Quid corpus possit

Quid corpus possit

Nesta edição, o que pode o corpo na literatura latino-americana, big tech financiando o reflorestamento, a biblioteca do Gabeira e mais

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Muito já foi dito e teorizado sobre o corpo. Foucault o viu como o espaço onde o poder se escreve; Deleuze e Guattari, inspirados em Artaud, o imaginaram sem órgãos: uma superfície onde circulam desejos, antes de qualquer forma ou identidade. Em comum, há uma pergunta que atravessa séculos: quid corpus possit – o que um corpo pode?

A literatura também já pensou o corpo, mas à sua maneira: menos teórica, mais visceral. Antes de descrevê-lo, ela o sente; antes de explicá-lo, o encarna. Em autores como Jorge Ibargüengoitia, Manuel Rojas e Mario Benedetti, o corpo não é apenas personagem, mas superfície de inscrição histórica: nele se gravam o prazer e o medo, o impulso e a culpa, o instinto e o castigo. O corpo, ali, é o campo onde a América Latina se escreve.

Em As Mortas (1977), Jorge Ibargüengoitia transforma o crime em caricatura e a devassidão em espelho. Inspirado em um caso real, o romance expõe o império de prostituição comandado por duas mulheres que exploram e destroem outras. Nesse universo, o corpo é negócio, instrumento, ruína. Ibargüengoitia usa o humor como bisturi para abrir o ventre moral de uma sociedade que lucra com o que finge reprovar. Por trás da ironia, há um retrato do corpo feminino como território de poder e resistência. Uma economia moral que tenta controlá-lo e um desejo que insiste em escapar.

Com Filho de Ladrão (1951), Manuel Rojas faz o corpo falar pela ferida. Há, no romance, um fragmento em que o narrador se detém nesse ponto invisível – uma dor que não se localiza, mas pulsa a cada gesto, como se lembrasse o corpo de sua própria vulnerabilidade. A ferida se torna um lugar de pensamento: o corpo refletindo sobre si mesmo, consciência que nasce do corte. Rojas transforma a dor em presença e a cicatriz em memória – um corpo que recorda porque foi forçado a resistir. É nesse limite que o autor instala sua poética: a ferida como arquivo da sobrevivência, o corpo como história viva, onde cada marca é também aprendizado.

Já em O Aniversário de Juan Ángel (1971), Mario Benedetti leva o corpo à luta. A narrativa sem pausas acompanha um homem que abandona a rotina e se lança na guerrilha – e a própria linguagem corre junto, sem respirar. A revolução é pulsação, não conceito. O corpo torna-se o último espaço da utopia: o que se entrega, o que sangra, o que paga. Há algo de “corpo sem órgãos” aqui: a tentativa de romper com as funções impostas, de fazer da carne um campo de reinvenção, de liberdade.

Três obras, três corpos, três modos de existir sob o cerco. Ibargüengoitia mostra o corpo explorado; Rojas, o corpo ferido; Benedetti, o corpo em luta. Juntos, revelam que o corpo nunca é apenas biologia: é técnica, política, desejo, é uma superfície de inscrição e de insurreição.

O corpo está sempre em mutação, como se procurasse novas formas de existir, mesmo quando tudo o tenta reduzir. Talvez seja essa a lição comum a todos: o corpo não cessa de experimentar, de escapar, de insistir. E é nisso que reside sua potência: no gesto de continuar perguntando, silenciosamente, o que pode um corpo.

Com informações da Revista Santiago e do Razão Inadequada.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Google e Mombak firmam acordo para financiar o reflorestamento da Amazônia. Foto: Shutterstock

Da ordem do inominável. Na Cidade do México, a presidenta Claudia Sheinbaum denunciou o homem que a tocou e que tentou beijá-la em público – defendendo que o assédio sexual seja considerado crime em todo o país. O episódio, filmado e amplamente compartilhado, coloca o corpo feminino novamente no centro de um debate político. Leia mais aqui.

Enquanto isso, na floresta. O Google anunciou seu maior acordo global de remoção de carbono, financiando o reflorestamento da Amazônia em parceria com a startup brasileira Mombak. São 200 mil toneladas de emissões compensadas, mas também a tentativa de reparar uma ferida que o progresso tecnológico insiste em abrir. Leia mais aqui.

