
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição tem livro novo no pedaço, o bom momento da cena musical cubana e o depoimento de Silvia Massimini Felix sobre o que é ser da América Latina
Leia mais– ¿Cómo entró a Chile?
– En un vagón lleno de animales.
Você piscou e a Pinard lançou um livro novo. Nós mal terminamos a pré-venda de As mortas e já estamos aqui, anunciando a nova prata da casa: Filho de ladrão, do chileno Manuel Rojas. Essa é a primeira edição brasileira da obra, que chega com tradução de Silvia Massimini Felix e ilustrações de Rodrigo Corrêa, da sobinfluencia edições. Antes dela, em 2021, a editora Veneta lançou a adaptação da obra em quadrinhos, que apresenta a trama ao público brasileiro sob a perspectiva dos desenhistas Christian Morales e Luis Martínez.
Publicado em 1951, o romance Filho de ladrão é um marco da narrativa latino-americana do século XX. Com uma prosa que combina realismo social e introspecção lírica, o livro é uma mistura de romance de formação antiburguês, crônica operária e meditação existencial. É também o primeiro de uma tetralogia que acompanha a vida de Aniceto Hevia, que cresce entre trabalhos temporários, amores, prisões e fugas, em um relato vibrante sobre marginalidade, liberdade e busca de identidade.
O livro é narrado em primeira pessoa e se organiza a partir das memórias fragmentadas de Aniceto, formando um mosaico que salta entre infância, juventude e vida adulta, refletindo não apenas sua trajetória, mas a de toda uma classe social invisibilizada. Ser “filho de ladrão” pesa sobre Aniceto a cada passo, mas o romance não se rende ao fatalismo e acompanha suas tentativas de escrever um destino próprio. Pioneiro ao escantear os heróis tradicionais, Filho de ladrão dá protagonismo a trabalhadores, andarilhos, sobreviventes e outras figuras marginalizadas, revelando o mundo através de suas vozes.
Manuel Rojas (1896–1973) nasceu em Buenos Aires, mas ainda menino se mudou para o Chile, onde se consolidou como uma das vozes mais originais do país. Além de romancista, foi ensaísta, poeta, jornalista e militante anarquista. Sua literatura nasce de suas próprias vivências, sempre atento às desigualdades sociais. Reconhecido como um mestre em construir personagens complexos a partir da experiência popular e cotidiana, Rojas alcançou em Filho de ladrão sua obra-prima. O livro lhe valeu o Prêmio Nacional de Literatura do Chile em 1952 e permanece leitura obrigatória em escolas e universidades do país.
A pré-venda de Filho de ladrão começa na quarta-feira, dia 1º de outubro, na Amazon.

Sonidos nuevos. Chamando a crise econômica para bailar, jovens músicos cubanos estão quebrando fronteiras entre tradição e modernidade. Son, timba e salsa ganham influências de hip-hop, reggaeton e música eletrônica, e encontram no digital o palco perfeito para se espalhar. Leia mais no AP News (em inglês).
Unidos e protegidos. A Iniciativa Rios da Onça-Pintada quer usar rios e cursos d’água para ligar áreas de preservação e proteger ecossistemas na América do Sul. O projeto ambicioso planeja criar corredores ecológicos que atravessam Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai, cobrindo 2,5 milhões de km² em um dos polos de biodiversidade mais ricos do continente. Leia mais na Folha de S. Paulo.
Luz, câmera, Latam. A partir de quinta-feira (2), a Mostra Première Latina do Festival do Rio vai destacar o cinema latino-americano e trazer vozes e histórias da região para o centro das telas. Entre os filmes estão Nossa terra, de Lucrecia Martel, O lago da perdição, de Laura Casabe e As correntes, de Milagros Mumenthaler. Confira a programação completa aqui.
Do sertão pro alemão. O canal da DW Brasil no YouTube mostrou os bastidores da nova tradução de Grande Sertão: Veredas para o alemão, um trabalho que levou 15 anos para ser concluído. O lançamento está previsto para o ano que vem, quando a obra-prima de Guimarães Rosa completa 70 anos.Assista aqui.

