
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, paralelos literários motivados pelo TikTok, concerto latino na Sala São Paulo, um passeio literário por Buenos Aires e mais.
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Entre o novo passinho viral, a receita quase pornográfica que leva iogurte, café e bolacha belga e algumas soluções improvisadas para desentupir a pia da cozinha, surgiu Dostoiévski. O autor russo do século XIX reapareceu de forma improvável em um lugar que poucos apontariam como seu habitat natural: o feed do TikTok. Como mostrou uma matéria recente do PublishNews, jovens leitores passaram a representar trechos de Noites brancas, criar leituras dramáticas e tratar a novela como uma “história de amor bonitinha”, fazendo o livro circular de maneira orgânica.
E o curioso é perceber como certas obras atravessam época, linguagem, hashtags, ferramentas e o escambau sem perder potência. Dostoiévski reaparece não porque foi simplificado, mas porque continua oferecendo algo precioso: personagens e temáticas extremamente atuais. Se esse movimento despertou (ou reacendeu) o interesse pelo autor russo, talvez valha treinar o algoritmo para chegar até a América Latina, onde há um escritor que dialoga diretamente com esse universo dostoievskiano: Ernesto Sabato.
Antes de se dedicar à literatura, Sabato formou-se em física e chegou a trabalhar no MIT, nos Estados Unidos. Abandonou a ciência ao perceber que ela já não respondia às perguntas que mais o inquietavam: o mal, a solidão, a fragmentação do sujeito moderno. Nascido em 1911, na província de Buenos Aires, construiu uma obra marcada por um compromisso ético profundo, atravessada por questões políticas, filosóficas e morais. Em entrevistas, afirmou que a arte o salvou do suicídio e que, por isso mesmo, sua literatura era trágica. Agraciado com o Prêmio Cervantes, Sabato presidiu ainda a comissão responsável pelo relatório Nunca Mais, documento central sobre os crimes da ditadura argentina.
O próprio Sabato reconheceu suas semelhanças com Dostoiévski, destacando que a relação que mantinha com o escritor russo foi se transformando ao longo do tempo. Leu Crime e Castigo, primeiro, como um romance policial; mais tarde, como uma extraordinária novela psicológica, até compreender que se tratava de “o maior romance já escrito sobre o eterno problema da culpa e da redenção”. A partir daí, Dostoiévski passou a ocupar, para ele, o lugar de herói intelectual – menos como ficcionista e mais como pensador, capaz de intuir, ainda no século XIX, que algo de trágico se gestava sob o otimismo científico da modernidade.
Essa influência aparece de forma cristalina em O Túnel, primeiro romance de Sabato, frequentemente aproximado de Memórias do Subsolo. Nos dois livros, o leitor encontra narradores que falam demais, se explicam demais e, justamente por isso, se revelam. Crimes e baixezas morais importam menos do que o percurso mental que os antecede e os sucede. O centro da narrativa está na consciência em combustão.
Em Sobre Heróis e Tumbas, Sabato amplia esse campo de forças. O romance abandona o eixo estritamente individual e incorpora múltiplas vozes, tensões ideológicas e uma dimensão quase alucinatória da realidade. O célebre Relatório sobre Cegos, um dos capítulos centrais do livro, funciona como uma descida vertiginosa ao delírio, num movimento que lembra as grandes cenas de desagregação moral de Dostoiévski. A paranoia não aparece como exceção, mas como sintoma de um mundo que perdeu seus centros de sentido – algo que aproxima Sabato de romances como Os Demônios e Os Irmãos Karamázov.
As diferenças entre os dois escritores são mais históricas do que de intensidade. Dostoiévski escreve sob o peso da fé, da culpa e da incerta possibilidade da redenção. Sabato escreve depois da fratura dessas promessas, num mundo em que ciência, política e razão já demonstraram seus limites. Em ambos, a literatura se constrói a partir do confronto direto com a própria sombra, sem mediação nem conforto. Certos livros apenas aguardam o próximo colapso coletivo para voltar a fazer sentido. Se Dostoiévski cabe hoje entre uma trend e outra, Sabato também cabe. E talvez – bate na madeira – viralize do mesmo jeito.

