Em desacordo

Em desacordo

Nesta edição, escritores que amavam e detestavam o futebol, o adeus a Ramiro Valdés, visita ilustre na concentração argentina e mais.

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LEITURA DE 9 MINUTOS
Sabato e Borges tinham opiniões diferentes sobre o futebol. Foto: Reprodução.

Você, que está com um olho nos livros e outro nos gramados, já deve ter notado o fenômeno: tem gente contando os dias para a Copa acabar e o futebol voltar ao normal, com seus clubes, rivalidades regionais e reclamações contra a arbitragem. E tem gente que abraça a ideia de identidade nacional e sai por aí desfilando o verde e amarelo no peito e no rosto. O único consenso entre os grupos é de que a relação entre futebol e nação é algo muito natural. Mas nem sempre foi assim.

Nas primeiras décadas do século XX, escritores como Olavo Bilac, Coelho Neto e João do Rio enxergavam no novo esporte uma espécie de espelho moderno do país em formação, algo capaz de organizar corpos, disciplinar hábitos e, sobretudo, ajudar a construir uma ideia de nação. Lima Barreto discordava com força. Para ele, o futebol (grafado “foot-ball” à época) era um estrangeirismo importado sem reflexão, uma moda passageira que desviava atenção dos problemas reais do país e reforçava uma sociabilidade elitista que pouco tinha a ver com a vida concreta da maioria da população. Essa crítica era tão linha dura que chegou a se traduzir em intervenções públicas e até na criação da “Liga contra o Futebol”, tamanho o incômodo do escritor com o esporte – para a sorte da maioria, o plano durou menos do que o 0x0 entre Paraguai e Turquia, na madrugada do último sábado.

É curioso pensar que esse embate também atingiu o nosso vizinho mais fanático por bola, a Argentina. Jorge Luis Borges levou a desconfiança em relação ao futebol a um nível filosófico: para ele, o problema não estava apenas no jogo em si, mas no tipo de adesão coletiva que ele produzia. O futebol lhe parecia um espaço de suspensão da dúvida, onde a identidade se diluía em pertencimento e onde a emoção de massa podia facilmente ser capturada por discursos políticos ou nacionalistas. Não por acaso, durante a Copa de 1978, disputada na Argentina, Borges chegou a minimizar o evento e a se afastar deliberadamente da atmosfera de euforia que tomava conta do país, reafirmando sua visão de que o esporte carregava um potencial de homogeneização perigoso.

Do outro lado desse debate argentino estava Ernesto Sabato, que via exatamente naquilo que incomodava Borges um traço humano fundamental. Para o autor de Sobre heróis e tumbas, o futebol era um dos raros momentos em que indivíduos isolados se reconheciam como parte de algo comum, ainda que por um sopro de tempo. A emoção coletiva – que Freud classificava como “sentimento oceânico” – poderia funcionar como uma forma de reconstrução simbólica do laço social, algo que nenhuma estrutura racional seria capaz de produzir sozinha. Durante o Mundial de 1978, essa visão se intensificou, com o escritor defendendo a ideia de que a alegria compartilhada em torno da seleção poderia ajudar a reacender um sentimento de pertencimento nacional num país atravessado por frustrações históricas.

A Argentina venceu aquela Copa, e o tempo acabou mostrando que os dois escritores captaram algo essencial. Borges tinha razão ao alertar para o uso político do futebol como ferramenta de legitimação simbólica, algo que de fato foi amplamente explorado pela ditadura militar argentina. Sabato também não estava errado ao perceber a potência emocional daquele momento, capaz de mobilizar milhões de pessoas em torno de uma mesma narrativa coletiva.

Não há Copa sem quem a celebre e quem a questione, não há seleção sem quem vista a camisa e quem torça contra de propósito. O embate não é um problema a resolver: é a essência condicional do jogo. E se dá para cravar algo sobre essa e qualquer outra discussão em torno do futebol, é que enquanto houver bola rolando, haverá duas forças em oposição – dentro e fora de campo.

Com informações da Folha de S. Paulo e do Ludopédio.

Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas

Comandante e herói da Revolução Cubana, Valdés faleceu aos 94 anos. Foto: Reprodução.

Até sempre, comandante. Morreu aos 94 anos Ramiro Valdés, um dos nomes históricos da Revolução Cubana. Integrante da expedição do iate Granma e participante do assalto ao quartel Moncada, ele esteve ao lado de Fidel Castro e do Che Guevara na Sierra Maestra. Nos últimos anos, ocupava o cargo de vice-primeiro-ministro e seguia ligado a áreas estratégicas do governo cubano. Veja mais aqui.

