Bolívia libertada

Bolívia libertada

Nesta edição, um dos processos de independência mais complexos da América Latina, os 70 anos de Grande Sertão: Veredas, as botas dos Guaracheros e mais.

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Cholitas diante de montanha na Cordilheira Real dos Andes. Foto: Reprodução.

Entre todos os processos de emancipação da região latino-americana, o da Bolívia é talvez o que resiste mais à narrativa simples de colônia versus metrópole, porque o país não precisou lutar para se emancipar apenas da Espanha, mas também de seus vizinhos.

O Alto Peru, como era chamado o território que hoje é a Bolívia, foi, por décadas, um campo de disputa entre projetos rivais. Estava sob a jurisdição do Vice-Reino do Rio da Prata desde 1776, mas parte de suas elites olhava para Lima, parte para Buenos Aires, e uma minoria sonhava com algo que tivesse vida própria. As primeiras rebeliões, em Chuquisaca e La Paz, em 1809, foram esmagadas com violência pelas forças realistas. Seguiram-se quinze anos de guerra de guerrilhas nas chamadas “republiquetas”, enquanto o destino da região ficava em suspenso.

A definição só veio depois da Batalha de Ayacucho, em dezembro de 1824, quando Antônio José de Sucre, sob mandato de Bolívar, avançou sobre o último reduto realista, comandado pelo general Pedro de Olañeta. Foi Sucre quem convocou a assembleia de Chuquisaca, reunida a partir de julho de 1825, que decidiu não se juntar a nenhum país vizinho e proclamou, em 6 de agosto de 1825, a independência absoluta do Alto Peru. O nome do novo país, escolhido pouco depois, foi uma homenagem direta a Bolívar – um libertador que, segundo os próprios relatos da época, hesitou bastante antes de aceitar esse território como uma nação separada.

É um nascimento cercado de ambivalência, uma vez que a independência foi decidida mais pelos generais e pelas elites crioulas de Charcas, Potosí, La Paz, Cochabamba e Santa Cruz do que por um movimento popular unificado da população autóctone que tinha sustentado boa parte da resistência armada nas décadas anteriores.

É exatamente essa distância entre a independência formal e a vida real dos povos originários que Alcides Arguedas expõe, quase um século depois, em Raça de Bronze Lançado em 1919, o romance representa um marco do indigenismo latino-americano ao mostrar como a estrutura de exploração da terra e da mão de obra indígena sobreviveu praticamente intacta à mudança de bandeira: o hacendado, dono da terra e da força de trabalho que nela vivia acorrentada, substituiu o encomendero, aquele colono que antes recebia da Coroa espanhola o direito de explorar comunidades indígenas.

Já Alejandro Droznes, em Libertadores da América, propõe outro caminho para revisitar essa história: em vez de arquivo e monumento, futebol e estrada. Suas crônicas de viagem seguem o rastro dos libertadores (”os de chuteiras e os de espada”) pelas cidades que carregam esse nome. No capítulo dedicado a Potosí, cidade que foi ao mesmo tempo o maior tesouro do império espanhol e um dos últimos bastiões realistas a cair, Droznes deixa evidente como a memória da independência ainda está entranhada na paisagem urbana, séculos depois. E no capítulo que trata de Yacuíba, na fronteira sul boliviana, ele desloca o olhar para as margens do país, os territórios que raramente entram nos grandes relatos oficiais da fundação nacional, mas que também carregam suas próprias camadas de disputa por soberania e pertencimento.

Ambos os livros formam um contraponto interessante para quem quer aproveitar as celebrações da independência boliviana para se inteirar mais sobre o país: enquanto Arguedas mostra a independência como uma promessa não cumprida para dentro, Droznes, quase cem anos depois, mostra como essa mesma história continua sendo reescrita entre lutas e pelejas.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

A obra-prima de Guimarães Rosa completa 70 anos em 2026. Foto: Reprodução.

Como ajudar a Colômbia? Com o aumento do número de vítimas e desabrigados após o terremoto que atingiu a Colômbia, organizações humanitárias intensificaram campanhas de arrecadação para apoiar as regiões afetadas. Instituições como a Cruz Vermelha Colombiana, Unicef, World Central Kitchen e Plan International estão recebendo doações para auxiliar em ações de resgate, distribuição de alimentos, atendimento médico e apoio às comunidades atingidas. Se puder, faça a sua doação.

