Memórias inventadas, lembranças periféricas

Memórias inventadas, lembranças periféricas

A nova edição brasileira de Texaco, Torres García no CCBB, uma leitura política da vila do Chaves e mais

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Bairro de Texaco, em Fort-de-France, na Martinica. Foto: Adeline Rapon/Reprodução

No início dos anos 1990, o Brasil vivia um período de instabilidade econômica, hiperinflação, privatizações aceleradas e cidades que se verticalizavam sob a lógica da urgência e da exclusão. As remoções urbanas começavam a estampar manchetes, a especulação imobiliária mostrava seus primeiros truques, e o debate público ainda engatinhava quando o assunto era pluralidade cultural, oralidade e memória. Era um país que apostava na modernização, mas que pouco reconhecia a profundidade das próprias raízes – e que raramente enxergava suas periferias como pólos de invenção cultural.

Na Martinica, a paisagem social também era marcada por tensões profundas, e foi nesse cruzamento histórico que Patrick Chamoiseau publicou Texaco, romance que, ao dialogar diretamente com a filosofia de Édouard Glissant – sobretudo com o “imaginário da relação” –, ofereceu uma nova forma de pensar identidade, língua e ocupação urbana no Caribe. O impacto foi imediato: em 1992, Texaco recebeu o Prêmio Goncourt, o mais importante da literatura francesa, e projetou Chamoiseau internacionalmente como uma das vozes centrais da crioulidade.

O título do livro já indica por onde passa sua força. “Texaco” é o nome de uma comunidade construída nos arredores de um antigo depósito da petroquímica homônima. Ao adotar a alcunha, a obra assume desde o início que sua matéria-prima é esse espaço visto durante décadas como respingo urbano, mas que, nas mãos de Chamoiseau, revela sua própria arquitetura de sobrevivência, memória e inventividade. Em entrevista recente à revista Quatro Cinco Um, o autor disse que sua primeira intenção era escrever um estudo acadêmico sobre a renovação urbana dos bairros populares, apoiado em pesquisa etnográfica e depoimentos dos moradores. Logo percebeu que, apesar de ter diante de si uma “realidade” do bairro, não havia ainda tocado o “real” Texaco, aquele que escapa à lógica, à clareza e às ferramentas da ciência. Decidiu, então, escrever um romance, um organismo vivo.

A reflexão do autor sobre sua prática literária deixa claro que essa história só poderia ser contada a partir de uma abertura radical da língua: em Texaco, o francês divide espaço com o crioulo. Essa escolha vai além da estilística e reforça a centralidade das vozes que moldam a comunidade, devolvendo à narrativa as camadas que políticas linguísticas hegemônicas tentaram apagar. É um livro que recusa o olhar disciplinador das metrópoles e abraça a complexidade de territórios que sobrevivem apesar (e muitas vezes contra) o urbanismo oficial.

Três décadas depois, o romance retorna a um Brasil transformado, mas ainda atravessado por dilemas conhecidos. A especulação imobiliária segue reorganizando o espaço urbano, a gentrificação entrou de vez na ordem do dia, e a disputa entre quem constrói a cidade e quem pode permanecer nela se intensificou. Ao mesmo tempo, o país vive um debate mais amplo sobre pluralidade cultural, memória, reparação e pertencimento – uma conversa que permite ler Texaco com ainda mais nitidez.

As reflexões de Chamoiseau reforçam essa atualidade. Ele insiste que um país só se realiza quando valoriza todas as suas memórias e quando desenvolve expressões artísticas capazes de escapar dos “lugares-comuns e deformações” que empobrecem nossa percepção do real. Mais do que uma narrativa sobre uma comunidade caribenha, Texaco é uma reflexão profunda sobre cidade, linguagem, memória e identidade – temas que acompanham tanto o Caribe quanto o Brasil. Texaco nos convoca a ouvir territórios e vozes que, ainda hoje, lutam para ser plenamente reconhecidos no mapa simbólico da nossa sociedade.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

A vila mais famosa da América Latina é tema de artigo político. Foto: Televisa/Divulgação

Chaves e a crítica latino-americana. O artigo publicado no Outras Palavras apresenta a vila do Chaves como um microcosmo crítico da América Latina. A análise mostra como o seriado encena tensões sociais, desigualdades e produz uma sátira popular afiada, enquanto sua forte nostalgia carrega o luto das causas perdidas após décadas de neoliberalismo desumanizante. Leia o artigo completo no Outras Palavras.

Colômbia no topo. O 50 Best elegeu o colombiano El Chato, de Bogotá, como melhor restaurante da América Latina, marcando a primeira vitória do país e rompendo a hegemonia peruana no topo do ranking. Sob comando do chef Álvaro Clavijo, a casa ficou à frente do Kjolle, de Pía León. A cerimônia aconteceu na última terça-feira (2), em Antígua, na Guatemala. Leia mais aqui.