Virada apertada na Colômbia. O país elegeu o direitista Abelardo de la Espriella presidente em uma disputa extremamente equilibrada, com diferença de menos de 300 mil votos. A eleição, marcada por comparecimento recorde, confirmou a tendência de avanço da direita na América Latina, seguindo os passos de El Salvador, Argentina, Equador e Chile. Veja mais aqui.

Futebol remoto. O técnico francês Sébastien Migné levou a seleção do Haiti de volta a uma Copa do Mundo após 52 anos – e fez isso sem nunca ter pisado no país que comanda. Por que o comandante, que já deixou seu nome marcado na história do esporte haitiano, se recusa a pisar por lá? Descubra aqui.

Futebol presencial. Um encontro gratuito vai reunir Beth Leites (do clube Soy Loco por Ti, América) e Cláudia Lamego (do Janelas Abertas para a América Latina) para uma conversa sobre futebol, literatura e identidade latino-americana a partir de “Libertadores da América”, de Alejandro Droznes. É na sexta, dia 26, das 19h às 20h30, na Janela Laranjeiras. Mais informações aqui.

Plaza de cultura

O cantor La Mona agitou a concentração da seleção argentina. Foto: Reprodução.

🎶 La Mona escalado. Um dos nomes mais populares da música argentina, La Mona Jiménez animou a festa da seleção nos últimos dias de preparação para a Copa. Aos 75 anos, o ícone de Córdoba levou o clima de celebração ao elenco e voltou a colocar a cultura popular da cidade no centro da cena da Albiceleste. Veja mais aqui.

🎭 Crusoé revisitado. Com direção de Kleber Montanheiro (Gal, O Musical; Cabaret; Tatuagem), Gracias a La Vida ou Os últimos dias de solidão de Robinson Crusoé reestreia no Espaço Parlapatões, em São Paulo, durante as quintas-feiras de julho. A montagem acompanha o retorno da trupe “O Grande Circo Mágico” de uma turnê triunfal e a releitura do clássico de Daniel Defoe sob uma lente latino-irreverente, em diálogo com a obra de Violeta Parra. Ingressos aqui.

⚔️ Batalha de Assunção. Em 1992, Brasil e Paraguai protagonizaram uma das partidas mais tensas do futebol sul-americano. Pelo Pré-Olímpico, o Brasil venceu por 1 a 0, mas o que ficou em voga mesmo foi a forte hostilidade, as faltas duras e o sangue nos uniformes dos jogadores que estavam aquela noite no estádio Defensores del Chaco. Veja mais aqui.

Mil e uma narrações. Se Galvão Bueno é a sua principal referência de perenidade nos comentários sobre futebol, talvez você ainda não conheça Roberto Guerrero. Aos 90 anos, o jornalista mexicano participou de nada menos do que 15 edições do Mundial e segue na ativa trazendo mais emoção aos jogos desta edição do torneio. Conheça a história dele aqui.

Ser da América Latina

Os sonideros são um patrimônio cultural e festivo do povo mexicano. Foto: Reprodução.

Se tem uma coisa que o México sabe fazer é festa. E não é de hoje, não. Prova disso são os sonideros, um movimento urbano que há mais de 70 anos reúne DJs, engenheiros de som e animadores em bailes de rua que transformam espaços públicos em verdadeiros salões de dança a céu aberto.

O diferencial dessa cultura é a presença constante da voz. O animador fala por cima da música durante toda a festa, usando o microfone para mandar saludos a bairros, famílias e pessoas específicas, criando uma narrativa ao vivo da comunidade reunida. Em muitos casos, essa voz ganha efeitos de pitch e distorções, tornando-se parte essencial da identidade sonora do movimento.

Esse fenômeno nasceu nas periferias da Cidade do México a partir do fim dos anos 1950, especialmente em bairros como Tepito e Peñón de los Baños, onde a cumbia colombiana passou a ser apropriada e reinventada localmente. Com o tempo, o movimento também se transformou tecnologicamente, saindo do vinil e dos sistemas analógicos para os arquivos digitais e USBs, sem perder a lógica central de criar encontros presenciais a partir do som.

Mas a festa quase foi para o brejo recentemente. Em fevereiro de 2023, a alcaldesa (espécie de subprefeita) Sandra Cuevas ordenou a proibição dos bailes no Kiosco Morisco, em Santa María la Ribera, alegando reclamações de vizinhos. Os frequentadores responderam dançando nas ruas, fazendo com que um juiz federal interviesse e ordenasse a continuidade dos bailes. Pressionada, Cuevas acabou reconhecendo os próprios sonideros como “patrimônio cultural”. Oficialmente, a Cidade do México formalizou esse reconhecimento no ano seguinte, declarando os sonideros Patrimônio Cultural Imaterial da cidade.

Colofão

Esta edição foi finalizada no começo da tarde de segunda-feira, um pouco antes de Argentina e Áustria entrarem em campo.

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