🎶 Por eso dame. “Ese Besito” é a nova faixa da cubana Melanie Santiler em parceria com o também cubano Cimafunk. A canção mistura afrobeat latino, funk caribenho e toques de reparto, estilo musical popularizado pelo grupo Gente de Zona. Prato cheio para quem quer começar a semana dançando e aprendendo gírias cubanas.
🎭 Deus e o Diabo na terra da garoa. Não me entrego, não! volta a São Paulo em curtíssima temporada no Teatro Sérgio Cardoso. Othon Bastos, com 92 anos e mais de 70 de carreira, encara seu primeiro monólogo, escrito e dirigido por Flávio Marinho, num passeio por memórias e momentos marcantes de sua vida no palco e fora dele.Ingressos disponíveis aqui.
🖼️ Arte latino-americana no Texas. A exposiçãoLatin American Art at the Nancy and Rich Kinder Building no MFAH, em Houston, no Texas, traz obras de vanguarda e artistas independentes da Argentina, Brasil, Colômbia, Uruguai e Venezuela, agrupadas para criar contrastes entre diferentes gerações, estilos e geografias da América Latina.
🎧Debatendo Ibargüengoitia. O podcast mexicano Cinegarage dedicou um episódio a As mortas, de Jorge Ibargüengoitia, que sai agora em outubro pela Pinard. Para debater a obra e sua adaptação para as telas, o convidado é Antonio Ortuño, narrador, roteirista e professor de escrita criativa, especialista na obra do autor mexicano. Ouça aqui, em espanhol.
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. Na segunda edição, fique com o depoimento da tradutora Silvia Massimini Felix.

“Para mim, ser da América Latina é fazer parte de uma história marcada por contrastes profundos. Nossa região é um território em que a riqueza cultural — fruto da diversidade indígena, africana e europeia — convive com as cicatrizes da colonização, da desigualdade e da exploração. Ser latino-americana, então, é pertencer a essa região vibrante, criativa e plural, mas atravessada por inúmeros e imensos desafios sociais e políticos.
É curioso observar que, apesar de o Brasil estar geograficamente na América Latina e compartilhar raízes coloniais, culturais e históricas com os países vizinhos, muitos brasileiros ainda não se reconhecem como latino-americanos. Essa percepção vem, creio, das diferenças linguísticas e de uma tradição cultural voltada para a Europa e os Estados Unidos.
Acredito que essa distância simbólica alimenta a ideia equivocada, mas persistente, de que o Brasil é “um caso à parte” no continente. No entanto, negar nossa latinidade é negar a força de uma identidade regional marcada pela diversidade, pela criatividade e pelas lutas comuns.
Reconhecer-se latino-americano, portanto, é entender o Brasil como parte de um coletivo maior — com o qual partilhamos não apenas problemas, mas também possibilidades de transformação.
Como tradutora brasileira de literatura latino-americana, vejo que o português — por nos distinguir da maioria hispanofalante — pode gerar uma sensação de isolamento. Mas essa diferença também fortalece nossa curiosidade, nosso desejo de diálogo e nosso esforço de aproximação com os vizinhos. Afinal, por trás das línguas distintas, compartilhamos histórias coloniais, resistências comuns, desafios parecidos e uma riqueza cultural que nos conecta. Essa pluralidade linguística é, portanto, um convite — para reconhecer que nossas vozes são diferentes, mas nossas lutas e sonhos muitas vezes se entrelaçam.
Traduzir literatura latino-americana é, para mim, uma forma de construir diálogos entre nosso país e as diversas latinidades e fortalecer nossa percepção de pertencimento à América Latina, reconhecendo a união que existe entre nós. É, no fundo, afirmar que nossas histórias merecem ser contadas, lidas e traduzidas — entre nós e por nós.”
O autor redigiu boa parte dessa newsletter nas aconchegantes instalações da Biblioteca Municipal de Ibaté, no interior paulista.
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