Buh! latino-americano. O escritor cearense Moacir Fio falou ao Brasil de Fato sobre o bom momento do terror na literatura latino-americana. O autor de Aranha Movediça defende que o gênero é um espaço onde nossos medos coletivos, da ditadura à violência contra a mulher, encontram voz. Para Moacir, “o horror é uma forma de lidar com o mal, com aquilo que a sociedade tenta ocultar.” Ouça a entrevista completa aqui.

Literatura S/A. Ter uma editora soa como o ápice de quem ama livros. Mas o que acontece quando o encantamento precisa dividir espaço com planilhas, estratégias e margens de lucro? No programa “CNPJ no Divã”, do UOL, o CEO da TAG Livros compartilha uma visão rara sobre os bastidores e os dilemas de quem tenta fazer da literatura um modelo de negócio sustentável. O papo completo tá aqui.

Plaza de cultura

A argentina Juana Molina é uma das vozes mais criativas da América Latina. Foto: Divulgação.

📚 Na biblioteca do Gabeira. O jornalista abre as portas de sua biblioteca e fala sobre o que anda lendo, de Guimarães Rosa a temas como clima e geopolítica. Aos 84 anos, Gabeira reflete sobre o exílio, as mudanças do mundo e o prazer de seguir lendo todos os dias, agora no digital. Assista aqui ao vídeo produzido pelo Estadão.

🎬 Olhares delas. Começa hoje, no MAM do Rio de Janeiro, a mostra “Cineastas Latino-Americanas Contemporâneas”, que exibe 20 filmes dirigidos por mulheres do continente. Um dos títulos imperdíveis é La ciénaga, da argentina Lucrecia Martel. Além dos filmes, o público também pode acompanhar aulas e conversas temáticas. Veja a programação completa aqui.

🎶Um mantra eletrônico. Depois de oito anos em silêncio, a argentina Juana Molina reaparece com Doga, um mergulho sonoro feito de improvisos, sintetizadores e longas gravações. Lançado na última semana pelo próprio selo da artista, o álbum reafirma seu lugar como uma das vozes mais inventivas da música latino-americana contemporânea. Ouça aqui.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Beatriz Quaresma, professora e criadora do perfil @latinohablante.

Beatriz faz uma leitura histórica e cheia de contrastes sobre a região. Foto: Divulgação.

“Me parece difícil pensar o que é “ser da América Latina”. Acho que eu nunca tinha parado para pensar no significado que esse “ser” carregava antes de me tornar professora de espanhol, mesmo já sendo da América.

Entendo que, como brasileiros, muitas vezes não nos compreendemos como latino-americanos. Talvez pelo tamanho continental que carregamos, talvez pela questão linguística. Mas acredito que também exista uma força (não maligna, talvez política?) que nos faz olhar muito mais para fora, aos Estados Unidos e à Europa, do que para dentro, para a própria América Latina.

Sinto que foi pela proximidade com a língua espanhola que me aproximei também da ideia de ser latino-americana. No início da faculdade, eu ouvia muito a pergunta: “Por que escolheu espanhol e não inglês?” A verdade é que não sei dizer. Espanhol sempre foi uma opção. Eu respondia: “por que inglês e não espanhol?”. Para mim, o espanhol sempre esteve ali.

E que bonito foi descobrir ainda mais por meio dele. Através do espanhol, me interessei pela literatura latino-americana. E acho que foi nessas páginas que entendi o que é ser da América.

Talvez o que é ser da América para mim seja diferente do que é para você, e tudo bem. Para mim, envolve um ser que não cansa de ser, mesmo quando às vezes parece que o melhor seria deixar de ser. Sinto que somos forçosamente impulsionadas a ser, porque isso, às vezes, é tudo o que temos.

Entendo que “ser da América”, e sua relação com Américo Vespúcio, e a própria ideia de América Latina são complexas. Mas escolho o caminho de ressignificá-las, compreendendo que ser da América é fazer parte de uma história movida por contrastes e nada homogênea”.

Colofão

Esta edição foi concluída numa segunda-feira falsamente quente, daquelas que fazem qualquer paulistano repensar se vale mesmo botar roupa para lavar.

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