
Nesta edição, escritores que amavam e detestavam o futebol, o adeus a Ramiro Valdés, visita ilustre na concentração argentina e mais.
Por Chico Spagnolo
Nesta edição, um livro que nos enche de orgulho, como ajudar a Venezuela, uma seleção de filmes uruguaios e mais.
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Em 1992, o mundo vivia entre o fim de uma era e a dificuldade de imaginar a seguinte. A Guerra Fria havia oficialmente terminado, criando novas fronteiras políticas pelo mapa-múndi, a epidemia de AIDS já despertava medo em escala global, e debates sobre sexualidade, identidade e liberdade começavam a ocupar espaços que durante décadas representavam territórios proibidos. Na América Latina, o cenário era igualmente incerto:. enquanto as jovens democracias tentavam se consolidar após décadas de ditaduras e conflitos internos, a violência seguia moldando o cotidiano de muitos países. Na Colômbia, a promulgação da Constituição de 1991 convivia com os ecos do narcotráfico e de um conflito armado que parecia longe do fim. Era também o momento em que uma geração de futebolistas começava a transformar a maneira como o país se via – e como seria visto pelo resto do mundo.
Foi nesse contexto que Fernando Molano Vargas publicou Um beijo de Dick. À primeira vista, o romance até parece uma novelinha inofensiva: dois adolescentes dividem a sala de aula, os treinos de futebol e os dias comuns de uma juventude vivida em Bogotá. Mas bastam algumas dezenas de páginas para perceber que, por trás dessa aparente simplicidade, o livro registra muitas das tensões que atravessavam aquele início de década. E o faz sem abandonar a ternura, a poesia e a volúpia.
Molano conhecia intimamente esse universo. Nascido em Bogotá em 1961, cresceu em uma família de origem popular e construiu uma obra marcada pela descoberta afetiva, pela sensação de deslocamento e pela busca de pertencimento. Homossexual e, mais tarde, soropositivo, viveu em uma época em que o preconceito encontrava respaldo tanto em convenções sociais quanto em discursos médicos e religiosos. Sua literatura nasce desse contexto, mas raramente assume o tom da denúncia direta. Em vez disso, concentra-se naquilo que costuma escapar aos grandes debates: a experiência cotidiana de amar, desejar, fazer amigos e tentar encontrar um lugar no mundo.
O futebol ocupa um lugar afetivo e original nessa narrativa. E digo original porque Molano compreendeu algo que a literatura latino-americana de ficção raramente havia explorado até então: a ideia de que que os campos de futebol, os vestiários, os campeonatos interclasses da escola e os códigos da amizade masculina também eram lugares onde afetos inesperados poderiam surgir. Seus protagonistas jogam bola, compartilham brincadeiras, dividem inseguranças e sonhos. O romance não afasta Felipe e Leonardo dos espaços tradicionalmente associados à masculinidade.
Essa escolha ajuda a explicar por que Um beijo de Dick ainda interessa ao leitor contemporâneo. Durante muito tempo, histórias de amor entre homens foram narradas como exceções, desvios ou tragédias. Felipe e Leonardo não aparecem como símbolos de uma causa nem como personagens definidos exclusivamente por sua sexualidade. São adolescentes tentando compreender sentimentos que ainda não encontram linguagem suficiente para serem explicados.
O romance também funciona como um retrato de uma geração que cresceu sob a sombra da AIDS, do conservadorismo e dos limites impostos às formas dissidentes de viver e amar. Mas o livro é muito mais do que isso. Sua grande força está justamente na recusa em transformar seus personagens em problemas sociais.
Mais de três décadas depois, Um beijo de Dick continua sendo um romance singular não apenas por aquilo que narra, mas pelo lugar de onde escolhe narrar. Em um momento em que a homossexualidade era frequentemente associada ao escândalo, à doença ou à tragédia, Fernando Molano Vargas, que faleceu aos 36 anos por complicações da AIDS, escreveu uma história de amor. E fez isso sem afastar seus personagens da escola, do futebol, da amizade ou dos sonhos comuns à juventude. Seu gesto foi simples e, justamente por isso, radical: mostrar que esses afetos também pertenciam ao mundo. Talvez seja essa a razão de o romance permanecer tão vivo. Não porque fale de uma exceção, mas porque reivindica algo universal – o direito de ver a própria experiência transformada em literatura.
Com informação do ensaio de Mauricio Pulecio.

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Todos os anos, na cidade venezuelana de Yare, centenas de diabos tomam as ruas. Vestidos de vermelho, usando máscaras coloridas com chifres, presas e rostos inspirados em animais e criaturas fantásticas, eles dançam ao som de tambores e maracas durante a celebração de Corpus Christi. Para alguns, eles se parecem personagens de um carnaval ou de uma lenda popular, mas o que acontece ali é um ritual religioso com mais de 270 anos de história.
Os Diablos Danzantes de Yare nasceram no século XVIII como uma confraria de devotos que faziam promessas a Jesus Cristo em busca de curas, proteção ou graças alcançadas. Desde então, a celebração se tornou uma das expressões mais conhecidas da cultura venezuelana e um dos exemplos mais marcantes do encontro entre tradições indígenas, africanas e católicas na América Latina.
Os participantes vestem cruzes, escapulários e máscaras que indicam sua posição dentro da confraria. Há capitães, organizadores e até a figura do Perrero, responsável por manter a disciplina do grupo enquanto afasta simbolicamente os maus espíritos. Ao longo do percurso, os danzantes visitam cemitérios para homenagear membros falecidos da irmandade e percorrem as ruas em uma mistura de dança, música e devoção. O clímax chega no finalzinho: depois de horas representando forças demoníacas, os diabos se ajoelham diante do Santíssimo Sacramento, como se o mal reconhecesse sua derrota diante da fé.
Poucas manifestações latino-americanas expressam tão bem uma de suas características mais marcantes: a capacidade de misturar mundos aparentemente opostos. Nos Diablos Danzantes de Yare, a máscara do diabo não representa uma afronta ao sagrado. Pelo contrário. Ela existe justamente para lembrar quem vence ao final da dança.
Em 2012, a tradição foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. Ainda assim, sua força continua vindo das ruas de Yare, onde gerações de famílias mantêm viva uma celebração que atravessa séculos.
Esta edição foi finalizada em uma segunda-feira com cara de domingo, reflexo da partida parou o país.
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