
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
A edição brasileira de Balún Canán, os lançamentos da Pinard em 2026, uma ode musical à América Latina e mais
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Rosario Castellanos é nome de universidade, de centro cultural, e referência pioneira do feminismo do México. Em 2025, completam-se cem anos de seu nascimento, mas, no Brasil, sua obra permanece menos lida do que merece. Isso começa a mudar agora com a chegada da edição brasileira de Balún Canán (em pré-venda aqui), romance que expõe com precisão quase dolorosa as tensões coloniais, raciais e de gênero que ainda definem grande parte da América Latina. Um livro onde o imaginário e o real revelam o silêncio opressivo das mulheres, o racismo entranhado e a marginalização das culturas indígenas.
A trajetória de Castellanos nasce justamente desse atrito. Filha de grandes proprietários de terra em Comitán, nos altos de Chiapas, cresceu sob a contradição de pertencer à elite branca enquanto era criada, educada e profundamente marcada pela presença de sua nana maia. A morte precoce do irmão lançou sobre ela uma culpa insistente, que se somou ao desconforto diante das violências que testemunhava. Já na vida adulta, atravessou crises severas de depressão e, por recomendação de um psiquiatra, começou a escreve.
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A literatura tornou-se seu lugar de sobrevivência e de enfrentamento: um meio de fortalecer a própria identidade e de desmantelar, com rigor e sensibilidade, as estruturas que esmagavam mulheres e povos originários. Seu filho, Gabriel Guerra, definiu bem a dimensão desse gesto em entrevista ao El País: “Confrontou o poder, e quando digo poder, não me refiro apenas ao governo, mas ao establishment, aos poderes de fato, aos muitos machismos dos intelectuais”.
A autora pertence à chamada Geração de 1950, que deslocou o centro da literatura mexicana, incorporando vozes marginalizadas e experimentando formas narrativas mais flexíveis, híbridas, radicais. Chiapas, sempre rebelde e historicamente insurgente, ofereceu a ela não apenas cenário, mas método: a certeza de que contar uma história é também disputar memória, dar nome ao que foi silenciado, forçar diálogos que o país havia preferido evitar.
É nesse caldo autobiográfico e histórico que nasce Balún Canán, romance publicado em 1957. Seu título (“nove estrelas” ou “nove guardiões”, em maia) é o nome ancestral da cidade de Comitán, território que moldou tanto a autora quanto sua visão de mundo. A obra dialoga abertamente com textos sagrados da tradição maia, como o Popol Vuh e o Chilám Balám, incorporando sua cadência, seus mitos e a concepção circular do tempo. O pedido ancestral desses livros – de que a memória não seja apagada – repercute na voz narrativa do romance, que entrelaça infância, mito, história e violência estrutural.
Leitores habituados à literatura latino-americana vão reconhecer em Balún Canán uma linhagem que atravessa o continente: a das cidades que escapam do papel e passam a organizar nossa imaginação. Há Macondo, de Cem Anos de Solidão, com sua fabulação desmedida; há Comala, o vilarejo espectral de Pedro Páramo, onde os mortos persistem mais do que os vivos. Comitán, porém, ocupa outro registro. Não nasce da invenção nem do sobrenatural, mas do atrito cotidiano, do encontro desigual entre indígenas e ladinos, dessa convivência tensa em que mundos se tocam sem jamais se reconciliar. É desse território que Castellanos escreve: um microcosmo de choques sociais, desigualdades históricas e hierarquias de gênero que, longe de terem ficado no passado, seguem latejando no presente.
O livro se organiza em dois movimentos complementares: na abertura e no desfecho, acompanhamos a história pelos olhos de uma menina anônima (identificada apenas como Niña) cuja inocência revela, sem filtros, o abismo entre sua família branca e os trabalhadores indígenas. No recheio do livro, a voz da criança desaparece, substituída por um narrador onisciente que ilumina as revoltas indígenas, a violência nas fincas e o processo de reforma agrária conduzido por Lázaro Cárdenas entre 1936 e 1940. É nesse registro íntimo e político que o romance evita idealizações e desmantela a visão simplista do indigenismo clássico.
É por isso que não seria exagero dizer que Balún Canán representa um documento sensível das fissuras latino-americanas. Mostra que, em sociedades estruturadas pela desigualdade, ninguém sai ileso. E reafirma algo que Castellanos suspeitou desde muito cedo: que o passado, especialmente em territórios marcados por violência colonial, não passa. Murmura na língua maia, nas histórias que sobrevivem aos séculos e na literatura que, como as nove estrelas do título, continua a brilhar onde antes havia um céu nublado.
Com informações de La Jornada, El País e da tese de mestrado de Máyra Larissa Anjos.

