Obsessão infinita

Obsessão infinita

Nesta edição, a literatura adiada de cada dia, um podcast que aproxima livros e leis, o novo disco do TIMØ e mais.

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LEITURA DE 10 MINUTOS
David Foster Wallace, autor do trintão Graça Infinita. Foto: Reprodução.

Cada leitor tem um livro-para-ser-lido-na-aposentadoria. Aquele que você compra, leva para a estante e depois passa anos encarando de longe, como se fosse uma cena perdida de Três homens em conflito. É o livro que já sobreviveu a reformas, mudanças de endereço e à pergunta mais temida de todas: does it spark joy? É aquela obra que você vai deixando de lado porque sabe que não é leitura para se dedicar nas férias ou num feriado mais parrudinho; é quase um projeto de vida que exige tempo, concentração, disposição, atenção e outros itens exíguos nesse grande Catan da vida real chamado rotina. Sabe esse livro? O meu é Graça Infinita, de David Foster Wallace.

— Que catatau é aquele ali da lombada azul? In-fi…
Infinite Jest. Como você não conhece?
— Nunca ouvi falar. Você leu tudo isso?
— Não. Quer dizer, não totalmente.

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O diálogo é uma versão mais ou menos precisa que tive com uma amiga na casa dela, no longínquo ano de 2009. Desde então, aquele tijolo virou uma obsessão da qual falo com mais entusiasmo do que muitas das obras que de fato eu li. Já comecei, interrompi, voltei, abandonei de novo. Quando finalmente engatei a quinta marcha e senti que, desta vez, ia até o fim, descobri que algumas páginas do meu exemplar estavam em branco. “É assim mesmo? Deve ser”, cheguei a cogitar. Não era, claro. Pedi a troca à editora, que resolveu tudo com rapidez, mas quando o novo livro chegou, eu já estava embarcado noutra história – e Graça Infinita voltou ao seu posto cativo na estante.

O que ainda se pode dizer desse calhamaço de mais de mil páginas, que acabou de trintar? Há muitas boas análises, excelentes entrevistas e até um site que reflete a obsessão dos leitores com a obra. Essa que eu mal li metade e já considero pacas. O livro é uma engrenagem narrativa ambiciosa: múltiplos núcleos e personagens, cronologia fragmentada, notas de rodapé que se desdobram como histórias paralelas e anos que deixaram de ser números e viraram outdoors publicitários. No centro, uma sátira feroz à cultura do entretenimento e às dependências químicas, emocionais e tecnológicas que organizam a vida contemporânea.

É um romance que mistura alta erudição e cultura pop, humor físico e desespero existencial, matemática, tênis de alto nível e reabilitação. É longo, desafiador, é um desbunde total. E não há dúvidas de que isso ajudou a transformá-lo nesse marco da literatura de fim de século que eu chamo de minha obsessão literária favorita. Mas o ponto é: o que nos impede de encarar um livro assim? O tamanho? A fama de difícil? O medo de não dar conta? Ou o receio de que a experiência não esteja à altura da expectativa construída ao longo dos anos? Todas são desculpas válidas quando nos deparamos com o nosso livro-para-ser-lido-na-aposentadoria.

Recentemente, numa feira em que a Pinard marcou presença, vi um leitor se encontrar com a sua obsessão literária. Ele pegou um exemplar de Avalovara, de Osman Lins, folheou com cuidado, deu uma leve suspirada e cravou: “Esse ano vai, esse ano eu leio.” Foi aí que eu vi a proximidade entre essas duas obras.

Publicado em 1973, em plena ditadura militar, Avalovara marca o ponto mais alto da trajetória de Osman Lins e consolida a inflexão formal que ele vinha aprofundando desde os anos 1960. A crítica reconheceu ali um dos momentos de maior invenção da prosa brasileira do pós-1950. Não se tratava apenas de contar uma história diferente, mas de repensar os próprios instrumentos do romance.

Sua estrutura nasce de um palíndromo latino (Sator Arepo Tenet Opera Rotas) e de uma personagem sem nome, em forma de espiral, que orienta a progressão dos capítulos. A narrativa reflete sobre a escrita e sobre o mundo; os nomes ganham corpo, as palavras moldam a realidade, e o leitor é convidado a ler e decifrar essa história que equilibra com maestria forma e conteúdo, cálculo e invenção. O resultado é uma arquitetura rigorosa, quase geométrica, dentro da qual se movimentam oito linhas narrativas que se cruzam em torno de Abel, escritor nordestino, e das mulheres que atravessam sua vida. Pompeia antiga, Recife, São Paulo, a Europa – tempos e espaços se sobrepõem, compondo um mosaico em que passado e presente coexistem.

Críticos como Antonio Candido destacaram justamente essa tensão entre cálculo e imprevisibilidade: de um lado, a engrenagem estrutural minuciosa; de outro, irrupções de lirismo e liberdade poética. Já Alfredo Bosi situou a obra entre as mais inventivas de sua geração, enquanto outros leitores a aproximaram de uma vertente introspectiva que dialoga, por exemplo, com experiências radicais de linguagem como as de Clarice Lispector.

