A mulher que fez a literatura latino-americana explodir

A mulher que fez a literatura latino-americana explodir

Nesta edição, a agente literária Carmen Balcells, um ensaio sobre o portunhol, a mistureba pop de Annasofia e mais

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A agente literária Carmen Balcells ao lado de García Márquez, Jorge Edwards, Vargas Llosa, José Donoso e Ricardo Muñoz Suay. Crédito da foto: Reprodução

Aproveitando a ida ao Velho Mundo para participar da Feira do Livro de Frankfurt, a Pinard fez uma parada estratégica em Barcelona, cidade que respira literatura e onde, numa esquina da Avenida Diagonal, repousa um dos endereços mais lendários da literatura hispânica: a Agencia Literaria Carmen Balcells. Foi dali que uma mulher de temperamento firme e visão incomum ajudou a redesenhar o mapa literário do século XX.

Carmen Balcells y Sagalà nasceu em 9 de agosto de 1930, na aldeia de Santa Fe de la Segarra, em uma família que cuidava de terras e gado. A mãe tinha uma boa formação cultural e incutiu na filha o gosto pela música e pelas palavras. Na década de 1950, a família faliu, e Carmen começou a se virar para levar a vida.

Foi em Barcelona que a história ganhou rumo. Num encontro casual com o editor catalão Joaquim Sabrià, da Editora Miracle, Carmen foi apresentada ao ofício que mudaria sua vida – e a história da literatura latino-americana. Sabrià lhe ofereceu um trabalho: ser agente literária. Carmen aceitou, sem sequer saber ao certo o que o termo significava. A partir dali, começou a construir o ofício e, com ele, uma nova forma de existir no mundo editorial.

Antes de se tornar a “mamá grande” de García Márquez – título que o próprio Gabo lhe emprestou –, Carmen Balcells já demonstrava um faro apuradíssimo para bons negócios. Quando o controverso escritor romeno Vintilă Horia decidiu se mudar para Paris e se desfazer da ACER, uma agência que representava autores na Argentina, Colômbia, Espanha e Romênia, foi Carmen quem enxergou ali uma oportunidade. Herdou a carteira de escritores e, com ela, o embrião do império literário que fundaria pouco depois, em 1956.

O contexto não era simples. A Espanha ainda vivia sob a ditadura de Francisco Franco, e abrir um negócio sendo mulher era, por si só, um gesto de insubordinação. Carmen não apenas abriu, como o fez com estilo, cercando-se de autores que desafiavam fronteiras e idiomas. De Barcelona, ela teceu uma teia que uniu a Europa e a América Latina, apostando em vozes que o mercado ainda não compreendia.

Foi ela quem deu corpo e coerência ao chamado “Boom Latino-Americano”, o movimento literário que fez o mundo olhar para os escritores do continente com fascínio. Enquanto os autores criavam histórias que misturavam o real e o fantástico, Carmen cuidava do que havia por trás: contratos, traduções, direitos e egos. Transformou escritores em fenômenos editoriais, criou pontes entre continentes e fez com que a literatura daqui ganhasse seu lugar ao Sol.

Era mais do que uma agente. Carmen era confidente, conselheira e, quando preciso, banqueira. Adiantava dinheiro, mediava crises conjugais, organizava mudanças de continente. E foi essa força que fez de nomes como García Márquez, Vargas Llosa, Julio Cortázar, Isabel Allende e Carlos Fuentes não apenas autores, mas símbolos de uma era.

Décadas depois, sua visão de mundo ainda resiste às transformações do mercado. Em 2009, numa entrevista ao El País, ela declarou: “O livro nunca morrerá. A televisão não acabou com o rádio nem com o cinema; a internet não acabará com nada. O mundo tecnológico fará mais leitores.”

Hoje, as estatísticas parecem dar razão à profecia. As publicações literárias no TikTok cresceram 39% no primeiro semestre de 2025, somando mais de 6 bilhões de visualizações, e cerca de 12 mil novos vídeos literários por semana, de acordo com o relatório global do TikTok for Business. A literatura continua se reinventando, e além de viva e vibrante, agora também é viralizada.

Barcelona ainda guarda os legados de Balcells. Visitar a agência que leva seu nome é como tocar um dos alicerces invisíveis da literatura moderna. Porque, sem Carmen Balcells, o “Boom” talvez tivesse sido apenas um estalinho. E a Pinard nem sequer existiria.

Com informações do El País e do Jornal Opção.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Um dos ovos de dinossauro revelados pelo Conicet. Crédito da foto: Reprodução.

Voz latina na ONU. A Costa Rica anunciou que vai indicar Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente do país, como candidata à Secretaria-Geral da ONU nas próximas semanas. Grynspan é economista com longa carreira em desenvolvimento social e econômico na América Latina, e sua indicação reforça a presença latino-americana em postos estratégicos da ONU. Leia mais no UOL.

País que lê-lê-lê. O Chile será o convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt em 2027, tornando-se a quarta nação latino-americana a ocupar esse posto, depois de México (1992), Brasil (1994 e 2013) e Argentina (2010). Uma oportunidade de mostrar autores consagrados e a nova geração literária chilena ao público internacional. Leia mais aqui.