Treta no Palácio… O embate entre a presidente Claudia Sheinbaum e o magnata Ricardo Salinas Pliego escalou para uma disputa jurídica de alto risco. O governo cobra cerca de US$ 4 bilhões em impostos não pagos, enquanto Salinas se promove como cruzado anticorrupção e ganha apoio popular. A tensão chegou à Suprema Corte e virou teste crucial da força política de Sheinbaum num cenário em que aliados já tratam o bilionário como um possível candidato presidencial. Leia mais aqui.
… E na passarela. Raúl Rocha Cantú, presidente do concurso Miss Universo, é investigado pela promotoria federal mexicana por tráfico de drogas, armas e combustível. O inquérito, aberto em 2024, avança sob sigilo, mas fontes confirmam que o alvo é Rocha Cantú. A apuração ocorre em meio à turbulência da última edição do concurso e se estende a crimes ligados ao narcotráfico e ao mercado ilegal de combustível.
A menina do National. A argentina Gabriela Cabezón Cámara venceu o National Book Award na categoria Literatura Traduzida com As meninas do laranjal e emocionou o público ao discursar em espanhol, defendendo a educação pública como condição de acesso para autores da classe trabalhadora. Veja o discurso aqui.
Vem aí. A Pinard revelou novos títulos para 2026, reunindo autores de peso do continente: Maryse Condé com Segu; Fernando Molano Vargas com Um beijo de Dick; Marta Traba com Cerimônias de Verão; e José Lezama Lima com Paradiso. O catálogo inclui ainda Sergio Ramírez, Elena Poniatowska, Lyonel Trouillot e Guillermo Cabrera Infante. Veja a lista completa aqui.

🎨 México no MON. Se o texto sobre a Castellanos te deu vontade de conhecer melhor o México, as duas próximas dicas são uma ótima pedida. A exposição Veemente, do artista mexicano Gabriel de la Mora, chega ao Museu Oscar Niemeyer com 70 obras que reinventam a matéria-prima da arte. O artista transforma objetos encontrados em instalações, telas e esculturas que desafiam os limites do ready-made. Veja mais informações aqui.
🎤 Homenagem a Juan Gabriel… A nova série documental da Netflix, Juan Gabriel: Devo, Posso e Quero, revela vídeos raros, entrevistas inéditas e nuances desta que é uma das personalidades mais amadas e enigmáticas da música latina, que escreveu mais de 1.500 canções, vendeu mais de 100 milhões de discos e deixou um legado inestimável para nós. O documentário é uma boa chance para mergulhar no acervo pessoal do cantor e conhecer a pessoa por trás do mito. Assista aqui.
🎶 … E à América Latina. Já no clima de melhores do ano, a gente acha que você deveria ouvir o álbum Latinaje, da cantora argentina Cazzu. A obra vai da copla ancestral (uma forma poética de quatro versos, geralmente sobre amor) ao trap lo-fi. Há espaço também para tangos assombrados, cumbia villera, bolero e flamenco. Uma verdadeira celebração visceral da América Latina em forma de música. Ouça aqui.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Gabriela Roméro, criadora do perfil @literatudes.

“Me descobri verdadeiramente latino-americana quando fui morar fora do Brasil. Não é que eu não tivesse essa certeza no nível racional e até afetivo. Havia os tangos que meu pai adorava, o disco do Trio Los Panchos con Eydie Gormé que era o favorito da minha mãe. Porém, as influências latino-americanas ainda chegavam com um gosto de estrangeirismo e eu me entendia latino-americana mais como uma afirmação política do que uma constatação da minha identidade. Até que me vi morando no interior da Alemanha e tive a sorte de cruzar o caminho de uma cubana.
Preciso dizer que o meu entendimento (e reafirmação) como latino-americana foi em grande parte possível graças à literatura. Voltando à história na Alemanha, ao perceber uma primeira oportunidade em muito tempo de conversar com alguém que poderia de fato me entender, apelei para o que conhecia da obra de Leonardo Padura e Pedro Juan Gutiérrez. Aí começou nossa amizade, que já não era baseada nos livros, mas na nossa forma tão semelhante de se comportar numa sociedade tão diferente das nossas. Éramos parecidas nas nossas diferenças. Afinal, éramos latino-americanas.
Quase 10 anos depois, morando na Inglaterra entre longos períodos em missão humanitária na África e na América Latina, tive muita dificuldade de encontrar um espaço onde me sentisse pertencente. Até que por essas coincidências que não se explicam, depois de ver um anúncio na parede de um museu, descobri um recém-criado clube de leitura de imigrantes latinas que se reuniam para ler autoras latino-americanas. Ao encontrar minhas iguais, finalmente pude começar a me sentir em casa num país cercada por pessoas diferentes de mim.
Algo parecido se dá agora, trabalhando na Amazônia colombiana, assim como quando trabalhei no México. Me reconheço no senso de humor, no afeto, nos sabores, na capacidade de lidar com a adversidade de uma maneira tão única. Capacidade que se forma também na dor de um continente marcado por violências plurais, impostas e autoimpostas. Em grande medida, o reconhecimento como latino-americana passa por essa habilidade adquirida de navegar com certa naturalidade pelo contraditório cotidiano, entre o que não deveria ser mas é, no realismo mágico que só é mágico para o olhar gringo. E, hei de confessar, poucas coisas poderiam preparar mais um trabalhador humanitário para o que vai encontrar pelo seu caminho.
Ser latino-americana foi e é um processo que segue acontecendo pela comparação, aproximação e distanciamento, identificação quando menos espero. Mario de Andrade, propondo um novo país que não fosse à imagem e semelhança do Norte Global, tinha uma citação que convidava “você faça um esforcinho pra abrasileirar-se. Depois se acostuma, não repara mais nisso e é brasileiro sem querer”. Sinto que foi assim o meu processo de me entender como parte da América Latina. Hoje já sou latino-americana sem nem perceber.”
Esta edição foi finalizada na manhã de uma segunda-feira infernalmente ensolarada na capital paulista.
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