Mas Avalovara não se fecha numa redoma formal. Em meio à elaboração estrutural, surgem inscrições abruptas da violência política do período, fragmentos que atravessam a narrativa e lembram que o romance foi concebido sob um regime autoritário. A constante reflexão sobre a escrita transforma o livro numa espécie de alegoria do próprio fazer romanesco. Linguagem, história e imaginação se contaminam para oferecer ao leitor “um momento de modernidade decisiva na literatura brasileira”, como definiu Candido.

A quase unanimidade da crítica e o universo aparentemente hermético e fetichista são pontos de contato entre Avalovara e a obra-prima de Foster Wallace. Não sei se exigem tanto do leitor quanto a lenda faz parecer, mas é certo dizer que são livros pelos quais vale se aposentar.

Com informações da Enciclopédia Itaú Cultural.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Manifestação contra a reforma trabalhista na Argentina. Foto: Reuters/Alessia Maccioni

A um passo da reforma. Após forte polêmica e uma greve geral, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou a reforma trabalhista proposta por Javier Milei. O texto amplia a jornada e flexibiliza regras sindicais, sendo apontado por críticos como um dos maiores retrocessos sociais desde o século 19. Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, o deputado Christian Castillo chamou a proposta de “ataque frontal” aos direitos trabalhistas. Entenda mais aqui.

Alta histórica na bolsa. As ações na América Latina avançam no ritmo mais forte em uma década. Segundo levantamento da Bloomberg, o índice MSCI EM Latin America acumula alta superior a 20% em 2026, o melhor começo de ano desde 1991. Analistas atribuem o desempenho à forte entrada de capital estrangeiro, sobretudo em Brasil, México e Colômbia. Leia mais aqui.

Terror no México. A morte de Nemesio Rubén Oseguera, o “El Mencho”, um dos narcotraficantes mais procurados pelos EUA, desencadeou uma onda de violência no México. O líder do cartel de Jalisco Nueva Generación morreu durante uma operação do Exército, e autoridades acionaram “código vermelho” diante de incêndios e confrontos registrados em diferentes regiões. Leia mais aqui.

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Plaza de cultura

Os colombianos do TIMØ lançaram um disco com sabor de nostalgia. Foto: Divulgação.

⚖️Para ouvir direito. O podcast “Entre Linhas e Leis” propõe a leitura de grandes obras da literatura pela ótica do direito. Ao aproximar ficção e reflexão jurídica, a atração ilumina conflitos, estruturas de poder e dilemas humanos com profundidade e originalidade. O podcast já analisou grandes obras latino-americanas, como Pedro Páramo e Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes. Recomendo especialmente esse aqui, dedicado a O Século das Luzes, de Alejo Carpentier.

🌤️Sol que brilha triste. E na semana passada, em plena efervescência carnavalesca, saiu o segundo álbum do TIMØ, Canto Pa’ No Llorar. É um daqueles discos da linhagem de Juanes, que colocam a tristeza na receita, mas não deixam ela fermentar demais, estragando o bolo. As letras encaram a dor de frente e nos lembram de que até nos dias nublados existe um sol insistindo em brilhar. Destaques para Ese Verano, Traguita e No Hay que Llorar. Ouça aqui.

🎬 Entre gestos e silêncios. Em Semana Santa, da mexicana Alejandra Márquez Abella, as tensões aparecem nas frestas: um olhar que demora, uma frase contida, um silêncio pesado. Com delicadeza e precisão, o filme revela divisões ocultas e sentimentos que quase não se deixam ver. Um drama sutil, mas profundamente impactante, ideal para você se despedir de vez do Carnaval. Tá disponível aqui.

🎺Día de mala suerte. Morreu no sábado um dos maiores nomes da história da salsa, Willie Colón, aos 75 anos. Trombonista, cantor, compositor e produtor, ele foi decisivo para consolidar o gênero como fenômeno internacional a partir das décadas de 1960 e 1970. Como forma de celebrar o legado de amor pela latinidade deixado pelo artista, indico a audição de Crime Pays, uma bela entrada para a música desse artista seminal.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Gabrielle Alves, criadora do perfil @leiturasdagabrielle no Instagram.

Para Gabrielle, ser latina é insistir no nosso maximalismo de sonhos. Foto: Divulgação.

“Tenho refletido sobre o que é ser latina e agora entendo que pra mim é recusar o apagamento cotidiano que nos pede menos volume, menos cores, menos excesso. É respirar fundo e reagir quando falsamente nos elogiam como “exóticas e diferentes” ou quando dão risada do nosso sotaque pronunciando as mais complexas palavras, nos mais diversos idiomas. É entender que nossa alegria não é ingenuidade, é estratégia de sobrevivência; que nossa festa é também linguagem; que nossa bagunça é forma de comunidade. Ser da América Latina, para mim, é insistir em existir por inteiro. É não aceitar que nos reduzam a estereótipos nem que nos domestiquem em nome de uma suposta elegância universal. É insistir no nosso maximalismo de sonhos, desejos e sentimentos.”

Colofão

Esta edição foi finalizada na segunda-feira pós-Carnaval, se é que o Carnaval de fato acaba.

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