Pinard em Frankfurt. Não precisa esperar 2027 chegar para acompanhar um latino-americano em Frankfurt. Nosso editor Igor Miranda está por lá, registrando bastidores, encontros e descobertas – de conversas com agentes a vitrines que antecipam o que vem por aí no mercado do livro. Acompanhe tudo no nosso Instagram e veja Frankfurt pelos olhos da Pinard.

Ovos pré-históricos. Cientistas do Conicet, principal órgão de pesquisa científica da Argentina, encontraram um ninho de ovos de dinossauro carnívoro na província de Río Negro. O achado é raro porque os ovos estão extremamente bem preservados e podem conter embriões fossilizados, oferecendo uma janela inédita para entender o desenvolvimento de espécies pré-históricas que viveram na Patagônia argentina há cerca de 80 milhões de anos. Leia mais no Pagina 12.

Plaza de cultura

Cena de Los inocentes, novo filme de Germán Tejada. Crédito da foto: Reprodução.

🗞️ Buelo y coca-cuela.O projeto LatimLove publica um ensaio chamado “Portuñol: ¿por qué nos gusta hablar?”, que investiga como a fusão entre português e espanhol funciona como expressão cultural nas fronteiras linguísticas latino-americanas. Clique aqui para ler e refletir sobre esse cruzamento de identidades linguísticas.

🎬 Entre o real e o rito de passagem. A coprodução México-Peru Los inocentes, dirigida por Germán Tejada e baseada no romance de Oswaldo Reynoso, acompanha um adolescente em seu despertar entre amizade, desejo e os dilemas da masculinidade num ambiente urbano cheio de tensões. O filme foi exibido no Festival de Lima – e agora estamos na torcida para ele pintar por aqui também. Veja o trailer.

🎶Pop colombiano. Nova voz do som latino, a colombiana Annasofia acaba de lançar seu EP de estreia, PRIMER INTENTO. São seis faixas que mesclam rock, R&B e uma boa dose daquele pop bem chiclete. Aos 24 anos, a cantora e produtora indicada ao Latin Grammy de Artista Revelação faz de cada faixa um manifesto de liberdade e autoconhecimento.

🎨 Cores latino-americanas na Polônia. A Retroavangarda Gallery, em Varsóvia, exibe a partir de 14 de outubro obras de artistas do México e do Peru. São cerca de 50 ilustrações do mexicano Guillermo Flores Pacheco, além de pinturas e trabalhos gráficos de nomes peruanos que mostram o diálogo entre tradição e vanguarda na arte latino-americana.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. Desta vez, escolhemos um trecho do posfácio de O labirinto da solidão, de Octavio Paz, em que o autor, ainda que indiretamente e por contraste, esboça sua resposta a essa pergunta.

Octavio Paz recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1990. Crédito da foto: Divulgação.

“De fato, a oposição entre os Estados Unidos e a América Latina não é uma oposição entre civilizações, ela faz parte do subgênero de contradições dentro de uma mesma civilização. Feita essa ressalva, acrescento que são diferenças radicais, como tentei mostrar em muitas páginas de O labirinto da solidão. É verdade que essa relação de oposição poderia ser fecunda se a força de um dos interlocutores e a angústia do outro não nublassem e viciassem o diálogo. De todo modo, o diálogo é difícil: assim que se ultrapassa o nível informativo e quantitativo, a conversa entre norte-americanos e latino-americanos se torna um caminhar arriscado em círculos entre equívocos e miragens. Na verdade, não são diálogos, e sim monólogos: nunca ouvimos o que o outro diz, ou, se ouvimos, sempre pensamos que diz outra coisa. Nem a literatura e nem a poesia escapam desse emaranhado de confusões. A maioria dos poetas e escritores norte-americanos ignora ou diminui a cultura e o homem latino-americanos. Exemplo do primeiro: nos Cantos de Ezra Pound, esse grande monumento da voracidade enciclopédica dos Estados Unidos, aparecem todas as civilizações e todos os homens, menos o mundo pré-colobiano e a América hispano-lusitana: nem os templos maias nem as igrejas barrocas, nem o Popol vuh nem sóror Juana Inés de la Cruz. Exemplo do segundo é a atitude de quase todos os norte-americanos que escreveram sobre ou na América Latina, sem excluir um poeta da distinção de Wallace Stevens: o nosso passado indígena ou nossa paisagem invariavelmente os empolga, mas também invariavelmente consideram insignificante o homem latino-americano contemporâneo. América Latina: ruínas, natureza e umas figuras imprecisas – os criados e o gerente do hotel. A visão que os latino-americanos têm dos Estados Unidos são descomunais e quiméricas: para Rubén Darío, o primeiro Roosevelt era nada menos que uma encarnação de Nabucodonosor; Jorge Luis Borges, quando visitou o Texas, a primeira coisa que fez foi escrever um poema em homenagem aos defensores de El Álamo. Exageros da cólera, da inveja ou da obsequiosidade: para nós os Estados Unidos são, ao mesmo tempo e sem contradição, Golias, Polifemo e Pantagruel.”

(Trecho retirado da edição da Cosac Naify, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht)

Colofão

Esta edição foi concluída poucas horas após o anúncio do Nobel de Literatura, e, mais uma vez, a presença da América Latina ficou no campo das especulações.

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