
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, um guia para não perder os amigos para os livros, a capital do livro em 2027, o novo disco do Drexler e mais.
Leia maisEstá meio fora de moda falar bem do Morrissey em 2026, mas ele disse um negócio muito curioso lá nos anos 1980: “There’s more to life than books, you know, but not much more” – ou, em bom português, “tem coisa mais legal que livro, não”. Esse trecho da canção “Handsome Devil” reflete bem a obsessão que o leitor tem com os livros, e também sugere por que quem não lê tem tanta birra com quem gosta de passar horas virando páginas e mais páginas.
Há algo na figura de quem lê que incomoda, intriga ou intimida os avessos à literatura. Talvez seja o livro em si, esse objeto anacrônico que insistimos em carregar como se o celular não existisse. Talvez seja a capacidade de concentração e contemplação do leitor num mundo que perdeu a manha de conseguir ficar parado. Ou talvez seja só o fato de que, enquanto todo mundo estava vendo o Sincerão do BBB ou preparando as marmitinhas da semana, a pessoa preferiu usar o tempo dela para reler todo o Proust. É por essas e outras que quem lê vira alvo ou vira chato ou vira pedante – às vezes, as três coisas ao mesmo tempo.
Como faz, então, para não perder de vez o contato com a civilização e com os poucos amigos que ainda aguentam ouvir tratados minuciosos sobre o último livro lido? A resposta pode estar neste guia de sobrevivência social especialmente preparado pela Pinard para os seus leitores.
1. Não monopilizarás o assunto
Se a conversa é sobre literatura ou sobre o mercado editorial, beleza. Mas se a galera estiver na onda de fofocar sobre a vida alheia, guarde o PPT sobre a sua pilha de leituras de verão para você.
2. Não citarás autores como quem dá carteirada
Se entre leitores já é chato berrar os nomes dos escritores que você leu, como se fosse um Super Trunfo literário, imagine para quem não se liga muito em literatura? Deixe a bibliografia para o seu próximo trabalho científico.
3. Não traduzirás a vida para quem não lê
Nem todo mundo precisa de uma referência literária para entender o que está rolando no mundo. Às vezes um “tô meio inconformado” cai melhor do que um “essa é uma situação tipicamente Kafkiana”.
4. Não usarás o feed como vitrine de leituras
Há quanto tempo você não posta uma foto em que não haja um livro, um marcador de páginas, um anel de leitura ou qualquer outro utensílio ligado à literatura? Se a resposta foi algo acima de dois meses, dê um pulo na rua e tire uma selfie com uma árvore.
5. Não corrigirás o gosto alheio
Na sua turma tem alguém que gabarita todos os livros da lista de mais vendidos e isso te dá comichão? O conselho é: respira. Lembre-se do grande mantra do leitor: ouvimos e não julgamos, ou melhor, lemos e não julgamos, lemos e não julgamos…
6. Não assumirás que quem não lê tem menos a dizer
Algumas das conversas mais interessantes que eu tive na vida foram com pessoas que não terminaram um livro na última década. Tem gente que aprende vendo filme, ouvindo podcast, vivendo. Livro é um caminho, não o único.
7. Não converterás todos os amigos para um clube de leitura
Clube de leitura é ótimo para quem quer estar num clube de leitura. Se você convidou e a pessoa disse não uma vez, acredite nela.
8. Não seguirás manual algum
Óbvio que tudo isso aqui foi uma brincadeira. Leia e fale sobre isso para quem quiser, quantas vezes desejar e pelo motivo que for.

Encruzilhada cubana. Um ensaio revisita a trajetória de Cuba desde a Crise dos Balseros até hoje. Do colapso dos anos 1990 às aberturas controladas ao turismo, o país reaprende a se reorganizar em meio à escassez. Três décadas após o fim da União Soviética, a ilha enfrenta pressões renovadas. O cenário atual combina memória histórica, desgaste interno e tensões externas cada vez mais explícitas. Leia o artigo aqui.
Medellín literária. A capital da Colômbia foi escolhida pela Unesco como Capital Mundial do Livro de 2027. O reconhecimento destaca a eficácia das políticas públicas voltadas à leitura, educação e transformação social na cidade, que apresentou crescimento de 542% no número de livrarias. Tá aí um caso emblemático de como o livro pode ajudar a reconfigurar territórios. Leia mais aqui.
Altas no Canal. Com a guerra elevando os preços dos combustíveis e do frete no Estreito de Ormuz, o Canal do Panamá vive um momento de maior procura. A via que liga os oceanos Atlântico e Pacífico registra um “ligeiro aumento” no número de embarcações, segundo apurou a CNN Brasil. Com combustíveis mais caros, a rota mais curta do Panamá ganha atratividade frente às alternativas. Leia mais aqui.

🎨Plurais e inéditas. A mostra “Pluralidades insulares: arte latino-americana e caribenha no acervo do BID” chega ao Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, com mais de 150 obras de artistas contemporâneos e consagrados, como Diego Rivera e Tomie Ohtake. O recorte combina modernismo e produção atual de artistas de 26 países. É a primeira vez que o acervo sai dos EUA. Veja mais aqui.
📚 Livros na rua… De 1º a 3 de maio, a Rua Rocha vira espaço de leitura, cultura e comunidade na segunda edição da Feira do Livro da Rocha. Com 50 editoras, mais de 30 organizações sociais e autores renomados, a FLIR tem como tema o Bem Viver, conceito herdado das cosmovisões indígenas guarani e andina e do movimento de mulheres negras. Para contribuir com a iniciativa, clique aqui.
…🌙e na noite. No dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro, livrarias de rua de todo o Brasil se unem para a primeira edição da Noite das Livrarias, evento gratuito com saraus, lançamentos e shows. Inspirada em eventos como a Noche de las Librerías de Buenos Aires, a iniciativa já conta com mais de 30 livrarias em São Paulo e adesões no Rio e em Brasília.. Veja mais aqui.
🎶 Drexler de volta. O uruguaio Jorge Drexler revisita suas raízes em Taracá, novo disco centrado no candombe (ritmo tradicional uruguaio reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade). O título do álbum é tanto a onomatopeia do tambor quanto a forma coloquial de dizer “estar aqui”. O trabalho conta com participações de Young Miko e Ángeles Toledano. Ouça aqui.
Hoje, excepcionalmente, a coluna volta os olhos a um momento que marcou a história argentina e de toda a região latino-americana: o golpe de 1976.

Retratos do ensaio Ausências Argentina. Foto: Gustavo Germano/Reprodução.
Hoje completam-se 50 anos do golpe que depôs Isabel Perón e instalou uma junta militar na Argentina, inaugurando um dos períodos mais sombrios da história do país. O regime montou um sistema clandestino de repressão com mais de 500 centros de detenção ilegal, onde opositores eram sequestrados, torturados e assassinados. Estima-se que entre 10 mil e 30 mil pessoas tenham sido vítimas de desaparecimento forçado.
O ensaio fotográfico Ausências Argentina, de Gustavo Germano, responde a esse apagamento com imagens que expõem o espaço irreparável deixado por essas vidas: cada retrato mostra um lugar que deveria estar ocupado, interpelando o espectador com uma força que atravessa o tempo. Germano conhece essa ausência de perto (seu irmão Eduardo foi detido e desaparecido em 1976, e seus restos só foram identificados em 2014 pela Equipe Argentina de Antropologia Forense). Confira o ensaio completo aqui.
Esta edição foi finalizada na véspera dos 50 anos do golpe argentino de 1976.
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