
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, hinos compartilhados, a guardiã da biblioteca de Vargas Llosa, o novo e premonitório disco do Rawayana e mais
Leia maisComecei o ano relendo Filho de ladrão, do Manuel Rojas, e – veja só o poder das releituras – um trecho que passou despercebido na primeira vez me chamou muito a atenção. Porque a literatura vai acumulando camadas, e o momento da leitura ajuda a trazer à tona sentidos que antes permaneciam ali, discretos. A passagem é esta aqui:
“‘Liberdade é a herança do bravo’, diz o hino nacional chileno; ‘Liberdade, liberdade, liberdade’, diz o hino nacional argentino. Liberdade, sim, mas ponhamos cadeados nas portas.”
Já ouvi incontáveis vezes os hinos dos vizinhos antes das partidas da Libertadores, sempre meio no automático, e só agora a ficha caiu: a palavra “liberdade” aparece em quase todos os hinos nacionais da América Latina. É óbvio. Tão óbvio que raramente parei para pensar nisso. No hino argentino, a palavra é repetida como uma ameaça; no chileno, aparece como herança; no venezuelano, o verso diz: “E o pobre em sua choupana implorou por liberdade; sobre este santo nome tremeu de pavor o vil egoísmo que outrora prevaleceu.” Poderíamos seguir: México, Colômbia, Peru, Uruguai. Em maior ou menor grau, a liberdade está lá, como se fosse uma senha de entrada para a vida republicana.
Não quero atacar de contador e sair medindo a liberdade alheia como quem faz um razonete, tentando separar o que foi promessa, o que virou conquista e o que nunca passou de retórica. O que me interessa é outra coisa: essa convivência histórica, tão característica da América Latina, entre o gesto fundador e a frustração que vem depois, entre a independência formal e um conjunto de dependências que se reorganizam com o tempo, trocando de nome, de bandeira, de discurso – e, conforme o momento, também de inimigos.
Nesse processo, a palavra “liberdade” permaneceu preservada nos hinos como valor intocável, mas sua experiência concreta foi sendo negociada ao longo dos anos, quase sempre em nome de alguma urgência maior, real ou fabricada. Ela seguiu funcionando como símbolo estável num cenário político e social em permanente rearranjo. A busca pela liberdade ganha contornos nefastos e passa a ser convocada a cada crise, reapresentada como se estivesse sempre a um passo de ser finalmente alcançada. Nesse movimento, a liberdade deixa de ser prática cotidiana e passa a funcionar como promessa recorrente, algo que se protege com cadeados, para usar a imagem de Rojas, enquanto se decide quem pode ou não se aproximar dela.
Essa lógica aparece de formas diferentes ao longo da nossa história, quase sempre acompanhada de explicações simples demais para realidades complexas. A liberdade surge como palavra de união, mas também como instrumento de mobilização, capaz de produzir consenso rápido, reduzir nuances e organizar afetos coletivos. Não se trata de negar sua importância, mas de reconhecer o quanto ela pode ser usada como atalho discursivo, sobretudo quando pensar dá mais trabalho do que concordar.
O curioso é que, enquanto “liberdade” se repete em quase todos os hinos, “soberania” mal aparece. A primeira virou refrão; a segunda, problema. Talvez porque sejamos há muito treinados a cantar a liberdade, mas ainda estejamos aprendendo a lidar com o que significa, de fato, ser soberano.