Chile contra as mudanças climáticas. Um time de cientistas capitaneado pelo Chile concluiu o mapeamento mais completo já realizado do genoma da Colobanthus quitensis, uma das únicas plantas com flores nativas da Antártida. O avanço pode abrir caminho para o desenvolvimento de cultivos mais resistentes a secas, frio extremo e outras consequências das mudanças climáticas. Leia mais aqui.

Canhão da discórdia. Exposto em um museu militar no Rio de Janeiro, um canhão capturado durante a Guerra do Paraguai continua despertando controvérsias mais de 150 anos depois do conflito. Para muitos paraguaios, a peça representa um símbolo da derrota e da destruição sofridas pelo país. Já no Brasil, ela é vista como um artefato histórico ligado à memória militar nacional. Veja a história do embate aqui.

Grande setentão. Os 70 anos de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, serão celebrados no próximo sábado (22) com debates e leituras no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A programação gratuita reúne nomes como Milton Hatoum, Jeferson Tenório e Heloisa Starling e marca o lançamento de uma edição comemorativa do romance. Leia mais aqui.

Plaza de cultura

O jogo Guerrilla War era protagonizado por Che e Fidel Castro. Foto: Reprodução.

🎤 Hits trocados. O projeto Red Bull Track Takeover convidou os chilenos Princesa Alba e Julianno Sosa a reinventarem os hits um do outro. O resultado mistura releituras, novas interpretações e bastidores de um processo criativo cheio de desafios. Uma ótima oportunidade para conhecer duas das vozes mais populares da música urbana chilena sob uma perspectiva diferente. Veja (e ouça) mais aqui.

🎶Francisco existiu? Se vocêjá leu Cem Anos de Solidão, você certamente se lembra de Francisco, el Hombre, o músico errante que percorre povoados levando notícias e canções – e ocasionalmente fazendo duelos musicais com Satanás. Mas e se ele não tivesse sido apenas um personagem? Um vídeo publicado pelo perfil Proyecto Galeano parte dessa premissa e chega num resultado bem inesperado. Confira aqui.

🕹️A revolução não será gamificada. Lançado pela SNK em 1987, Guerrilla War é mais um daqueles casos curiosos da história dos videogames. Na versão original japonesa, o jogo trazia como protagonistas ninguém menos que Che Guevara e Fidel Castro durante a Revolução Cubana. O inimigo, claro, era Fulgencio Batista. Por aqui, o contexto político foi removido para evitar polêmicas. Veja aqui trechos da versão original.

Seres da América Latina

As botas tribaleras marcaram os anos 2000 e estão de volta na pista. Foto: Reprodução.

Bem, não se passa incólume a uma imagem dessas, não é mesmo? As botas tribaleras são pontudas, coloridas e chegam a medir mais de um metro de comprimento. Mas quem é que deu o pontapé inicial nessa história?

O tribal guarachero surgiu em Monterrey a partir das experiências de DJs que misturavam cumbia, tecnobanda, música eletrônica e house, criando um som feito para dançar. O gênero ganhou força na década seguinte, especialmente com o grupo 3BallMTY, e rapidamente passou das pistas de dança para a moda, criando uma estética própria, marcada por chapéus, cintos largos, cabelos volumosos e… as botas pontudas.

Só que as botas, claro, acabaram ganhando destaque nessa história. Muitos dançarinos fabricavam as próprias, usando madeira, couro, tecidos, lantejoulas e outros materiais para criar modelos cada vez mais extravagantes: quanto maior e mais chamativa a ponta, maior era o impacto na pista. Em bailes de cidades do norte mexicano, grupos inteiros realizavam coreografias sincronizadas, transformando as botas em parte fundamental da dança.

Existia também uma dimensão mais social do acessório, porque, para muitos jovens, vestir-se daquela maneira significava criar uma identidade própria e ocupar um espaço de liberdade, especialmente em regiões marcadas pela violência e por poucas oportunidades de lazer. A estética, muitas vezes vista de fora como algo meramente excêntrico, funcionava como uma afirmação coletiva.

Depois de perder força ao longo dos anos, o tribal voltou a chamar a atenção de uma nova geração. Nos últimos anos, jovens passaram a redescobrir as músicas, as roupas e, sobretudo, as enormes botas pontudas em vídeos nas redes sociais, recuperando uma estética que parecia pertencer exclusivamente aos anos 2000.

Colofão

Esta edição foi concluída durante o veranico paulista, que fez as temperaturas subirem temporariamente em pleno inverno.

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