
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, uma apresentação de Sab, a nova edição da Flup, um som etéreo vindo da Argentina e mais.
Leia maisHá livros que, mesmo escritos há quase dois séculos, continuam atravessados pelas perguntas que ainda fazemos sobre raça, identidade e desigualdade. Ou será que nossos tempos é que avançam (avançam mesmo?) a passos lerdos?
Sab (1841), da autora cubana Gertrudis Gómez de Avellaneda, é um desses casos raros: um romance abolicionista que expõe, com sutileza e força, as contradições do sistema escravista e o imaginário racial de seu tempo. Avellaneda constrói uma narrativa que incomoda justamente porque não oferece respostas simples. Sab, o protagonista, é um homem escravizado que cresceu dentro da casa-grande, ao lado de Carlota Bellavista. Eles dividem a infância, as leituras e um modo de perceber o mundo que, para Sab, é sempre atravessado por uma impossibilidade fundamental: a de se entender como igual – e ainda assim saber que nunca poderá ser tratado como tal.
A autora arma aí uma das tensões mais férteis da obra: o que acontece quando alguém é educado para desejar a liberdade, mas é impedido de vivê-la? A instrução, para Sab, não é emancipadora. É uma promessa cruel. Ele lê, escreve, pensa, sonha… mas o mundo ao redor insiste em lembrá-lo de que nada disso muda sua condição jurídica, racial e social.
No século XIX, era ousado colocar um homem negro no centro da narrativa sentimental, atribuindo-lhe virtudes como generosidade, sensibilidade e reflexão moral. E mais ousado ainda era desmontar o mito da superioridade branca, representada na figura de Enrique Otway: loiro, elegante, financeiramente conveniente, e ainda assim de uma pequenez tremenda quando o assunto é caráter, afeto e humanidade. Se Sab é a figura que a sociedade não espera que um escravizado seja, Enrique é a figura que a sociedade não admite que um “senhor” possa ser: mesquinho, interessado e moralmente vazio.
Esse contraste não é gratuito. Avellaneda usa a própria estrutura do romance para expor as fraturas de um sistema que se dizia natural. A verdade incômoda, revelada mais tarde, de que Sab é filho de uma princesa do Congo e irmão de seu senhor, Don Carlos, é mais um golpe na lógica colonial: a escravidão não se sustenta sem o apagamento de histórias, laços e dignidades.
E se Carlota – sonhadora, romântica, moldada pela educação feminina de seu tempo – deposita no casamento a ideia de destino e felicidade, Sab é o contrário: um homem que sabe que seus desejos não cabem no mundo que o cerca, e que talvez por isso mesmo seja capaz de sacrificar tudo em nome de quem ama.
Sab não é um tratado político nem pretende ser um manifesto, mas expõe de forma literária o mecanismo da violência racial, e o faz com uma ambiguidade que continua relevante. O romance fala de um sistema que produz desigualdade não apenas pelo trabalho forçado, mas também pelo controle dos afetos, das expectativas, dos sonhos e do próprio imaginário. Fala de como a sociedade define quem pode amar, quem pode desejar, quem pode aprender, quem pode narrar. E, sobretudo, fala do que acontece quando alguém tenta existir fora dessa moldura. A meu ver, é esse um grande ponto de debate sobre a obra: Avellaneda escancara as estruturas que continuam moldando quem pode viver plenamente, e quem ainda luta para ser reconhecido como humano.
O conhecimento de Sab amplia o mundo ao seu redor, mas também aprofunda a percepção da prisão que o cerca. É a experiência de tantos sujeitos negros na história: a consciência da liberdade antes da possibilidade de exercê-la.

Periferias em cena. A partir de amanhã, a literatura toma conta de Madureira. A nova edição da Flup, a Festa Literária das Periferias, homenageia Conceição Evaristo, que divide mesas com a Mireille Fanon, jurista e filha de Frantz Fanon, o autor martinicano Patrick Chamoiseau e a escritora haitiana Yanick Lahens. A programação também celebra Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Leia mais na Quatro cinco um.
Vai pra Cuba! A Bahia abriu seleção para enviar 60 jovens de movimentos sociais para estudar medicina em Cuba. O programa, da Secretaria da Saúde, prevê investimento de R$ 21,5 milhões ao longo dos seis anos de formação na ELAM, escola criada por Fidel Castro para estudantes de baixa renda. As inscrições começaram ontem e seguem até sexta-feira, dia 21, e os resultados saem dia 26/1. Leia mais no UOL.
Haiti sob pressão. A crise humanitária no Haiti se agrava e a ONU renovou por mais um ano as sanções ao país diante do avanço das gangues e da deterioração da segurança. Como se esse cenário não fosse suficiente, 52 prisioneiros morreram entre julho e setembro em presídios superlotados, em condições classificadas pelas Nações Unidas como “desumanas e degradantes”. Leia mais aqui.
Enem no Mercosul. O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou neste domingo (16) que o governo estuda aplicar o Enem nas capitais de Argentina, Uruguai e Paraguai a partir de 2026. A intenção do MEC é abrir as portas das universidades brasileiras para estudantes do Mercosul. Leia mais na Folha de S. Paulo.

🎧 Eternautas. A banda argentina Nadar de Noche transita entre o pop, o pós-rock e as experimentações eletrônicas. Em Extrañamente, que saiu em junho, guitarras em camadas, sintetizadores e ritmos sutis criam um som que oscila entre o atmosférico e o etéreo, com pinta de trilha sonora de sci-fi. Não perca “Lejos”, “Tan suave” e “Temporal”. Ouça aqui.
🌿Últimos dias. A instalação Reformar – políticas de drogas, Restaurar – direitos e Recuperar – natureza entra na reta final e fica aberta ao público só até 22 de novembro, na Matilha Cultural, em São Paulo. A mostra integra o projeto Intersecção, promovido pela Iniciativa Negra e pela Coalizão Internacional pela Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental, e propõe refletir sobre as conexões entre política de drogas, uso da terra e justiça climática. Saiba mais aqui.
🎬 Olhar latino sobre o racismo. Uma boa pedida para essa semana é Pelo Malo, da diretora venezuelana Mariana Rondón. O filme acompanha Junior, um menino negro de 9 anos que deseja alisar o cabelo para a foto da escola – um gesto aparentemente simples, mas que revela como o racismo e os padrões de beleza atravessam a infância. A narrativa é íntima, delicada e profundamente social, costurando temas como identidade, autoestima e desigualdade. Veja no Prime Video.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Maria Carolina Casati, criadora do @encruzilinhas.

“Ser uma mulher-negra na América Latina é ter consciência de que só é possível existir por conta das palavras. É preciso ter consciência que, numa sociedade na qual não apenas não somos toleradas como somos exterminadas, somente no coletivo conseguiremos sobreviver. Ainda que a misoginia nos queira inimigas, apenas na rede, na promoção da amizade feminina encontramos forças para colaborarmos umas com as outras e todas com um mundo melhor.
Ser mulher-negra na América Latina é fabular diariamente novas formas de significar nossas experiências. O cuidado que temos umas com as outras é o que nos mantém vivas. Se nas narrativas do norte global o terror se dá pelo encontro com vampiros, fantasmas e assombrações, aqui, nem em casa estamos seguras, os monstros são outros e não fazem parte do campo do sobrenatural.
Ser mulher-negra na América Latina também é poder conjurar feitiços e, no contato com a terra, com nossas lendas e narrativas na palavra bem empregada e intencionada, materializar futuros ancestrais que honram e celebram a todas nós”.
Esta edição foi finalizada num domingo à tarde, durante o fechamento da Cúpula dos Povos, em Belém.
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