O protagonismo da natureza

O protagonismo da natureza

Nesta edição, títulos que antecederam o colapso climático, exposições que tratam da natureza, novo disco de Kell Smith e mais.

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Os Llanos da Venezuela, cenário do romance Dona Bárbara. Crédito: Reprodução/Passporter.

Décadas antes de o colapso climático se transformar em pauta global, alguns autores latino-americanos já haviam registrado, com a força e as permissões da ficção, os sintomas de um planeta em exaustão. É o caso dos romances de Miguel Ángel Asturias, Rómulo Gallegos e Gertrudis Gómez de Avellaneda, em que a natureza aparece não como cenário ou pano de fundo, mas como organismo vivo, sujeito à mesma violência que os personagens dos livros sofrem. Ler ou reler essas obras hoje, às vésperas da COP 30, é perceber nelas os indícios de uma consciência ecológica que já começava a desabrochar.

Em Homens de milho, publicado em 1949, o guatemalteco Miguel Ángel Asturias transforma o milho – base da vida e da cultura maia – em símbolo de resistência diante da modernização forçada do campo. Quando o milho crioulo é ameaçado pela lógica do lucro e pela apropriação das terras indígenas, o que está em jogo não é apenas a economia, mas a própria continuidade de um modo de existir. Em um dos momentos mais potentes do romance, o fogo que consome a aldeia torna visível essa ruptura: o incêndio devora a vegetação e os corpos, como se a própria natureza se voltasse contra o desequilíbrio imposto pelos homens. O romance entrelaça mito e denúncia para revelar o abismo instaurado quando o homem se separa da terra que o alimenta. Lido à luz do presente, Homens de milho expõe com força poética uma ideia que ainda ecoa: a destruição da natureza é também a destruição da própria memória coletiva.

Alguns anos antes, o venezuelano Rómulo Gallegos, em Dona Bárbara (1929), havia transformado a planície dos Llanos em uma espécie de espelho da própria América Latina. A disputa entre a razão civilizatória de Santos Luzardo e a força instintiva de Dona Bárbara ultrapassa o terreno moral e ganha dimensão ecológica. O romance opõe duas visões de mundo: de um lado, a ambição de disciplinar a natureza e convertê-la em território produtivo; de outro, a persistência indomável de um espaço que se recusa a ser domesticado. Gallegos parece intuir que toda tentativa de controle sobre o ambiente implica, inevitavelmente, um gesto de destruição. É difícil não enxergar no livro a alegoria de um continente dividido entre o desejo de desenvolvimento e a necessidade de preservar o que o sustenta.

Ainda antes, em Sab (1841), a cubana Gertrudis Gómez de Avellaneda já havia percebido que a dominação sobre o outro e sobre a terra pertencem ao mesmo regime de poder. O romance narra o amor impossível entre um homem escravizado e uma mulher branca, mas sua força está na forma como associa a opressão dos corpos à exploração do ambiente. A natureza, em Avellaneda, é simultaneamente refúgio e testemunha: o espaço onde a liberdade ainda é possível, ainda que precária. Essa sensibilidade aproxima a autora de uma leitura que o século XX chamaria de ecofeminista – a percepção de que as violências de gênero, raça e meio ambiente compartilham raízes comuns. A escrita de Avellaneda antecipa, com surpreendente clareza, a ideia de que o corpo humano e o corpo do mundo sofrem feridas semelhantes.

Reunidos hoje no catálogo da Pinard, esses autores revelam um mapa de sensibilidades que antecipa, com décadas de antecedência, o que hoje entendemos como colapso climático. Além de denunciar injustiças sociais, seus romances expõem uma estrutura de pensamento que coloca a natureza a serviço do lucro, o corpo a serviço do poder e a vida a serviço da produtividade. São narrativas que expõem o desequilíbrio ambiental não como ruptura, mas como herança de uma longa história de domínio e expropriação.

A literatura, nesse sentido, funciona como um sismógrafo: registra tremores muito antes de o chão realmente ceder. Asturias, Gallegos e Avellaneda escreveram sobre latifúndios, fazendas, escravidão e fronteiras, mas, por trás de cada um desses temas, pulsa a mesma inquietação – a de que o humano, ao tentar dominar o mundo, rompeu um pacto silencioso com ele. Um pacto para além da ficção.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Povo Tikuna, guardião de uma das línguas indígenas mais faladas do Brasil. Foto: Frei Arsênio Sampalmieri

Latinos em ascensão (e na pior) nos EUA. Em 2024, a população latina chegou a 68 milhões de pessoas, o equivalente a 20% dos EUA, segundo o Pew Center. Cerca de 14 milhões de imigrantes latino-americanos vivem em situação irregular, revelando o tamanho e a complexidade dessa presença que não para de crescer. Leia mais aqui.

Chat com nosso sotaque. Liderado pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile (CENIA), o Latam-GPT quer criar um modelo de IA aberto e colaborativo, treinado com idiomas e referências culturais da América Latina. A iniciativa une pesquisadores, cidadãos e governos da região para desenvolver uma tecnologia feita por e para os latino-americanos. Leia mais aqui.

Diversidade linguística em alta. O Brasil tem hoje 295 línguas indígenas faladas, 21 a mais que em 2010. São quase 475 mil pessoas que usam essas línguas em casa, com destaque para o tikuna, o guarani-kaiowá e o guajajara, as três mais faladas do país. Leia mais aqui.

