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Por Chico Spagnolo
Nesta edição, despedidas, agradecimentos e um Pinard que a gente não convidaria para a ceia de Natal
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Todo fim de ano pede pelo menos duas coisas: retrospectiva e boa história boa para contar. Nesta edição especial da newsletter, abrimos mão das seções tradicionais para fazer exatamente isso: olhar para o ano que passou e contar uma história que estava implorando para ser contada.
A ideia de uma newsletter – não desta edição, mas da newsletter em si – é antiga por aqui. Já foi promessa de virada de ano, rabisco em caderno, pauta de reunião acalorada, aba esquecida no navegador. Desde então, falamos de títulos que antecederam o colapso climático, de livros que pensam o poder da narrativa para além da ficção, de breves perfis de Rosario Castellanos, Elena Garro e Gabriela Mistral, e de outros temas que dariam um ótimo quebra-gelo na mesa da ceia de Natal (ou não, vá com calma).
Retrospectiva feita, senta aí que lá vem história. E essa é uma daquelas que não têm a ver com a América Latina, mas com a Pinard. Ou melhor: com o Pinard.
Ernest Pinard foi um procurador francês do século XIX. Um sujeito aplicado, ambicioso, politicamente habilidoso e profundamente desconfiado da literatura. Em meados de 1857, atuando como procurador adjunto do Império e disposto a agradar Napoleão III, Pinard decidiu travar uma batalha exemplar contra aquilo que julgava ameaças à moral pública e religiosa. Seus alvos foram dois livros recém-publicados: Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e As flores do mal, de Charles Baudelaire.
No tribunal, acusou Flaubert de transformar a vida conjugal em espetáculo de adultério e de “tudo dizer, tudo mostrar, tudo descrever”; e Baudelaire de fazer da poesia um território de blasfêmia, sensualidade e corrupção dos costumes. Para Pinard, não se tratava apenas de literatura, mas de um risco concreto à ordem social.
O que ele não imaginava é que, ao tentar proteger a sociedade da literatura, acabaria oferecendo aos dois autores uma publicidade que nenhum editor conseguiria pagar – e garantindo que seu próprio nome fosse lembrado não como defensor da moral, mas como um de seus mais zelosos e ineficazes censores, sempre citado como exemplo do que acontece quando o Estado resolve ensinar bons costumes à arte. E é justamente aqui que vale um esclarecimento: a editora Pinard não tem absolutamente nada a ver com aquele Pinard. Nenhum parentesco, nenhuma homenagem, nenhuma ironia calculada. Nada. O nosso nome vem de outro lugar.
Pinard, para nós, nasce do encontro entre Pierre e Menard – aquele mesmo, do conto de Borges, que reescreveu Dom Quixote palavra por palavra. Um nome inventado a partir da literatura, não contra ela. Um nome que nasce da literatura, e nunca contra ela. E que carrega, desde a origem, a ideia de juntar o que estava distante: trazer livros latino-americanos para o Brasil, aproximar épocas, vozes e países, colocar histórias em circulação e livros em conversa com o presente. E, se tem Pinard que prefere tentar calar escritores, esta Pinard aqui prefere cada vez mais fazer barulho com eles.
Encerramos o ano assim: com livros à mesa, histórias cruzadas, leitores por perto e a certeza de que alguns planos valem a espera. Obrigado por estarem aqui. Ano que vem tem mais.
Boas festas e até já.
PS: já que essa edição falou tanto de nomes, que tal nos ajudar a batizar a newsletter? Deixe a sua sugestão nos comentários.
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