Tratado à vista. O Mercosul deve assinar no próximo sábado, dia 17, o aguardado acordo comercial com a União Europeia, encerrando quase três décadas de negociações. O tratado, visto como antídoto contra os rompantes de Trump, será firmado no Paraguai e conta com o apoio da maioria dos países do bloco europeu. Tá se perguntando como é que isso pode afetar a sua vida, e principalmente o seu bolso? Essa reportagem do G1 tá bem completa.
A guardiã. Após a morte de Mario Vargas Llosa, parte de sua biblioteca pessoal começa a ser aberta ao público em Arequipa, no Peru. São mais de 11 mil livros com anotações, dedicatórias e marcas de leitura, preservados por uma década sob os cuidados de Nelly Miranda, bibliotecária escolhida pelo próprio escritor. Mas quem é Nelly? Essa reportagem do El País te conta toda essa história.
Mal-interpretados? Você tem uma leitura própria dos livros ou lê aquilo que te ensinaram a pensar sobre eles? Essa é a provocação por trás deste post no Instagram, que reúne uma lista de livros latino-americanos que talvez você nunca tenha lido por conta própria, só através das leituras dos outros. Tem até algumas obras publicadas pela Pinard nessa lista aí.
Calm down. Depois de muitos pedidos, a editora Pinard relança Middlemarch, de George Eliot, em uma edição que resgata a tradução de Leonardo Fróes, vencedora do Prêmio Paulo Rónai. O projeto gráfico, já finalista do Jabuti, reafirma o cuidado editorial dedicado a um romance que exige tempo, atenção e leitura sem pressa. Garanta o seu exemplar aqui.

🎨 Além do concreto. Em cartaz no Centro MariAntonia até 15 de março de 2026, a exposição Neo-andina 15-25, do fotógrafo Tatewaki Nio, reúne mais de 60 trabalhos que investigam a arquitetura neo-andina surgida em El Alto, na Bolívia. A mostra apresenta fotografias, maquetes, vídeos e projeções que revelam a força estética, simbólica e política dessas construções supercoloridas, produzidas entre 2015 e 2025. A visitação é gratuita e acontece de terça a domingo.
⚡Inimigos do fim. ¿Dónde Es El After? mal saiu e já tá sendo considerado o disco mais dançante e provocativo da banda venezuelana Rawayana. Lançado no primeiro dia do ano, o álbum mistura pop e música urbana (que o grupo chama de “venetón”). A música abertura já chega com o dedo na ferida: “Um feliz ano novo te deseja Rawa te deseja um feliz ano novo, e que os filhos da p*%$ saíam fora”. Tem gente dizendo que foi uma previsão do que aconteceria dias depois no país do grupo. Ouça no Spotify.
🪰O Tempo das Moscas. Essa série argentina acompanha duas mulheres que, ao sair da prisão, tentam recomeçar a vida gerenciando um negócio de dedetização. O plano de reinserção social começa a ruir quando uma cliente as puxa de volta para o território que elas lutaram tanto para deixar para trás, dando à série um tom cada vez mais tenso e moralmente ambíguo. É uma boa dica para quem curte narrativas não lineares, que exigem atenção máxima a cada detalhe. Assista na Netflix.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é Fabrício Augusto Souza Gomes, doutor em História (CPDOC-FGV), professor e criador/editor do canal @dicashistoricas no Instagram.

“Ser da América Latina é ocupar um espaço histórico marcado por lutas, políticas e afetos… por sonhos que desafiam ordens globais e por saberes que resistem ao esquecimento. É reconhecer que nossas fronteiras foram desenhadas por violências coloniais, mas que a solidariedade cotidiana é capaz, até hoje, de construir redes que atravessam nações: migração, vizinhança, amizade e diálogos.
A latinidade em Nuestra America constrói pertencimento – apesar de feridas históricas – e celebra linguagens que narram sobrevivências. É perceber que há um pulso criativo que atravessa periferias e centros, traduzindo dificuldades em práticas coletivas. É negociar memórias e esperanças entre gerações. Ser da América Latina é carregar no corpo e na fala uma geografia de resistências. Nossa identidade nasce na mistura de ancestralidades e inovações, com a capacidade de se reinventar, mesmo numa cultura de frestas – atuando nas margens e nas rachaduras da ordem social.”
Esta edição foi fechada em mais uma madrugada histórica para o cinema brasileiro, com Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho levantando o Globo de Ouro.
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