadeiro alvo da obra é Rosas. Se Quiroga representa a barbárie em seu estado bruto, Rosas representa sua forma organizada. O que em um aparece como impulso, no outro transforma-se em método de governo. A biografia do caudilho funciona, assim, como uma explicação para a ascensão do rosismo e para os obstáculos enfrentados pela jovem república argentina.

E é justamente aí que a Bastilha reaparece. A Revolução Francesa havia mostrado que uma ordem política podia ser derrubada. Sarmiento escreve para entender por que isso não bastava. Para ele, a independência representou apenas o primeiro capítulo da história; a verdadeira tarefa ainda era transformar uma sociedade fragmentada em uma nação.

Com informações de Diego A. Molina.

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A vaca de chocolate é uma tradição de Osorno, no Chile. Foto: Reprodução.

Segura, peão! Não foi só a Bastilha que caiu em julho. Durante o Festival del Chocolate, em Osorno, no Chile, a maior vaca de chocolate do mundo, com mais de 600 quilos, foi para o brejo diante do público. A escultura já estava prestes a ser quebrada e distribuída entre os visitantes, seguindo uma das tradições mais aguardadas da festa. Veja a cena aqui. Que dó!

Haaland é nosso. Tava demorando, né? Um menino colombiano de El Carmen de Bolívar acaba de ser registrado como Erling Haaland Estrada Arrieta, em homenagem ao carrasco do Brasil na Copa. O pequeno Haaland latino ainda nem deu seus primeiros chutes, mas já garantiu um lugar na história das homenagens futebolísticas mais inusitadas do ano. Veja mais aqui.

Defesa barbarense. Por essa ninguém esperava. Após Donald Trump questionar a atuação do árbitro Raphael Claus na expulsão de Folarin Balogun, o União Barbarense (!) entrou em campo. Em nota oficial, o clube de Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, saiu em defesa do conterrâneo, exaltando sua trajetória em Copas do Mundo, finais continentais e competições nacionais. Isso é que é bairrismo militante! Veja mais aqui.

Novidades da Pinard. Além do lançamento do nosso novo site, que está muito mais bem organizado e repleto de conteúdos exclusivos, acabamos de colocar no ar o Mapa da Leitura, uma ferramenta interativa que mostra quantos países e territórios da América Latina você já percorreu por meio dos livros e quais ainda faltam entrar no seu radar. Experimente aqui.

Plaza de cultura

Aznar e García lançaram um clássico absoluto há 40 anos. Foto: Reprodução.

🎸 1986, o ano do rock latino. Há 40 anos, uma sequência impressionante de lançamentos ajudou a consolidar uma identidade própria para o rock feito na América do Sul. Foi o ano de Pateando Piedras, dos Los Prisioneros, de Contrarreloj, dos Enanitos Verdes, e de Tango, encontro histórico entre Charly García e Pedro Aznar, e muitos outros. Confira o retrospecto aqui.

🚕 Vou de táxi. Há quatro décadas, Roque percorre Buenos Aires deixando livros anonimamente em praças, bancos e esquinas da cidade. Sem esperar agradecimentos ou testemunhar os encontros que provoca, ele distribui histórias de Borges, Neruda, Sabato e tantos outros autores, acreditando que um livro abandonado pode transformar o dia ou até mesmo a vida de alguém. Conheça essa história aqui.

🌺 Fridamania? Uma nova exposição no renomadíssimo Tate Modern, em Londres, investiga como Frida Kahlo se transformou de artista em fenômeno cultural global. Reunindo mais de 30 obras, roupas, joias, fotografias e centenas de objetos inspirados em sua imagem, a mostra percorre as múltiplas facetas da pintora mexicana – da militante política ao ícone pop. Veja mais aqui.

Ser da América Latina

Estátua em San Basilio de Palenque, na Colômbia. Foto: Reprodução.

A cerca de cinquenta quilômetros de Cartagena, na costa caribenha da Colômbia, existe uma vila que nasceu da resistência. Fundada no século XVII por homens e mulheres que escaparam da escravidão, San Basilio de Palenque é a única sobrevivente dos muitos palenques – comunidades fortificadas criadas por escravizados fugitivos – que existiram na região.

Com cerca de 3.500 habitantes, a vila se tornou um dos mais importantes símbolos da herança afrodescendente nas Américas. Ao longo dos séculos, os palenqueros preservaram práticas sociais, religiosas e musicais que combinam influências africanas, indígenas e hispânicas. A vida comunitária gira em torno dos kuagros, grupos formados por pessoas da mesma geração que compartilham responsabilidades, trabalho e apoio mútuo.

A música ocupa um lugar central nessa cultura. Ritmos como o bullerengue, o son palenquero e o son de negro acompanham festas, casamentos, batismos e outras celebrações coletivas, enquanto práticas de cura e rituais funerários revelam a permanência de tradições herdadas de diferentes povos africanos.

Outro traço singular de Palenque é a sua língua. O palenquero é a única língua crioula de base espanhola da América Latina, combinando vocabulário espanhol com estruturas gramaticais originárias de línguas bantas da África Central.

Reconhecido como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco, o espaço cultural de San Basilio de Palenque continua sendo um raro exemplo de continuidade histórica. Mais de três séculos depois de sua fundação, a comunidade permanece viva como testemunho de uma das histórias mais duradouras de resistência e preservação cultural da América Latina.

Colofão

Esta edição foi finalizada na madrugada de um sábado, pouco antes da vitória da única seleção latino-americana da Copa.

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