Vem aí a Mostra Mercosul Audiovisual. De 8 de novembro a 7 de dezembro, a 2ª Mostra Mercosul leva 12 curtas de cinco países a 367 pontos em 250 cidades. Com o tema “Territórios e Paisagens em Transformação”, a iniciativa gratuita do MinC e da RECAM celebra a diversidade e o cinema latino-americano em todo o país. A programação deve sair em breve, mas alguns filmes já estão na plataforma do evento.

Plaza de cultura

Obra de Antônio Poteiro integra exposição em Goiânia. Foto: Wesley Costa/O Popular.

🎵 Manifesto em forma de música. Gravado ao vivo em casa e lançado em 5 de outubro, Latino-Americana, o novo álbum-visual de Kell Smith, é um retrato de pertencimento que mistura MPB, soul, batidas regionais e ritmos latinos. A artista costura suas raízes com temas de afeto, diversidade e identidade cultural, entregando um trabalho bem íntimo, político e emocional. Há uma bela versão da icônica e conhecidíssima Bésame mucho. Ouça aqui.

🎬 Mistério ribeirinho. Essa série mexicana passou sem muito zum-zum-zum, mas merecia mais atenção. Em O Segredo do Rio, da Netflix, duas crianças fazem um pacto à beira d’água, e, vinte anos depois, precisam encarar o que ficou submerso. Entre passado e presente, o drama combina realismo mágico, tensão e paisagens hipnóticas do interior do México. Ideal para quem gosta de histórias com atmosfera, mistério e profundidade emocional.

🖼️ Mais natureza. Na Vila Cora Coralina, em Goiânia, a exposição Caminhos de Terra e Vento reúne artistas do Brasil, de Cuba e de outros países latino-americanos. A mostra traça pontes entre território e identidade, com obras que abordam a natureza como força vital. Instalações, pinturas e fotografias revelam uma América Latina em constante transformação, feita de resistência e poesia visual. Em cartaz até 7 de dezembro.

Ser da América Latina

A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. Hoje ficamos com o depoimento de Igor Miranda, editor e sócio-fundador da Pinard.

Para Igor, ser latino-americano é sobreviver com bom-humor. Foto: Cortesia.

“Em minha recente viagem a Frankfurt, ocorreu aquilo que me acontece todas as vezes que saio do Brasil: um ligeiro estranhamento dos jeitos, costumes, atitudes. Eu me pegava observando aquela ordem alemã, uma maneira um pouco quadrada de levar a vida e que, de repente, era atravessada por toda uma rudeza característica. No grupo de brasileiros em que estávamos, até comentamos que os motoristas não diminuíram a velocidade se você ousasse atravessar fora de uma faixa ou em um semáforo aberto.

Ou obedece a ordem ou está morto.

Já na Autobahn, carros dos mais variados, deslizam a mais de 150 km/h, no que pode ser visto tanto como uma ode a engenharia alemã quanto uma libertação aceita dos limites que permeiam a vida desta parte da civilização. É onde eles se permitem ser rebeldes. Assim como, na cerveja, como disse o Sebastian, marido de uma conhecida brasileira.

Quando eu era criança, sonhava em viver na Alemanha. Uma clara influência do meu pai que viveu na Frankfurt dos anos 80. Fui para a faculdade de engenharia ainda com este pensamento. Mais de uma década se passou. E apesar de não ter expectativas contrárias ao que vi, de certa forma, comprovei que a Alemanha tem muito pouco a ver comigo.

Eu devo mesmo ser muito latino-americano. Um pouco sem paciência para a falta de traquejo, para o jeito travado, para o excesso de regras. Não que eu seja um defensor da bagunça, mas que bom poder respirar e ver as coisas acontecendo de um jeito menos mecânico. Que bom observar um boteco cheio, como o que eu vi no meu primeiro dia de volta, com comida farta e garçons fazendo milagres em bandejas inacreditáveis. Abraços. Conversas entusiasmadas.

Ser latino é dar um jeito de sobreviver com bom-humor. É se acostumar com o absurdo de um jeito terrível. É saber que temos tudo para avançar, mas que acabamos sempre tropeçando em instituições que nasceram apenas para extrair desde o século XVI. O que é louco é que nós acreditamos na mudança. Batemos no peito para dizer que esse lugar pobre, colonizado e usado pelo primeiro mundo é foda demais. Porque é. Fomos forjados por um tipo de dor e não nos dobramos. Estamos aqui, somos fortes, com uma cultura sobrevivente e em eterna produção. Quem não se emocionou com o Oscar de Ainda Estou Aqui é completamente maluco. Mas, Igor, para que essa validação americana da nossa cultura? Não importa! Nós só queríamos ser felizes por uma noite – e fomos! Tudo isso, para dizer que é nessa salada de sentimentos e batalhas que eu sinto que as regras não cabem no ato de sobrevivência diário de quem vive desse lado do globo. Não é bagunça, não é sobre a romantização do caos, é sobre entender a realidade como ela é – e aqui precisamos sobreviver.

Adorei a experiência de estar na maior feira de livros do mundo, de conhecer a Alemanha e viver aquele momento único. Voltarei todos os anos que puder. Vi muita coisa boa, mas como já diria Tom Jobim, Nova Iorque é muito bom, mas é uma merda; já o Rio de Janeiro é uma merda, mas é muito bom.”

Colofão

Esta edição foi concluída num domingo preguiçoso e quente, desses que pedem sombra e silêncio.

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