Guerra tarifária. Colômbia aumentou tarifas sobre produtos equatorianos e suspendeu a venda de energia ao vizinho numa escalada de um conflito comercial bilateral. As medidas são resposta a tarifas semelhantes impostas pelo Equador e geram preocupações sobre impacto no emprego e nos negócios de ambos os lados. Entenda melhor as motivações desse embate nessa matéria da IstoÉ Dinheiro.
América do sul em concerto. Já estão à venda os ingressos para as apresentações da Osesp com o pianista russo Daniil Trifonov, nos dias 13 e 14 de fevereiro. Os concertos integram a gravação do álbum História Americana: Sul, que marca o primeiro registro de uma orquestra brasileira pelo selo Deutsche Grammophon. No programa, a América Latina no centro da cena, com destaque para Cuadros del Sur, do compositor venezuelano Gonzalo Grau. Ingressos aqui, a partir de R$ 50.
É pique, é pique. Em fevereiro, a Pinard completa seis anos de vida com dois lançamentos: Um Beijo de Dick, do colombiano Fernando Molano Vargas, e Atrás fica a terra, da venezuelana Arianna de Sousa-Garcia. O primeiro revisita o amor e o desejo com a urgência e a delicadeza de um clássico contemporâneo. Já a obra de Arianna transforma a experiência migratória em travessia literária com um relato sensível, contundente e profundamente humano.

📚 Rutas literárias. Buenos Aires é uma cidade para todos – sobretudo para almas complexas, como a de Jorge Luis Borges. Na edição #5 da série Buenos Aires Literária, um dos maiores escritores portenhos conduz a leitura de uma cidade plural, contraditória e em permanente reinvenção. Um convite a redescobrir Buenos Aires a partir das páginas, das artes, das memórias e dos relatos, em um projeto do perfil @ondasbuenas.
🎶 Ruído, política e literatura. Em Mandinga Times, seu primeiro disco em dez anos, Rita Indiana retorna à música com um trabalho pesado, político e atravessado por referências ao horror e ao metal. O álbum dialoga com sua produção literária recente, marcada pela ficção especulativa e por mundos em colapso, reafirmando Rita Indiana como uma das vozes mais importantes da cultura latino-americana contemporânea, seja nas músicas ou nos livros. Ouça aqui.
🌈 Um oásis de liberdade. Neste documentário, a diretora Camila José Donoso acompanha Roshell e Liliana, que há anos mantêm a Casa Roshell como refúgio para homens que reprimem seus desejos femininos. Entre maquiagens, espelhos e bolsas, o espaço vira palco íntimo de performances, mas também de escuta, partilha e afeto. Com delicadeza, a câmera se integra a esse ambiente idiossincrático e permite que cada pessoa exista como bem entende. O resultado é uma celebração onírica da identidade e da liberdade de ser. Assista aqui.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Dafne Graziele, criadora do perfil @bookbydaf no TikTok.

“Primeiramente, quando falamos sobre a América Latina, não podemos deixar de relacionar toda a sua diversidade cultural com o meio em que vivemos. Viver na América Latina é também lembrar do passado colonial, marcado pela exploração e pela violência, e lidar cotidianamente com o racismo estrutural que ainda molda nossas relações sociais. Mas é, ao mesmo tempo, viver entre singularidades, resistências e múltiplas manifestações culturais que nos cercam em todos os momentos. Como afirma Eduardo Galeano: “É a América Latina, a região das veias abertas” (p. 18). A terra, o consumo e a exploração dos recursos naturais são elementos que moldam essa grande complexidade latino-americana.
Ser da América Latina é, também, reconhecer a potência de seus grandes autores da literatura, que nos oferecem movimentos, narrativas fundamentais e contribuem para a construção de nossas identidades. Além disso, essa experiência se expressa na ampla variedade linguística presente no continente, que nos revela uma gama de história/cultura no contexto dos povos latino-americanos.
Viver na América Latina também é abraçar movimentos sociais importantes, discutir política em um mundo cada vez mais complexo e, ao mesmo tempo, se alienar um pouco por meio de programas de televisão, que fazem parte do cotidiano e da construção cultural das massas. É saber transitar constantemente entre a crítica e o entretenimento, que também dizem muito sobre quem somos enquanto sociedade.”
Esta edição foi finalizada no dia 25 de janeiro, também conhecido como o aniversário da capital paulista. Não fale mal dela, senão eu viro o Supla no teto do Martinelli.
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