Chegou a Pinard Contemporânea. Para fechar o ano com notícia boa, a gente tem o orgulho de anunciar a chegada da Coleção Contemporânea, que vai reunir as principais vozes da literatura latino-americana da atualidade. O primeiro livro vai ser Texaco, de Patrick Chamoiseau, que já está em pré-venda. A Contemporânea também vai publicar nomes como Fernando Molano Vargas, Arianna de Sousa-García, Andrés Montero e Lyonel Trouillot.

FIL Guadalajara 2025 bate recorde. A 39ª edição da feira reuniu mais de 953 mil visitantes (5% acima de 2024) e celebrou 648 apresentações de livros. Para a reitora da UdeG, Karla Planter Pérez, os números confirmam que o México é um “país de leitores” e reforçam a FIL como um dos grandes baluartes da cultura latino-americana. Leia mais aqui.

Plaza de cultura

Cena do filme Tarde para morrer jovem, que se passa no Chile pós-ditadura. Foto: Divulgação

🎨 Torres García no CCBB. A partir de 10 de dezembro, o CCBB São Paulo exibe “Joaquín Torres García – 150 anos”, uma megaexposição gratuita com cerca de 500 peças, incluindo o conhecidíssimo Mapa Invertido (1943), marco do pensamento de identidade e decolonialidade do artista uruguaio. A mostra fica em cartaz até 9 de março do ano que vem. Mais detalhes aqui

🌺 Som da Martinica. Lançado em 2003, Madousinay marcou uma nova fase para Jocelyne Beroard, um dos principais nomes da música da Martinica. O disco une zouk contemporâneo e tradições da ilha para contar histórias em crioulo, como é o caso de “Eti la yo yé”, que evoca os ancestrais escravizados enterrados sem dignidade. Ouça aqui.

🎬Tarde para morrer jovem. Essa obra sensorial e melancólica de Dominga Sotomayor é ambientada no verão de 1990, quando o Chile tenta respirar após a ditadura. Acompanhando Sofía, Lucas e Clara em uma comuna rural, o filme captura o delicado instante em que adolescência, desejo e país entram em transição. Destaque nos festivais de Locarno e Roterdã. Assista na Mubi.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. O convidado da vez é o escritor Patrick Chamoiseau.

Para Chamoiseau, a poética da relação ajuda a entender a América Latina. Foto: Jean-Luc de Laguarigue

“Ser latino-americano hoje é considerar, antes de tudo, que vivemos em um mundo que já não é o mundo de nossos bisavós. É um mundo em que todas as experiências humanas se encontraram.

E as Américas – o Brasil, as Antilhas, o Caribe, toda a América – são justamente um lugar onde todas as culturas e civilizações do mundo se cruzaram. A dificuldade que temos é que essa nossa realidade, que é uma realidade-mundo, ainda é dominada apenas pela dimensão ocidental.

E, se quisermos realmente nos afirmar como latino-americanos, isso significa que somos ao mesmo tempo ameríndios, africanos, europeus e asiáticos. E que tudo isso se reuniu para formar o Brasil, as Américas latinas, as Américas centrais e a totalidade das Américas – das Antilhas ao Caribe.

Quando me pedem para me definir, eu digo que sou um crioulo americano. Crioulo americano por quê? Crioulo porque sou o produto da crioulização; o povo martinicano nasceu, como o povo brasileiro, dentro da colonização. Americano por quê? Porque habito a Martinica, as Antilhas, o Caribe – e, seja nos Estados Unidos, no Canadá, no Chile, no Brasil, na Martinica, em Cuba ou na Jamaica, estamos todos em um espaço que partilha o mesmo imaginário: o mesmo imaginário histórico, o mesmo imaginário cultural, o mesmo imaginário estético, fundado no genocídio ameríndio, no tráfico de africanos escravizados, nos sistemas de expulsão, na globalização capitalista, no colonialismo em geral.

Isso criou uma unidade muito particular, que só pode ser compreendida se considerarmos que essa unidade americana só é acessível por meio da diversidade das presenças americanas. Portanto, ser latino-americano é ser um homem da relação.

Um homem da relação é alguém constituído por todas as fontes culturais das experiências humanas – alguém que só pode se realizar verdadeiramente se habitar a totalidade das presenças e das fontes que carrega dentro de si.

O Brasil só pode encontrar seu próprio cumprimento se respeitar e valorizar as memórias ameríndias, africanas, europeias e todas as memórias asiáticas. E nós precisamos fazer exatamente a mesma coisa – não apenas nas Américas, mas no mundo inteiro.

É por isso que a literatura da relação – esse princípio que permite colocar em convergência positiva toda a diversidade das experiências humanas – é o caminho para melhor habitar o mundo e melhor respeitar o vivo. A literatura contemporânea é necessariamente uma literatura da relação. Portanto, o homem latino-americano é um homem da relação.”

Colofão

Esta edição foi finalizada numa manhã de segunda-feira tomada pela nostalgia da última Balada Literária.

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